O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida

Por Gabriella Kelmer 

Germano Almeida. Foto: Tiago Almeida (Reprodução do Expresso)



Não é tão fácil ter em mãos as versões físicas das obras do caboverdiano Germano Almeida, ao menos no Brasil. A exceção é uma edição do ano passado de A ilha fantástica, de 1994, publicada pela editora Oficina Raquel. Para além dessa incorrência, entretanto, é preciso recorrer inevitavelmente aos sebos e ao Kindle, contextos nos quais a bastante prolífica obra do escritor é encontrada sob o selo da editora portuguesa Caminho. 

Embora tivesse cruzado com o nome do autor várias vezes, obtendo desses fortuitos encontros a distinção de ser ele incontornável para a prosa contemporânea de seu país, não conhecia em que medida esse impacto ocorrera, nem a partir de que procedimentos. Desejando iniciar o conhecimento com o escritor, aliás vencedor do prêmio Camões em 2018, recorri à edição virtual da obra para ler o seu primeiro romance, O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo, publicado em 1989.

O enredo da obra é irresistivelmente curioso: morre o sr. Napumoceno, comerciante de amplas posses e excessiva disposição para a escrita, como demonstra o testamento de 387 páginas deixado. Uma reviravolta surpreendente acaba beneficiando uma filha na altura desconhecida, em detrimento dos interesses do sobrinho que administrava os negócios do tio. Carlos, o sobrinho, é desfavorecido exceto pelo recebimento de um velho pardieiro. Ao contrário do que se pode esperar à primeira vista, não é neste presente — de uma possível disputa entre a herdeira e o contrafeito primo — que ocorre a intriga; o passado, tempo no qual figura a imagem poliédrica do sr. Napumoceno, constitui o verdadeiro interesse da obra.  

“A leitura do testamento cerrado do Sr. Napumoceno da Silva Araújo consumiu uma tarde inteira. Ao chegar à 150ª página o notário confessava-se já cansado e interrompeu mesmo para pedir que lhe levassem um copo d’água. E enquanto bebia pequenos golinhos, desabafou que de facto o falecido, pensando que fazia um testamento, escrevera antes um livro de memórias. Então o Sr. Américo Fonseca, dizendo estar habituado a longas leituras em voz alta, ofereceu-se para continuar a ler e o notário aceitou de bom grado porque a sua voz, de princípio forte e sonora a impor solenidade ao to, fora enfraquecendo a pouco e pouco e tanto Carlos Araújo como as próprias testemunhas já faziam um grande esforço de ouvido para perceberem os murmúrios que lhe saíam da garganta” (Almeida, 1991, p. 4).

São onze os capítulos do romance, servindo cada um deles, depois da primeira introdução, à revisão das verdades pré-estabelecidas acerca do caráter do falecido protagonista, do seu processo de enriquecimento e das variadas motivações para suas escolhas ao longo da vida. Logo à entrada do segundo capítulo, o contabilista a lidar com a herança constitui o argumento central da narrativa, ao refletir, enquanto resolve pendências do morto, que “nenhum homem poderá alguma vez pretender conhecer outro em toda a extensão e a profundidade do seu mistério” (Almeida, 1991, p. 6). Ao longo das mais de cem páginas seguintes, a obra comprova, por estratégias diversas, essa mesma asserção, dotando o sr. Napumoceno de uma ineludível humanidade, que se veste oportunamente, conforme a ocasião e a persona desejada, de corrupção e benevolência, egoísmo e generosidade, autoimportância e desamparo. 

Assim, se, no testamento, delineiam-se as motivações para uma ida sua à ilha de São Vicente, a intervenção de outras vozes, como a da população ou a do sobrinho Carlos, demonstra como a verdade é inteiramente intangível, ainda mais quando está morto o sujeito, servindo a contraposição de perspectivas à certeza cada vez mais evidente da impossibilidade de se declarar a inteireza de uma presença nesta Terra. É o sr. Napumoceno da Silva Araújo, dentro de tal entendimento, um avatar de qualquer existência, espraiando-se sua passagem pelo mundo na reabilitação de sonhos parcialmente murmurados, na ocasional e dolorida sensação de solidão, em uma porção de crimes imperdoáveis e também na incapacidade de se ver livre do ressentimento, arrastado consigo túmulo adentro.


É a curiosidade da filha Maria da Graça um dos recursos utilizados pelo autor para auxiliar na concepção dessa visão. Tendo sido estabelecida a dimensão da imoralidade do sr. Napumoceno e sendo revistos seu crescimento financeiro e seu tino para o negócio, obscurecidos por uma habilidade muitíssimo natural para o autobenefício, fica evidente como a presença dessa personagem, que ora vê o pai desnudo em seus defeitos, ora o descobre enternecido nos seus momentos finais, conduz até o leitor mais inflexível a perdoar ao sr. Napumoceno as suas mentiras e a sua não declarada autoficção.  

