Falando com os mortos

Por Rafael Bonavina





Há alguns anos, li o romance Uma história comum, de Ivan Gontcharóv, e me apaixonei novamente por esse incrível escritor com quem convivi por alguns anos de pesquisa. A trama é, como indica o título, quase cotidiana: um jovem de uma distante província vai para a cidade grande e é transformado pelo contato com a vida da capital. Esse romance ecoa fundo em muitas pessoas que, como eu, veem-se um pouco no protagonista dessa narrativa tão comum quanto impactante.

Lembrei-me dessa história justamente por ter percebido a semelhança de um hábito meu com de um dos personagens principais do romance: Piotr Adúiev, um típico homem de ação da literatura russa do século XIX. Figura cativante, porém acabava sendo artificial em alguns pontos da narrativa. Pelas manhãs, Piotr recebia as cartas do dia e as lia antes mesmo de sair da cama, respondendo o que era necessário por meio de um aparato de escrita convenientemente colocado à cama. É claro que eu não tenho nada disso, e apenas abro os e-mails no meu celular, mas também me pego despachando cartas ainda na cama. Não o faço por me considerar um homem de ação oitocentista, e sim pela necessidade de lidar o quanto antes com algumas questões.

Em uma dessas manhãs, ainda meio moles do sono mas incontornavelmente produtivas, recebi uma notícia que, de tão esquisita, me obrigou a parar um momento para ter certeza que não havia pegado no sono sem perceber. Esfreguei os olhos e li mais uma vez o estranho email. Parecia um sonho lúcido, e o pior é que não era.

Sem mais delongas, vamos à questão. O email continha a resenha de um escritor que eu desconhecia por completo, o que não é de se espantar já que temos muitos escritores hoje em dia, mas me chamou a atenção por se tratar de um autor de uma centena de livros. Ora, já era, para mim, um mau indício, uma obra tão vasta já deveria, àquela altura, ter chamado a atenção de alguma editora… Ao que tudo indicava, a coleção da obra completa havia ganhado mais um volume, desta vez com um procedimento bastante curioso: a pessoa escolheu um prosador oitocentista muito famoso — um que está na moda atualmente, mas que vou suprimir o nome para não dar na vista —, foi a um desses programas de geração de texto e, por meio de um prompt bem elaborado, pediu que ela imitasse o estilo do sujeito. Depois disso, a ideia do profícuo escritor foi a seguinte: bolar perguntas e enviar ao programa com o intuito de “entrevistar” o prosador.

Ao longo dos anos, eu já havia visto todo tipo de entrevistas ficcionais, desde um falso membro de uma organização criminosa até as dadas por um vampiro. Todas tiveram algum interesse, nem que fosse o de uma gargalhada. Porém, como se pode imaginar, nunca poderia imaginar que toparia com a entrevista de um gerador automático de texto, vestindo a máscara de uma pessoa real (morta, mas real). O cúmulo do simulacro. É claro que não se pode receber uma notícia dessas e seguir o dia como se nada tivesse acontecido, e certamente não seria ali, ainda caído na cama, que eu poderia entender o que tinha nas mãos. 

Decidi levantar. Enquanto esperava o café passar, de pé na minha cozinha apertada e com o olhar fixo no rejunte desgastado dos azulejos, tentei formular algum pensamento sobre a tal entrevista. O livro estava à venda: compro ou não compro? Segui meu instinto, ainda baço, e não comprei, mesmo sem saber exatamente por quê. Depois, raciocinando sobre minha decisão, senti que nascia alguma coisa, um esforço dialético de me explicar, e me entreguei a esse impulso.

Por um lado, a sinopse dizia que o autor da “entrevista” pretendia introduzir o leitor ao pensamento desse prosador oitocentista. Ora, essa é uma intenção bastante louvável, fazer com que mais pessoas compreendam uma obra complexa. Porém, e há que se levantar essa lebre, o problema é o meio utilizado, não o objetivo. O potencial didático e criativo de uma entrevista fictícia poderia ter sido muito grande, se tivesse nascido do contato próximo com a obra do autor, talvez de uma pesquisa mais detida do seu pensamento.

Há casos interessantíssimos de livros que nascem da interface entre autores, e rapidamente me lembro de O mestre de Petersburgo, em que John Coetzee traz Dostoiévski de volta à vida. É claro que, se Dostoiévski avaliasse o material, muita coisa o teria incomodado, mas isso não invalida, de forma alguma, a potência artística do romance, talvez até lhe renda certo charme. 

