“Sofro mais por ser gorda”: sobre queda, cadeira e corpo gordo em Infinita, de Camila Maccari
Por Douglas Sacramento
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| Camila Maccari. Foto: Theo Tajes |
A citação que compõe o título desta resenha é de Preta Gil, falecida em 2025 em decorrência de um câncer, retirada de uma entrevista concedida à Veja Rio em 2017. Ao se afirmar como mulher negra, bissexual e gorda, a cantora conclui que sofre mais por não estar em consonância com o estereótipo feminino imposto pela sociedade — um corpo magro e esbelto, tomado como sinônimo de beleza e reiterado a todo instante, basta abrir a rede social mais próxima. Assim, entre as diversas violências que podem marcar sujeitos definidos por tantas categorias sociais, o fato de um corpo não ser espelho do que é socialmente apropriado traz consigo experiências recorrentes de exclusão.
São essas demandas, apontadas pela cantora há quase dez anos, relacionadas à experiência de ser uma mulher gorda nessa sociedade, que a escritora Camila Maccari, natural do Rio Grande do Sul, toca em seu livro mais recente, Infinita (Autêntica Contemporânea, 2024) — romance precedido por Dias de se fazer silêncio, distinguido com o Prêmio Açorianos de Literatura em 2021. O livro de agora parte de uma premissa que, a princípio, parece muito simples, mas se desdobra em complexidade e aprofundamento: uma mulher, sem nome, toma cerveja em um bar quando, de repente, a cadeira em que está sentada quebra, derrubando-a.
Essa cena inicial configura-se como propulsora de uma crise que desencadeia mudanças na personagem. A partir desse momento, ela começa a questionar o próprio corpo e suas relações maternas e amorosas. Tudo é posto à prova, o que a leva a largar o emprego, ficar em casa comendo e se olhando no espelho, além de revisitar memórias do passado, sobretudo as ligadas aos distúrbios alimentares, às dietas restritivas e à relação conturbada com a mãe, figura que sempre criticou seu corpo.
A crise também inaugura um plano de mudança, inspirado na leitura que Gustavo, seu companheiro, faz de Graça infinita, de David Foster Wallace. No romance do escritor estadunidense, há um episódio em que uma personagem encontra o pai morto, com a cabeça enrolada em papel-alumínio dentro do micro-ondas. A palavra “infinita”, retomada no título da obra de Maccari — sem a “graça” —, também alude ao tamanho do corpo da protagonista. Tomando conhecimento dessa imagem, ela decide fazer o mesmo no dia de seu aniversário de 30 anos. Intercalando o passado, marcado pelos quilos na balança, e a crise que movimenta esse plano de fuga, temos uma narrativa que articula subjetividades e temas interessantíssimos na literatura brasileira contemporânea.
Camila Maccari se debruça sobre a construção de uma personagem com muitas camadas subjetivas, explorando nuances e momentos de aparente conforto anteriores à queda, a desestabilização provocada pela queda e seus efeitos psicológicos e físicos. Mas, o grande trunfo da narrativa reside no fato de que o corpo gordo da protagonista está inserido em um discurso que adoece sujeitos em busca do corpo perfeito. Esse discurso reverbera no percurso construído pela autora para essa personagem sem nome.
O corpo, a cadeira, o coro e a crise
Edma de Góis, em sua tese de doutorado em Literatura, intitulada Cartografias dissonantes: corporalidades femininas em narrativas brasileiras contemporâneas, analisa o romance Por que sou gorda, mamãe, de Cíntia Moscovich, publicado em 2006. Seu recorte trata da representação do corpo gordo, porque assim como em Infinita, a personagem nesse outro romance não tem nome, a narrativa emula um diário e há um retorno ao passado, marcado pelas figuras femininas da família.
A pesquisadora conclui que a representação da personagem está condicionada a discursos sociais permeados por estereótipos e julgamentos. A personagem tem consciência que, na sociedade, é um sujeito abjeto e descartável, o que instaura um processo de rememoração para motivar mudança. Assim, a literatura vigente aponta caminhos e representações que, em outros momentos, não eram apresentados. Como explica a própria Edma Góis: “a narrativa assume um risco”.
Quase 20 anos depois, a literatura brasileira continua assumindo riscos, tanto no campo das representações quanto nos experimentos estéticos. Camila Maccari aposta em uma obra com parágrafos grandes, intercalados por um coro — marcado pela oralidade e narrado em primeira pessoa do plural — que encarna um pensamento sabotador. Interpreto esse coro como a própria sociedade que adoece corpos fora do padrão, o que torna a personagem mais sensível e afetada à opinião alheia e ao modo como seu corpo é enxergado, tensionando questões sobre ser e estar no mundo.

