O lado bom da vida, de David O. Russel




Já foi comentário por aqui da grande gafe cometida nesta última edição do Oscar ao dar o prêmio a Jennifer Lawrence pela sua atuação neste filme. Não é que atriz não esteja bem. É que a atuação é simplória se formos ver o trabalho de Emmanuelle Riva, por exemplo, em Amor – comentávamos. Se a atuação é um caso à parte e houve injustiça, é caso de se perguntar se o filme não atende à expectativa do telespectador. Não, não atende. Tem um enredo bem construído, uma narrativa sem arestas, mas não atende a expectativa do telespectador. Talvez os arsenais que nos preparam para ver o filme, o trailer, boa parte das resenhas e aquela badalação feita em torno da produção de David O. Russel sejam os reais responsáveis pelo dissabor enfrentado por quem se senta quase duas horas para vê-lo.

Agora, não é caso de dizer que seja este O lado bom da vida um péssimo filme. Também não. O diretor já cometeu coisas piores, mas não é este nada que decole do chão. Tudo é muito previsível e o drama se perde no riso, pecando na classificação de comédia dramática. É este sim, uma comédia romântica, porque o drama passa longe mesmo sendo ensaiado.

Se apropriando da ideia-tema “de perto todo mundo é anormal” ou “de louco todo mundo tem um pouco”, Russell põe em cena, um “recém-louco” saído do manicômio para findar o tratamento em casa – sabemos logo que o rapaz que passa boa parte do filme correndo envolto no saco de lixo, estratégia para alavancar o suor e perder calorias mais rápido, teve um distúrbio psicológico depois de flagrar sua mulher por quem é igualmente louco de amores numa pesada cena de sexo com o amigo de trabalho; do choque, a tentativa de assassinato do corneador.

Até aí, tudo bem, tem-se a propriedade para um desencadeamento do drama. Até que, por medo de que filme se reduza a um dramalhão barato, coloca-se no meio do caminho, num daqueles encontros provocados de propósito, uma jovem (a Jennifer Lawrence), recém-viúva e igualmente louca,  – pelo quê, adivinhem? – a morte do marido. Daqui em diante não será mais preciso dizer nada que leitor astuto já terá em mãos o desfecho da história. Não topará nas conclusões com os intermédios: um pai metido no vício do futebol e nas apostas, uma mãe que não faz mais que caras e bocas pelo filho, pelo marido e pela situação a que a família vai se metendo, um concurso de dança no qual se metem os dois loucos e... só. Intermédios que não terão outro papel que não o de adiamento do desfecho positivo da trama.

Tem uma construção de diálogos bem arquitetada, ao menos, mesmo numa trama em que quase todos, ou, por que não generalizarmos, todos têm parafusos a mais ou a menos, sobra alguns ao diretor para não se perder e instalar um vai-e-vem no qual o enredo se transforma desde o encontro das duas personagens principais. No mais, é possível reiterar aqui o que outros críticos terão melhor observado: o clima da dança para participação do casal num concurso cuja previsão de vitória é coisa inexistente, poderia dá o fôlego buscado pelo diretor quando resolve por a viúva no caminho do ex-professor; poderia se ensaiar aí o embaraço divertido daquele concurso de dança em Pequena Miss Sunshine. Não é o que acontece. Seríssimos, os amadores entre os profissionais de linha conseguem atingir os pontos exatos da aposta contribuindo para um desfecho armado desde o princípio de tudo: todos felizes para sempre, todos ricos sem muito esforço, todos...


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