Nelsinho: o último trágico rodrigueano
Por Juliano Pedro Siqueira
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| Nelson Rodrigues Filho, Foto: Daryan Dornelles. |
Era 30 de março de 1972, quando agentes do DOI-CODI abordaram Prancha e o conduziu a uma base da Guarda Militar no Méier. Naquela altura, Prancha era um dos nomes mais procurados pelos órgãos de repressão ligados à ditadura. Detentor de uma aparência inconfundível, o homem que carregava a alcunha de Prancha, tratava-se de Nelson Rodrigues Filho ou Nelsinho, filho do consagrado dramaturgo e cronista, Nelson Falcão Rodrigues.
Naquela altura, Nelsinho já vivia na clandestinidade depois de se tornar membro do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8). Contrariando os conselhos do pai e do irmão Joffre, Nelsinho se engajou no movimento, e chegou, inclusive, elaborar o plano de assalto a um banco. Enquanto isso, adotou um estilo nômade; cercado de códigos e endereços secretos. Nem mesmo Nelson pai — que lutava pela débil saúde — sabia do real paradeiro do Nelson filho.
Antes da sua captura, sabendo Nelson que o filho estava envolvido até o pescoço com os revoltosos, tentou apelar junto ao presidente Emílio Garrastazu Médici — sendo que juntos frequentavam o Maracanã —, a fim que intermediasse o exílio de Nelsinho para o exterior, sem que a imprensa soubesse. Contudo, para a mágoa do pai e decepção de Médici, o jovem esguio preferiu a clandestinidade e a resistência contra o regime a fugir. Bem relacionado e apoiador dos militares, Nelson usou sua influência na imprensa e no mundo jornalístico para intermediar a liberdade e anistia de vários colegas e amigos que à época foram lançados na prisão.
Mas com Nelsinho, sua influência esvaiu-se. O próprio filho optou pela recusa da ajuda vinda dos militares e passou por algumas unidades prisionais nos sete anos e nove meses em que permaneceu preso. Ao tomar conhecimento que o filho foi torturado, o pai se frustrou profundamente e reviu seu apoio aos militares, pois, acreditava — ingenuamente —, que não existia tortura nos anos mais cruéis do regime.
Com a tristeza expressa no olhar morteiro e a saúde se deteriorando, Nelson passou seus últimos anos de vida defendendo a liberdade de expressão e de pensamento, como da irrestrita anistia. Na manhã de domingo, do dia 21 de dezembro de 1980, Nelson pai, ascenderia ao céu e ganharia as páginas dos principais jornais do país e se imortalizaria como o maior cronista brasileiro. Nelsinho, agora livre e forjado pela perseguição, teria como legado, a perpetuação da cultura no Brasil rumo à democracia.
Podemos dizer que, com sua recente partida — e este texto é devotado em sua memória —, Nelsinho foi o último trágico dos Rodrigues, a nos deixar. Os membros da família — a começar pelo avô, Mário Filho (homenageado com o nome do estádio Maracanã) até os tios — em alguma medida, carregavam uma espécie de carma trágico. Assassinato, doenças precoces, soterramento, deficiência e a implacável perseguição e censura marcaram a saga dos Rodrigues. Nelsinho chegou a trabalhar nas peças do pai, quando ainda era vivo, e deu continuidade na linhagem artística da família. Se por um lado as tragédias se acumulavam sobre eles, a arte era a própria superação.
Após a ditadura, em 1985, Nelsinho trabalhou como produtor cultural e roteirista. Criou um bloco carnavalesco em Botafogo, que fazia alusão a enorme barba que cultivava desde jovem. Viveu modestamente e fora dos holofotes da mídia atual, até que um AVC, o tirou de cena. Talvez há quem diga que o filho viveu à sombra do pai — certo que os militares só não o matou por conta de Nelson —, o que não tirou sua autonomia artística. Os Rodrigues eram originais, versáteis. Não havia ciúmes, disputas ou rivalidades. Cada um com seu estilo, contribuiu no espaço cultural brasileiro para a liberdade das ideias: seja com a escrita, desenho, jornal ou pela resistência política.
Nelsinho, ou Prancha, para os mais íntimos, foi o último rodrigueano a encarnar a resistência contra os dias mais sombrios da nossa história. Suas longas barbas não era meramente uma provocação estética, e sim, a representação de um homem que sobreviveu ao regime sem drama midiático. Nunca recebeu um prêmio em vida por tal ato ou virou protagonista de algum filme ou documentário. Na sua solidão gigantesca, ele continuou a lutar pela voz ensurdecedora dos palcos. Concedendo liberdade plena a homens e mulheres que transformavam o trágico humano em pura arte, demonstrando que a luta continua, mesmo sendo outros tempos. Muito diferente, é claro! Mas não menos humano. Demasiadamente, humano.
Referência
Castro, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

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