“Seu corpo agora se movia pesadamente, ela sabia que isso era resultado do seu tamanho e era também resultado do que fazia com o corpo desse tamanho, sempre punido por não estar do jeito que ela achava que queria que ele estivesse, a ideia de que um corpo ocupa espaços tal qual um corpo como o de quando ela emagreceu. Em qualquer um dos lugares que habitou nesta vida, seu corpo foi permanentemente o corpo de agora: punido e inadequado.” (p. 40)
Além das recorrências desse coro, a narrativa apresenta inserções de memória que revisitam o passado da protagonista, marcado pela oscilação de peso, pela idade, pelas dietas e pela relação conturbada com a mãe, além dos parceiros afetivos que a escondiam e a tratavam como objeto. Já a narrativa no presente mostra essa mulher prestes a completar 30 anos, que mora com o namorado e caiu da cadeira.
“O tamanho do seu corpo sempre ditou o tamanho das suas tetas, é claro, mas elas sempre foram duas bexigas murchas desse jeito aí. Às vezes menores, às vezes terrivelmente enormes como elas estão agora, dois balões tristes. Tão grandes que você nem sabe quanto tempo faz que você não coloca um sutiã, quanto tempo faz que você se contenta com aqueles tops de ginásticas que, além de segurarem bem, evitam a preocupação de chegar em casa com a lateral em carne viva pelo corte do sutiã e ainda ter que encarar a bexiga murcha, que é a sua teta, escapando interior por baixo do aro de metal.” (p. 105)
Se, no presente, temos recorrências do coro tecendo comentários depreciativos — semelhantes ao que se lê nas redes sociais quando um corpo gordo publica uma foto de biquíni, por exemplo —, no passado quem cumpria essa função era a figura materna, responsável por vigiar e controlar o peso da filha. Assim, a mãe se transforma em uma figura de controle, reiterando o que Edma de Góis discute ao abordar a tentativa social de padronização dos corpos e a valorização de imagens do esbelto.
Portanto, em uma época marcada pela popularização de canetinhas de emagrecimento — vendidas como água nas farmácias do mundo todo — e pelos corpos ficando com um mesmo “shape”, a queda da cadeira é, para a protagonista, a irrupção de uma demanda que estava escondida em seu cotidiano. A crise se instaura quando a cadeira quebra e se intensifica a partir das possibilidades de interpretação dos pensamentos das pessoas ao redor em relação a esse corpo gordo caído.
“Estava obstinada a cruzar o salão sem fazer nenhum contato visual, sem confirmar no rosto dos outros aquilo que sabia que estavam pensando, olha aquela ridícula lá, que nojo, ô sua ridícula, ridícula, que nojo de você, sua gorda, sem deixar que vissem em seus olhos o desejo de morte, que era ainda mais humilhante, sem deixar que adivinhassem tudo o que ela pensava de si mesma e de sua vida inteira naquele momento, sem descobrir algum olhar conhecido que imaginasse quão difícil estava sendo aquilo tudo, enquanto comentava com a pessoa ao lado que ela devia ter engordado o quê?, uns cinquenta quilos, se não mais, nos últimos tempos, tu vê só, emagreceu um monte e engordou ainda mais, não adianta, coitada.” (p. 45)
Por ser uma mulher marcada pelo modo como seu corpo está no mundo, o apagamento de seu nome pode ser lido como um reflexo disso; ela é reduzida a isso. O percurso da crise, que culmina na incerteza se a personagem cometerá ou não suicídio no final da narrativa, acompanha um processo de tentar entender a si mesma entre as demandas e discursos que a marcam. Portanto, o final aberto aponta para a possibilidade de mudança do sujeito, da negação para uma potencial aceitação.
Acredito que a não realização do suicídio no microondas — objeto que remete à comida pronta de forma rápida — seja importante para pensarmos como uma ditadura da beleza afeta os corpos, principalmente os femininos, ocasionando atitudes extremas. Essas mesmas práticas são noticiadas nas redes sociais que ditam métodos de emagrecer mais rápido.
“Às milhares de dicas que o mundo oferecia para quem precisava perder o peso, malhar todos os dias, treino de força importa mais, mas não esqueça o cárdio, fechar a boca, parar de consumir álcool, jamais beba as suas calorias, suco detox ao amanhecer, procedimentos estéticos sempre ajudam, mas não resolvem, proteína em todas as refeições, controle o carboidrato, ela acrescentava uma nova dica: faça tudo isso porque você se ama, jamais porque você se odeia, faça tudo isso apenas depois de aprender a se amar, se ame se ame se ame.” (p. 162)
Sendo assim, Camila Maccari consegue elaborar um romance instigante e pertinente para os nossos dias. Mais do que um avanço em relação à obra de estreia, Infinita é a concretização de um trabalho maduro, orgânico e hábil. A certeza de que estamos diante de uma escritora importante.
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Infinita
Camila Maccari
Autêntica Contemporânea, 2024
184 p.

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