O erotismo onírico que expôs os limites do surrealismo francês

Por Felipe Vieira de Almeida 

Georges Bataille. Foto: Hans Hinz



Três jovens: o narrador sem nome, Simone e Marcelle, vivem uma sequência vertiginosa de transgressões e profanações pontuadas repetidamente por “objetos equivocados” que retornam e se multiplicam em cenários variados acompanhando em profundidade semiótica aquilo que se abre narrativamente como erotismo desenfreado. Esse é o esqueleto de História do olho, livro assinado originalmente pela corruptela Lorde Auch e escrito pelo francês Georges Bataille.

Atribuímos o surgimento do movimento Surrealista à publicação do Manifesto surrealista de André Breton em 1924, vanguarda tanto estética quanto política que, a grosso modo, explorava meios de liberação do inconsciente para alcançar o maravilhoso através de uma revolução tanto estética quanto política. Dentre os célebres embates e proscrições das vanguardas europeias, chama atenção o racha direto entre Breton e Bataille que publicou seu primeiro livro literário, História do olho.

Incontornável título da literatura erótica e transgressora, o livro de 1928 colocou às claras o conflito intelectual entre os dois, ou melhor, nem tanto às claras visto que História do olho circulou inicialmente de forma discreta e restrita pelos meios vanguardistas e isso em grande medida porque esse texto carrega o que o próprio Breton rejeitava na abordagem de Bataille e condensa as posições inconciliáveis entre ambos. 

Georges Bataille esteve sob influência direta do grupo que deu origem ao surrealismo. Desde o início compartilhou preocupações estéticas e políticas sem, no entanto, ser propriamente um correligionário. A sua abordagem desaguava em posições que foram denunciadas e rejeitadas com veemência pelo núcleo duro do movimento. Ele explorou o inconsciente com o interesse típico dos surrealistas e em História do olho essa exploração é colocada no divã ao final do livro. No desfecho da narrativa propriamente literária opera uma transgressão formal onde até então a transgressão era narrativa e na segunda parte do livro é o autor quem explica o trajeto autobiográfico da obra que inclui correlações de memórias de sua infância com um pai cego, sifilítico e acamado e a mãe que sofria de doenças psiquiátricas — um texto que se coloca entre a autobiografia e a autoficção, esculpido de forma a incluir uma segunda camada ao conjunto do livro.



A semiótica do livro foi amplamente explorada por Roland Barthes, indicando a riqueza do encadeamento insólito de olhos, ovos, lágrimas, leite, sol, urina, gemas, enfim, imagens que se repetem e se transformam ao longo do texto pontuando o jogo narrativo de Bataille nos múltiplos episódios oníricos. Digo oníricos pois ainda que pudessem ser relatos e não tenham nada declaradamente fantástico, suas cenas possuem a natureza do sonho ao construírem um clima de realidade deturpada e fora de controle onde os personagens não existem como entidades completamente autônomas. Como num sonho, seus personagens parecem parte contínua da cena e existem já inseparáveis daquilo que lhes acontece e daquilo que fazem; há um véu de inquietação entre texto e leitor sob o qual a ação tende ao incongruente e parece servir a impulsos tão entremeados naquela realidade de sonho, transgressão e angústia que se comportam com a intensidade errática e incompreensível do pesadelo. 

Bataille não se preocupava em encontrar saídas “elevadas” para suas explorações, ao contrário do movimento surrealista que pretendia alcançar níveis inauditos em suas produções artísticas e intelectuais através de métodos que pudessem liberar o inconsciente ou até mesmo torná-lo materializável em alguma medida. Os caminhos explorados pelo autor o levaram para um baixo corporal e moral que não apresentava saídas por si só e ele não via problema nisso, pelo contrário, foi a partir desse ponto que pôde vislumbrar seus maiores achados posteriormente desenvolvidos em suas obras filosóficas, entre eles a própria ideia do erótico como experiência sagrada e a conexão entre o sagrado tradicional com esse baixo que se coloca usualmente em oposição. 

Ao construir linhas de raciocínio novas a partir da exploração de seu próprio inconsciente Bataille foi um tanto surrealista, porém seu desapego com os postulados estéticos e morais do movimento asseguraram que até no pós-guerra, quando reconheceram mutuamente sua importância histórica, Bataille e Breton seguissem defendendo como impossível a conciliação entre os dois.

O trabalho de explorar o domínio do erótico é deixado à margem, posição de onde nunca pode sair, dada a própria natureza de seu objeto. O que, no entanto, se esconde onde evitamos olhar por conta de nossas limitações morais pode ser mais valioso que a proteção de nossos brios. O controverso pensamento de Georges Bataille se situou por algum tempo nesse ponto cego que felizmente tende a mudar de posição ao longo da história. 

Susan Sontag chegou a defender o livro como uma obra de literatura valiosa e que não poderia ser reduzida à categoria de pura pornografia simplesmente por seu conteúdo erótico. História do olho continua sendo uma pequena joia “surrealista rebelde” que contém as sementes de um corpo teórico importante que se construiu nas décadas posteriores a sua publicação e os entroncamentos finais das questões propostas ali me parecem ser cada vez mais atuais.


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História do olho
Georges Bataille
Eliane Robert Moraes (Trad.)
Companhia das Letras, 2018
136 p.


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