“E foi só depois da abertura do testamento cerrado, e ao mesmo tempo que toda a gente, que ficou a saber-se filha do defunto, herdeira do nome da fortuna. Fora surpreendida em casa pela chegada inopinada do Sr. Fonseca, Américo Fonseca, minha menina, para a servir!, mas era um Sr. Fonseca transpirado e cheio de pó e terra nos sapatos e que já percorrera Ribeira Bote, Bela Vista e Lombo do Tanque À procura da casa da D. Maria Francisca, mãe da menina Maria da Graça, mas assim com todos esses nomes ninguém conhecia, D. Maria Francista era só nha Chica de nho Silvério, menina Maria da Graça era a Graça ou Gracinha de nha Chica, por isso ninguém sabia dar conta, não conheço, não sei, talvez mais lá para trás, etc., até que houve um que alvitrou que se calhar é nha Chica mãe da Gracinha” (Almeida, 1991, p. 55).

Em termos de procedimentos narrativos, é o romance escrito em terceira pessoa, da parte de um narrador de onisciência oscilante. De maneira infrequente, ele cede o posto à primeira pessoa do testamento, permitindo que o referente mais ilustre da obra também surja como enunciador de alguns de seus próprios predicados. Mais recorrente é a utilização do discurso indireto e do discurso indireto livre, enformados em períodos longos, alusivos de uma oralidade sem muitos volteios, mas artificiosa em sua aparente simplicidade pelo emprego de um tom irônico e humorístico que põe nus os contratempos, os absurdos e as contradições do sr. Napumoceno e de seus conhecidos. A onisciência é exercida apenas ocasionalmente, dividindo-se em revelações acerca das personagens à medida que elas se tornam centrais à narração. 

Aparece, ao longo da obra, a vida caboverdiana como ambientação em que se desenvolve um drama pessoal. A política dos tempos da presença portuguesa e a inserção do próprio protagonista nos quadros de vereadores são dados introduzidos como reveladores do indivíduo que fora o sr. Napumoceno, que ora declina as posições políticas, ora sobrepõe sua reticência pela necessidade do povo — mais tarde obliterada pela aparição de questões individuais — de ter bons representantes em cargos públicos. À boataria da população e à observação da vida alheia recorrem as personagens para tentar obter uma visão definitiva do falecido, que, embora cada vez mais ricamente ornado de adjetivos, cada vez mais removido de seus disfarces de inteiro altruísmo e de crescimento econômico orgânico, não permanece inteiramente estabilizado por nenhum deles.  

“Porém naquele momento sentiu que tinha perdido um pai que não conhecera como tal, mas ao mesmo tempo sentiu raiva de si própria por estar a lamentar tal facto. Mas por outro lado começou a afligi-la pensar naquele velho que a olhava como se a quisesse comer, uma imensa ternura nos seus olhos e reviu o velho a perguntar-lhe pelas suas notas, pegando-lhe nas mãos com as velhas mãos trementes, cuidado com a geografia, foi sempre o meu ponto fraco!, aquele a-propósito quando se despedia de ter chocolates no carro, Deus te abençoe!, e ela ficava parada olhando o velho chalado e por isso naquela noite, depois de a mãe contar tudo como tinha sido, ela chorou deitada no seu quarto, não de saudade mas de pena e remorso pelo sofrimento estampado naquele rosto enrugado que a olhava com cara de cão espancado e quando acabou finalmente por adormecer foi para sonhar que beijava o seu pai e lhe dava todo o carinho que ele podia com seus olhos famintos de ternura, embora a mãe tivesse contado a verdade dos factos e essa verdade não fosse tão bela ou poética como sempre sonhara que deveria ser, não se tratava de um amor impossível senão pelo facto de a mãe ser uma simples mulher de limpeza” (Almeida, 1991, p. 56-57).

O romance, que me lembrou de obras como A morte e a morte de Quincas Berro d’Água e O amor nos tempos do cólera, pela ambiguidade moral conjugada com perspectiva denunciadora do ridículo e do patético, embora não deixe de se sensibilizar perante as vidas ficcionais que cria, é também inegavelmente contemporânea, sendo os longos períodos e a ausência de marcações da primeira pessoa dados de manobras discursivas que não distinguem hierarquias dentre as vozes da narrativa. 

A nós, tão acostumados com o exercício contemporâneo da fragmentação, da autobiografia e da extenuação dos elementos composicionais (todos recursos que, quando utilizados propositivamente, são absolutamente justificáveis), será a obra de Germano Almeida uma bem-vinda mudança de ritmo. É o romance bastante reminiscente de uma narrativa mais inteiriça na introdução de seus atores, em que a linguagem não se apresentava primordialmente como fratura, e sim como instrumento para uma crítica espirituosa do que lamentavelmente somos (ou fomos, em casos de óbito prefacial).


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O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo
Germano Almeida
Editora Caminho, 1991
135 p.

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