Te dei olhos e olhaste as trevas, de Irene Solà
Por Sérgio Linard
![]() |
| Irene Solà. Foto: Pere Virgili |
O trabalho de quem se propõe a escrever literatura é sempre árduo e arenoso, porque, a conquista, por exemplo, de uma boa obra circunda aquilo que ainda virá sob a mesma rubrica. A comparação com o que já se fez não deixa de ser um caminho possível e viável para a leitura, mas não se pode esquecer que a tocha com a chama olímpica a passar de mão em mão também receberá digitais novas daquele que voluntariosamente a carrega. No papel de críticos literários, precisamos, pois, olhar para trás, porém sem ignorar que o retrovisor é um dos acessórios possíveis para o foco e não o único. Assim como a literatura está sempre neste limiar, a crítica deve, também, saber equilibrar-se nesta corda bamba.
A simples comparação direta entre o primeiro romance de Solà, Canto eu e a montanha dança e Te dei olhos e olhaste as trevas que agora resenhamos levar-nos-ia a um veredito: aquele foi melhor desenvolvido do que este. Mas ao olharmos para o espectro da construção de um projeto literário robusto e articulado, encontraremos similaridades do ponto de vista da forma com algumas heranças no conteúdo.
Quando resenhei para esta mesma casa o excelente Canto eu e a montanha dança, entendi como importante registrar o elogio à editora pela nota introdutória que muito bem “preparou” o terreno para o leitor acerca do que encontraria nessa obra fortemente polifônica. No caso deste novo romance, o grupo editorial não viu isso como necessário, mas cabe aqui uma reflexão, tendo em vista que, mesmo sendo um texto um pouco mais linear do que o anterior, em Te dei olhos e olhaste as trevas, o fluxo temporal também merece similar nota; não porque sem ela seja impossível ler o livro, até porque ele foi escrito sem algo deste tipo, mas sim porque não haveria quaisquer tipos de prejuízos à experiência leitora uma pavimentação acerca da possível “confusão” temporal a ser encontrada no romance. Uma nota que poderia ser facilmente “ignorada”, mas que serviria de auxílio a quem por ela tivesse interesse. Um acessório que não atrapalha e pode ser bem-vindo, por que não o usar?
Falemos mais especificamente da obra agora. Te dei olhos... é um romance decente, porém, carente de uma construção mais robusta e melhores desenvolvimentos dos núcleos dos personagens desta história que começa no capítulo “Madrugada” e termina em “Noite”, percorrendo todos os momentos de um dia. A mesma oralidade encontrada em Canto eu e a montanha dança também aparece aqui, mas de forma um pouco mais condensada; a autora vale-se de uma estratégia de narração em que os personagens contam histórias e confabulam uns com os outros.
A oralidade e a polifonia constituem um caminho relativamente comum na literatura contemporânea, pois, uma vez que com a voz de um narrador ter-se-ia de despender maior tempo com descrições e construções de psiques das personagens (estratégia também adotada no primeiro romance da autora), algo que parece ter menos espaço na literatura atual. Falta ver se se trata de uma tendência estética ou de uma simples conformação entre o fazer literário e a necessidade de as leituras rápidas para leitores também mais apressados. O fato é que, por meio dessa estratégia, a escritora catalã furta-nos de alguns conhecimentos sobre as mulheres que lemos, mas agracia-nos com suas histórias contadas quase ao modo do narrador-contador benjaminiano. Esses são momentos conduzidos com maestria e trazem para a obra uma leveza inesperada em contraste com as obscuras sombras que a circundam desde o título.

Além da marcante oralidade, em Te dei olhos e olhaste as trevas, temos uma presença importante de um conteúdo religioso/ espiritual. Essa constatação, inclusive, fica melhor confirmada ao se perceber que o título do livro parte de uma fala de Deus na narrativa. Existe um pacto entre o personagem Margarida e algo que nos remete a uma figura demoníaca. Cumprindo-se o combinado e o esperado para este tipo de acordo em que, invariavelmente, pede-se a alma daquela que alienou-se às trevas satânicas, uma figura taurina assombra a personagem que, por seu turno, tenta escapar e encontrar brechas para que sua dívida não seja quitada.
Neste contexto, a divindade revela-se e estabelece diálogos para, também ela, cobrar aquilo inicialmente ofertado de modo gratuito. Vejamos: “‘Afasta-te de mim, endemoninhada, que te dei ouvidos e escutaste o outro’. A Margarida olhava aterrorizada para a bunda do cavalo e negava com a cabeça, ‘que te dei boca e confabula com outro’, ela se atravancava, mas o clamor continuava, ‘que te dei olhos e olhastes as trevas’”. (p. 61)
Nesta interpelação feita por Deus, Margarida, em defensiva, nega aquilo de que é acusada e é sua postura em praticamente todo o romance. Aqui o personagem parece configurar-se como um alguém sempre disposto a ultrapassar limites para atingir aquilo que lhe interessa e, para tanto, adota a estratégia de fingir haver a inexistência de consequências para seus atos. Quando cobrada pela espiritualidade das trevas, Margarida busca saídas malandras, quando reivindicada pelo potencial espírito de luz, busca a negativa como escape.
Assim, pois, acaba construído o romance sobre o qual falamos, uma história de quases em que o conteúdo literário surpreende por estar nesta posição escorregadia entre atingir-se uma superfície explicativa e adentrar-se numa verticalidade reflexiva. Como resultado, tem-se uma contemplação com excelentes trechos, mas também com algumas falhas que poderiam levar ao riso; contudo, a aura de trevas que se tentou imprimir aproxima esse riso mais do constrangimento do que da galhofa: “descia os degraus de dois em dois, mas os peidos saíam de três em três” (p. 55).
Fluidos e entranhas são, registre-se, recursos textuais bastantes explorados em Te dei olhos... Esses momentos, geralmente, são muito bem elaborados e dignos de elogio, pois demonstram a crueza das cenas a serem construídas neste livro obscuro e de temporalidade confusa. O elemento tempo, tão importante para a narrativa, talvez tenha sido a maior experimentação da autora com este novo romance. E experimentar é sempre um risco; corrê-lo é importante e, não obstante, um destaque para escritores que percebem que somente por meio deste ato de se arriscar é que a literatura efetivamente poderá retroalimentar-se e ganhar “novos” ares. Neste caso, cabe, porém, um alerta ao leitor: a atenção fluxo temporal deve ser redobrada, sob pena de que a história resulte maçante.
Neste novo romance, Solà reafirma-se como quem se desprende até mesmo de seu fazer literário para arriscar-se em busca dos potenciais da linguagem. Essa obra prova que, para a autora, testar a escrita é um caminho válido para fugir do “chover no molhado”, mesmo que isso gere desconforto em seu público cativo. Um romance de leitura recomendada, mas com necessária parcimônia por parte de quem tem este texto em mãos.
______
Te dei olhos e olhaste as trevas
Irene Solà
Luis Reys Gil (Trad)
Mundaréu, 2024
Mundaréu, 2024
160 p.

Comentários