A recepção da literatura brasileira na França
Por Márcio de Lima Dantas
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| Paulo Coelho. Foto: Niels Ackermann |
Para nós, estudiosos e professores de literatura brasileira no Brasil, que vivemos e pesquisamos aqui na França, nos é extremamente esquisito o fato de Jorge Amado e Paulo Coelho serem os escritores brasileiros mais conhecidos quando se refere à nossa literatura nacional. Quando se fala em literatura brasileira, são os dois únicos nomes que vêm à memória. Fato que só temos a lamentar, pois somos detentores de uma rica literatura, tanto em ficção quanto em poesia, inclusive os nossos grandes escritores já foram traduzidos para a língua de Montaigne.
Inicialmente seria bom separar o joio do trigo. Muito bem, Paulo Coelho não é escritor, nem nunca será. No Brasil, não tem o estatuto de escritor, não é reconhecido por pessoas com um relativo repertório cultural, nem muito menos pela crítica especializada, que não o tem em conta — e com razão —, como objeto de estudos. Ninguém perde tempo com a obra deste senhor, visto que não remete a nenhuma linha de tradição da literatura brasileira. De tão redundante e com tensão mínima é sua “produção literária”, que alguns intelectuais se dão ao luxo de dizerem: “não li e não gostei”. Por outro lado, não se inscreve como autor experimental, nem na forma, nem na substância, visto que se inscreve mais numa tradição realista da literatura infanto-juvenil: frases curtas, ordem direta, vocabulário cotidiano, entrecho simples com um só foco narrativo, configurando uma narrativa linear de fácil decodificação. Ideal para ser lido à beira de uma piscina de um dos parques temáticos contemporâneos. Pode-se, com efeito, ler um parágrafo e depois dar uma espiada ao redor para ver se apareceu algo de interessante na paisagem, sem perder absolutamente nada da “história”.
A verdade é que o gosto generalizado pelos livros de Paulo Coelho é sintoma de algo mais grave, a saber, o gosto por narrativas curtas, fáceis de ler e que não impliquem em esforço mental nenhum por parte do leitor. Esse fenômeno toma um fôlego enorme no final do século passado e início deste e atinge todas as manifestações artísticas. Há até quem diga que estamos vivendo o início do fim da cultura dos livros (Harold Bloom). É uma das características mais marcantes do espírito da nossa época. Nesse sentido, o autor de O alquimista (autor preferido das atrizes de tv do Brasil, das modelos, misses e por todos os perdidos adeptos da new age) se constitui mais um fenômeno sociológico do que mesmo um fenômeno estético, pois, com certeza, logo que passar essa tal onda new age também escorrerá junto para o lixo da história.
Com relação a Jorge Amado, é necessário dizer de suas filiações temáticas e estilísticas. Herdeiro das técnicas narrativas do século XIX, plenas de tramas e subtramas, o seu neo-realismo (sobretudo antes de Gabriela, cravo e canela e Dona Flor e seus maridos) a serviço do Partido Comunista Brasileiro tem dado ao leitor “pieguice e volúpia em vez de paixão, estereótipos em vez de trato orgânico dos conflitos sociais, pitoresco em vez de captação estética do meio, tipos ‘folclóricos’ em vez de pessoas, descuido formal a pretexto de oralidade... Além do uso às vezes imotivado do calão: o que é, na cabeça do intelectual burguês, a imagem do eros do povo. O populismo literário deu uma mistura de equívocos, e o maior deles será por certo o de passar por arte revolucionária. No caso de Jorge Amado, porém bastou a passagem do tempo para desfazer o engano” — cito Alfredo Bosi na sua História concisa da literatura brasileira.
Jorge Amado é conhecido pelas suas narrativas caudalosas e cheias de peripécias. O entrecho está sempre em evidência e a densidade psicológica das personagens quase não existe. Seus personagens não têm nenhuma complexidade, são estruturados em esquemas bastante simplificadores da psicologia humana, quer dizer, ou são bons ou maus, é evidente que os proletários são todos bons, os burgueses e grandes proprietários de terras, maus. O realismo socialista poucas vezes foi tão bem praticado. Ele próprio admite que “o estilo é secundário”, ou seja, literatura não é forma, mas conteúdo...
No Brasil, quando uma pessoa mais intelectualizada quer justificar seu gosto pela obra do escritor baiano costuma alegar que “mas você não pode negar que ele é um grande narrador”. Parece que não há outro argumento para se admirar a obra desse escritor.
Não vejo mal nenhum em se ter a capacidade de contar uma história (lembro que ele é oriundo da região Nordeste, a menos industrializada do Brasil, tradicionalmente vinculada a uma cultura oral), o grave é quando essa história veicula caricaturas e sedimenta preconceitos não só de uma região, mas extensiva a todo um país. É inútil e repetitivo dizer que o Brasil é um país com uma enorme diversidade socio-geográfica e uma grande pluralidade cultural. Algumas pessoas, felizmente, já sabem disso.
Creio que o boom consumista da obra de Jorge Amado e Paulo Coelho se deve a basicamente dois fatores. O primeiro, diz o que os europeus querem ouvir do Brasil, ou seja, carnaval, sincretismo religioso, mulatas lascivas. O segundo, fala do que todos querem ouvir nesse tempo ainda pleno de sentimentos místicos. Tempo que pode ser assim resumido: “salve-se quem/ como puder!” Um consegue atingir um registro mais alto do espírito do tempo, o outro se inscreve mais num registro particular, na medida que se trata das representações sociais em torno de um país, o Brasil. Outra coisa a ressaltar é o marketing maciço e pesado das casas de edição em cima dos dois. Como todo mundo sabe, ambos souberam “gerenciar” muito bem suas carreiras.
A recorrente indicação de Jorge Amado para o prêmio Nobel de literatura, antes que José Saramago merecidamente o recebesse, pareceu-me extremamente impertinente quando ainda tínhamos vivo esse que é, talvez, o maior poeta vivo em língua portuguesa: João Cabral de Melo Neto. Só mesmo por desinformação absoluta é que Jorge Amado poderia ser agraciado com tal prêmio, mesmo porque elevaria um certo tipo de escritura à categoria de verdadeira Literatura, por outro lado, ao se considerar sua literatura como expressão da “identidade do povo brasileiro” (como querem alguns desavisados), contribui cada vez mais para cristalizar representações distorcidas e estigmatizadoras em torno do Brasil.

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