A palavra que resta e as simultaneidades dos tempos

Por Herasmo Braga

Stênio Gardel. Foto: Fernanda Oliveira



A diversidade de textos aos quais os sujeitos são apresentados no cotidiano gira não mais na ordem do exagero, mas além dela. Ao delimitar uma área mais específica, como a de realizações ficcionais, a quantidade também não será menor. Então, ser seletivo é mais do que uma obrigação, beira a uma sobrevivência para aqueles que exercem a potencialidade de suas inteligências associada ao campo da qualidade estética. Nesse contexto, pode-se evidenciar a obra de Stênio Gardel, A palavra que resta. Seu ponto significativo é o louvável trabalho da configuração dos tempos em meio às suas simultaneidades.

É importante lembrar que a qualidade de uma obra literária não reside apenas no bom ou excelente uso da linguagem. De fato, esse é um dos princípios fundamentais, todavia, não o maior. Há outros aspectos que devem ser levados em conta e na tessitura deles é que se poderá destacar a qualidade ou a precarização de uma obra. Pode-se mencionar a questão da personalidade das personagens, o encadeamento dos elementos que envolvem a intriga, a espacialização narrativa, a atmosfera e ambiência desenvolvidas com a história; no campo poético, o ritmo, a sonoridade, a qualidade das imagens elaboradas, o diferenciar do sentido das palavras ao se distanciarem do aspecto apenas de significado; todas essas questões são relevantes para se avaliar a possibilidade de sucesso de uma obra.

Destarte, erra ou age de maneira inadequada tanto o autor ou mesmo o leitor crítico ou ordinário que se centra apenas na tematização da obra. Afirma-se, então, que a tematização na obra literária é algo mais do que secundário tanto na realização quanto na assimilação. Não é à toa, portanto, como fica evidenciado, o quanto se tem precarizado a criação literária e com ela, as leituras e os debates quando na sua ocorrência são voltadas apenas para o interesse de questões sociais, por exemplo, presentes ou não na ficção. Não é preciso se aprofundar tanto para observar como é superficial e limitado qualquer um dos eixos — criação, recepção, discussão — se esta for a questão essencial. 

Quem quiser apenas fazer o uso da tematização do romance de Stênio Gardel, como se tem repetido na maioria das leituras, seja o amor homoafetivo ou o analfabetismo entre os adultos das classes sociais mais baixas, perde muito das virtudes da obra; mesmo que se relacionar os pontos de discussão social relevantes, perde-se a profundidade do enredo. Portanto, se deixar ser captado por todos os recursos literários de qualidade presentes no livro é ganhar tanto enquanto leitor do estético, quanto de aprimoramento dos argumentos para o debate das teses aí suscitadas. 



Assim, diante do enredo de A palavra que resta, que aborda o relacionamento condenatório entre dois homens, por todo o contexto social interno da narrativa, em nada se distancia do mundo fora dela, da amizade entre seres marginalizados socialmente como analfabetos, travestis, estivadores, dos processos de luta pela sobrevivência desses indivíduos rotulados e em que não se permite qualquer possibilidade de ascensão ou mesmo reconhecimento da dignidade. A trama que enlaça todos esses personagens em meio às mais diferentes situações é realizada com propriedade pelo seu autor. 

É que, além de os parâmetros exigidos para a elaboração de uma narrativa literária serem devidamente atendidos, o autor, por meio do narrador, apresenta o domínio do exercício da escrita literária com competência e sua maturidade fica devidamente evidenciada ao trabalhar com maestria as diversas configurações do tempo. 

O desenvolvimento da narrativa acontece na materialidade de ideia formulada por Santo Agostinho e expressa nas Confissões. Para o filósofo, o único tempo que existe é o presente. Sendo assim, o que se denomina passado, para ele é memória; o futuro é expectativa. Desse modo, ter-se-ia o presente-passado, o presente-presente, o presente-futuro. Tudo seria apenas presente. Na trama, essa configuração do tempo é desenvolvida e entrelaçada nos encaixes das linhas norteadoras que vão permitindo a compreensão em profundidade da história. 

Parte-se do presente, que vai sendo intercalado sutilmente com os fios do presente-passado, por meio da memória, como o desejo de estudar, a vontade de saber ler, momentos de angústia diante de questões incertas, de como será o término como o espancamento e socorro de Suzzanný, do porquê da cruz na beira do rio, da solicitação inesperada da mãe Caetana, materializando em sua fala e ações as vozes sociais, da carta que permeia o imaginário do narrador, levando-o a um presente-futuro em que ele realiza expectativas do seu conteúdo. São diversos os momentos acertadamente costurados e apresentados sob medida e isso faz com que o envolvimento com a leitura seja não apenas indispensável, mas também estimulante em relação ao enredo bem desenvolvido. 

Imergir na leitura da obra, alcançar a sua apreciação estética — e para além dela — é possível por meio de uma produção literária bem desenvolvida; em A palavra que resta é desfazer-se dos tijolos que tanto isolam como apedrejam pessoas que como todos não constituem nenhuma imundície, como bem atesta Stênio Gardel na sua obra de estreia, enquanto romancista, muito bem-sucedida.  


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A palavra que resta
Stênio Gardel
Companhia das Letras, 2021
160p.

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