Chopin frio, a barcelonesa e o pianista. Coetzee conta um amor tardio.

Por Felipe Vieira de Almeida 




Já escutei um terapeuta falar que o caminho mais rápido para perdermos a paixão por alguém é conhecer essa pessoa a fundo o mais rápido possível. O contato com as limitações cotidianas dissipa nossas fantasias e idealizações e nos permite enxergar o ser humano real que está por baixo de nossas projeções. Em O polonês, J. M. Coetzee se inspira no amor idealizado de Dante Alighieri por sua musa Beatriz Portinari (Beatrice, a depender do tradutor) para nos entregar a história do relacionamento entre um pianista polonês setentão e uma socialite barcelonesa casada e com seus quarenta e tantos anos de idade. Entre os personagens há barreiras ao conhecimento profundo e rápido dos amantes, entre elas a diferença de idioma que se impõe como uma protagonista dessa história de amor, quase uma terceira protagonista que vem turvar essa relação de curta duração e longas consequências.

O sul-africano laureado com Nobel de Literatura pelo que a Academia Sueca considerou sua abordagem do “estranho”, obras que ele mesmo julga terem indagado e depois respondido na medida do possível as suas preocupações iniciais de escritor, faz em O polonês uma narrativa alheia ao que seria seu famoso estilo. Suas obras recentes foram recebidas com surpresa por seus leitores mais assíduos justamente por esse aparente abandono da abordagem que o levou à aclamação literária. 

Publicado no Brasil com tradução assinada por José Rubens Siqueira, o livro se inspira no caso florentino de fixação platônica de Dante que deu origem aos poemas de Vida nova. Coetzee, por outro lado, nos coloca ao lado de uma Beatriz contemporânea, vendo através de seus olhos toda a idealização de Witold. Se, ao que tudo indica, o amor dantesco foi platônico, aqui ao menos há uma aproximação breve entre os amantes que desvia o rumo da vida de Witold ao passo que os contatos com o pianista representam para Beatriz inflexões mais ou menos indesejadas, mas que ela também não se recusa a participar, pelo contrário, se vê abandonando resistências iniciais sob os convites declarados ou velados de seu admirador. 

A Beatriz de Coetzee é mais protagonista de sua história no sentido em que dá o tom e os limites da relação que se permite viver com Witold ainda que para isso ela fique às voltas repensando consequências e em certos momentos, até com mais afinco, as aparências e significados de suas escolhas.

Um dos pontos centrais nesse livro é o caso de Beatriz ser uma socialite espanhola, Witold um pianista polonês e compartilharem de um inglês limitado para se comunicarem. Ela vive a imaginar se ele consegue usar o inglês com a maestria necessária para traduzir com precisão o que pensa ou se o que o amante diz em inglês é apenas uma versão distorcida daquilo que realmente sente. Essa limitação da linguagem culmina num ponto extremo ao final do livro onde a diferença de idiomas se coloca como uma barreira quase intransponível entre os dois. Beatriz se descobre na posição de escolher se aceita o desafio de construir pontes para alcançar uma última aproximação com o homem que a amou perdidamente à maneira dele além das fronteiras polonesas, tanto físicas quanto linguísticas.

Se Witold vê em Beatriz uma musa adorada, ela se encontra mais envolvida com sua própria subjetividade, especificamente com o que essa paixão intensa dele tem a dizer dela mesma. Em suma, a Beatriz de Coetzee vê com curiosidade, mas não surpresa, o desejo de seu Dante polonês. Beatriz é quase o oposto de seu pianista, ele a idolatra cegamente, ela evita suas paixões, as analisa, as tolhe e aceita com certo desdém o pouco que se permite. O jogo da interpretação, típico do balé inicial dos relacionamentos amorosos, em O polonês, se expressa em múltiplas camadas: entre homem e mulher, entre falantes de línguas diferentes, entre um artista e sua patrocinadora.

O polonês tem a mesma idade que Coetzee quando escreveu o livro. Em uma das cenas ele narra o clichê imemorial: o encontro do artista com seus mecenas, jantar no qual deve dar a seus anfitriões algumas pérolas que façam valer o investimento, de preferência uma conversa que possa ser usada como capital social em reuniões da alta sociedade. Justificar a sua arte, como Beatriz demanda e Witold se recusa, saindo pela tangente. O artista que toca o piano, escreve um livro ou canta uma música tem algo mais a dizer além de sua própria criação? Deveria tê-lo? Para a esposa de um banqueiro é provável que sim.

O polonês é um livro curto que para um leitor desavisado pode passar desapercebido em termos de profundidade e capricho técnico, mas é uma obra sutil até o ponto em que se recusa a sê-lo. Coetzee trata de mais do que parece à primeira vista com a delicadeza de quem já escreveu a contento próprio sobre assuntos mais pesados e com mais crueza do que o faz aqui. Enfim, este é um trabalho da maturidade que recompensa os leitores com a segurança de quem não precisa impressionar para ser ouvido, assim como o Chopin interpretado pelo pianista polonês Witold Walczykiewicz.


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O polonês
J. M. Coetzee
José Rubens Siqueira (Trad.)
Companhia das Letras, 2025.
144p

Comentários

Unknown disse…
Ótimo esse video. Valeu pedrito.

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