Recentemente tivemos um lançamento bastante curioso no mercado editorial brasileiro em que O crocodilo, texto inacabado de Fiódor Dostoiévski, foi traduzido por Aurora Bernardini e, na edição da Abarca Editorial, teve um final imaginado por Edson Amâncio, profundo admirador do escritor russo. Por mais que se possa debater o quão fiéis são esses textos ao espírito de Dostoiévski, é indiscutível que cada uma delas traz a marca do estilo do seu autor e nascem do profundo respeito pelo escritor russo.

Sem entrar no mérito da qualidade literária, o que demandaria a leitura dessa “entrevista”, o texto não poderia ser considerado uma obra de fato autoral. Afinal, como a resenha nos indica, o grosso do texto foi gerado automaticamente, enquanto o profícuo escritor teve o trabalho apenas de criar um “prompt refinado”, fazer as perguntas e, na melhor das hipóteses, polir alguma resposta claramente delirante da máquina.

Isso me lembrou do começo da internet — sou jovem o bastante para me lembrar disso com certa nostalgia —, quando fazia muito sucesso um site chamado Gerador de Lero-Lero. Nesse site, você podia colocar um tema qualquer, e o programa gerava uma baboseira com cara de argumentação coesa. A meu ver, não há grande diferença entre isso e os textos gerados por programas mais modernos de geração de texto, a que chamamos erroneamente de “inteligências artificiais” para lhes conceder ares de importância e de sapiência, quando, na prática, não há nada de inteligente ali. Talvez isso se dê, em parte, por que as empresas teriam muita dificuldade para emplacar uma campanha publicitária que vendesse o Gerador de Lero-Lero 2, daí inventaram esse outro nome. Mas com o “rebranding” fica mais fácil de incorporar isso ao nosso dia-a-dia, pois dá um ar de modernidade, de avanço tecnológico. A consequência é que, para não falar das áreas que não conheço de perto, assombra a Educação: alunos escrevem seus trabalhos (de escola e de faculdade) com o Gerador de Lero-Lero 2, professores avaliam os trabalhos dos alunos também com esse programa, escreve-se teses de doutorado e artigos científicos, livros didáticos inteiros… 

Ainda meio zonzo pela manhã recém-começada e pela vertigem do desprezo pelo trabalho intelectual da contemporaneidade, retomo o objetivo dessa “entrevista”: introduzir o público ao pensamento do prosador oitocentista. Nos casos de Amâncio e Coetzee, a figura de Dostoiévski aparece como fruto de anos de leitura e estudo, e o resultado é uma homenagem, uma confissão de respeito e admiração. Por mais que se tenha cometido algum pecadilho nessa transposição, digamos uma frase pouco verossímil posta na boca de Fiódor Mikhailovitch ou algum elemento que escapa à sua poética, isso poderia ser explicado pela estrutura da nova obra ou pela intenção do autor.

O caso da “entrevista”, porém, é muito diferente, quase oposto. O processo de escrita de uma entrevista ficcional deve ser calcado em uma sólida pesquisa para que as respostas sejam verossímeis e, principalmente, condigam com o espírito do entrevistado. Contudo, e aí está o maior problema desse livro, o profícuo escritor terceirizou essa função para um programa de geração automática de texto, que não só imita a voz do autor selecionado, mas também preenche o conteúdo da entrevista. No frigir dos ovos, a “entrevista” poderia ser feita com a mesma facilidade com outro escritor, digamos como Jane Austen, Machado de Assis ou até mesmo Mário de Andrade. 

Embora não tenha lido o livro inteiro, e não só pelo seu alto custo, fico em dúvida se o objetivo do profícuo escritor poderia ter sido atingido pelo meio que utilizou. Afinal, como todos sabemos, as “inteligências artificiais” sofrem de delírios, nome dado às informações inventadas por esses programas, e precisam que se as corrija constantemente; além, é claro, de produzirem textos vazios de estilo. Mas a pergunta que me assombra é: se o papel de pesquisador está sendo feito pela delirante máquina, quem poderia corrigi-la? Com tudo isso em mente, olho para o fundo da caneca, já vazia a essa altura, e me preocupo com o futuro que leio na borra de café.


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