Gainsbourg, o homem que amava mulheres, de Joann Sfar


Por Pedro Fernandes



Depois de Piaf, um hino amor, pode-se dizer que essa é a segunda peça mais interessante quando o assunto é cinebiografia de grandes compositores. Gainsbourg – o homem que amava as mulheres (subtítulo mal inserido) é uma grata surpresa a mim que só conhecia o francês ouvindo Je t’aime – não sem ficar um tanto ruborizado quando essa música explodia no ar. O crítico Nelson Motta aferiu como a melhor música para motel já feita no último século. Também pudera; Je t’aime não é bem música, mas um orgasmo musicado e daí meu rubor que vinha, obviamente, ao ouvi-la em companhia dos pudores familiares.

Volto, antes de uma rápida leitura desse filme, ao subtítulo, o homem que amava mulheres para explicar o porquê da observação entre parêntesis, subtítulo mal inserido. É que, embora o filme permaneça à volta do Gainsbourg amante, afinal o compositor trouxe para seu harém, ninguém menos que Jane Birkin, Juliette Gréco e a divina Brigitte Bardot, o filme não se fixa aí, como não se fixa num relato estritamente biográfico. É este um filme cujo tema central parece ser a atmosfera ou o estágio de criação do compositor, a começar pelos traçados vagos do pincel ainda na infância e adolescência quando Gainsbourg se dizia querer ser pintor. Se na música, foi um transgressor, nas artes plásticas abandonadas quando ninguém via que o ascendente a pintor tinha algum futuro, ele também já fugia do comum. Preso numa França ocupada pelos nazistas, Gainsbourg vive encantado pela nudez, dá uma de grande artista e os desenhos beiravam o pornográfico, quando assim não eram vistos para os enfurnados nas artes plásticas pela época.   

E é o foco enviesado que o diretor o que me chama atenção. A trama do filme compõe-se de uma mistura de fatos do passado com o presente, de vozes reais com projeções subjetivas que alcança a proposta elaborada pelo cineasta que ao invés de entender Gainsbourg, senti-lo. Daí a manipulação entre o real da ficção e o imaginado da personagem, o extenso jogo de diálogos de si para com seus alter-egos, dos contrastes com as cores ou a nebulosidade da fumaça do cigarro pairando de uma ponta a outra a atmosfera do filme. E outra observação pertinente – a divisória temporal do filme ancorada nas fases musicais do artista francês: o rock, o jazz, o reggae e o eletrônico. De modo que, não será exagero dizer, a música figura como personagem em atuação direta para com a personagem central da trama.

Talvez o fato de o diretor de Gainsbourg incorporar-se na própria figura do compositor o tenha feito também transgredir o formato comum das cinebiografias. Sfar, como cartunista, leva às telas o enredo que ora se prende numa possibilidade de graphic novel ora se prende a uma possibilidade de conto (em algum lugar li que esse é o gênero adequado para enquadrar esse filme) em que leva o longa sair para o universo da fantasia, sem, entretanto, se perder por lá; do contrário são nesses momentos que somos colocados diante da essência da personagem e isso faz de Gainsbourg – mais que uma surpresa – um filme impecável.


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