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Mostrando postagens com o rótulo J. M. Coetzee

Chopin frio, a barcelonesa e o pianista. Coetzee conta um amor tardio

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Por Felipe Vieira de Almeida  Já escutei um terapeuta falar que o caminho mais rápido para perdermos a paixão por alguém é conhecer essa pessoa a fundo o mais rápido possível. O contato com as limitações cotidianas dissipa nossas fantasias e idealizações e nos permite enxergar o ser humano real que está por baixo de nossas projeções. Em O polonês,  J. M. Coetzee se inspira no amor idealizado de Dante Alighieri por sua musa Beatriz Portinari (Beatrice, a depender do tradutor) para nos entregar a história do relacionamento entre um pianista polonês setentão e uma socialite barcelonesa casada e com seus quarenta e tantos anos de idade. Entre os personagens há barreiras ao conhecimento profundo e rápido dos amantes, entre elas a diferença de idioma que se impõe como uma protagonista dessa história de amor, quase uma terceira protagonista que vem turvar essa relação de curta duração e longas consequências. O sul-africano laureado com Nobel de Literatura pelo que a Academia Sueca co...

Cenas da vida na província, de J. M. Coetzee

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Por Henrique Ruy S. Santos     Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime.   — Fernando Pessoa, “Tabacaria” J. M. Coetzee. Foto: Edwina Pickles Todo ato de leitura, especialmente a leitura atenta, aquela que se debruça sobre um texto para produzir algum tipo de interpretação materializada, é um ato carregado de tensões e embates. Embates suscitados por um jogo de forças entre o que o texto por si propõe e o que nós, como leitores de outros livros (sim), mas também (talvez ainda mais) recipientes atordoados de informação, ofertamos como nossa bagagem. A equação, a esta altura, já traz consigo um certo cheiro de coisa empoeirada: obra em si + experiências do leitor = leitura. Para além das infinitas problematizações que cada termo dessa equação pode levantar, é ao resultado da soma que minha atenção aqui se volta brevemente. Em que medida essa leitura que se dá com...

Coetzee: a maldição de escrever

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Por Rafael Narbona J. M. Coetzee. Foto: Murray White J. M. Coetzee já é, sem dúvida, um clássico. Não porque tenha recebido o Prêmio Nobel, mas porque conseguiu penetrar nos estratos mais profundas da consciência humana com uma prosa cuidadosamente refinada, onde a concisão e a precisão se unem à introspecção e ao lirismo. Com este texto concluo o meu percurso por alguns dos livros que antecederam a atribuição do Nobel em 2003.   Alguns apontam que a Trilogia de Jesus carece do interesse de seus romances da maturidade, mas acredito que ainda reflita um firme compromisso com a inovação. Coetzee não se limitou a repetir uma fórmula. Cada livro constituiu um exercício de renovação e autocrítica. É a atitude que caracteriza os grandes criadores.   Dostoiévski e a maldição da escrita¹   A literatura alimenta-se de literatura. Daí, o escritor sul-africano faz de Dostoiévski o protagonista de uma de suas ficções. O escritor russo possuía um enorme talento e uma personalidade obs...

Coetzee: o coração da história

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Por Rafael Narbona J. M. Coetzee. Foto: Bert Nienhuis.   Misturar literatura e vida nunca é fácil. Se coexistirem no mesmo texto, podem interferir ou desfigurar-se mutuamente. No entanto, se conseguirem unir-se, poderão revelar-nos a camada mais profunda da nossa cultura. Coetzee realizou esse feito em Foe , romance publicado em 1983. Foe não é um simples palimpsesto que recria a história de Robinson Crusoé a partir da perspectiva de uma mulher. Não se trata de literatura sobre literatura, mas de uma tripla investigação, onde se especula sobre a civilização, a escrita e a criação artística.   Quando Susan Barton é abandonada por uma tripulação amotinada, seu barco chega acidentalmente à Ilha de Crusoé. Acompanhado pela Sexta-Feira, o homem que ali está não é um colonizador, mas um náufrago que sobrevive apaticamente, contentando-se em construir inúteis lavouras, onde pode semear sementes inexistentes. Não é essa mente cartesiana que Michel Tournier recria em Sexta-feira ...

Coetzee e a negra flor da civilização

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Por Rafael Narbona J. M. Coetzee. Foto: Jakob Hoff   John Maxwell Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é um escritor cru e demolidor. Embora em seus romances aborde o tema da expiação e da redenção a partir de uma perspectiva não religiosa, ele não traça ilusões sobre a possibilidade de uma humanidade libertada de seus egoísmos, mesquinhezes e aberrações morais. Seus livros são breves e seu estilo minimalista.   Inteligíveis e de estrutura linear, não representam um desafio à compreensão, mas a sua aparente simplicidade não é sinônimo de banalidade, mas de uma aguda exigência estética e moral. A sua ficção reflete sobre o sexo, os afetos, a solidão, a discriminação racial, a violência da cultura ocidental, a criação literária, a ligação entre o ser humano e a terra, o horror da colonização, que é o caso da África do Sul, o seu país natal, desembocado no monstruoso apartheid .   Apesar do pessimismo predominante no entorno desse mundo literário, há sempre áreas on...

Desonra, de J. M. Coetzee

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Por Pedro Fernandes   É recorrente entre os leitores de J. M. Coetzee que uma de suas principais frentes criativas reside em revelar a complexidade étnica-social de seu país natal com o acurado interesse de alguém em distanciamento mas incapaz de negar os estreitamentos da pertença. É possível que este conceito seja derivado de Desonra uma vez ser este o romance do escritor sul-africano mais provocativo nesse sentido, principalmente se atentarmos para as implicaturas entre campo e cidade, ou mesmo certa dificuldade entre as leis pessoais e o estamento jurídico herdado, como se sabe, dos modelos ocidentais. Nele repousa a síntese de perfeita e radical impotência do sujeito, capaz de nos colocar entregue a certo fatalismo do fim, com todas as características do ocaso, a ruína, a perdição, a usura, a penúria, o opróbrio, a injustiça, marcas que transformam o futuro numa impossibilidade, o recomeço numa utopia inviável. Isso significa que este lugar forjado pelo romancista não é exclu...