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A relevância atual de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos

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Por Maria Vaz Graciliano Ramos dispensa apresentações – já foi alvo de muitos textos publicados pelo Letras in.verso e re.verso . Nessa medida, com este texto temos apenas a pretensão de furtar uma obra que assume carácter autobiográfico para, a partir daí, expor a sua relevância atual para o meio jurídico e artístico brasileiro na atualidade. Em Memórias do cárcere  o autor disserta sobre o azar existencial que o levou à prisão, motivado pela suposição de que estaria envolvido numa tentativa de golpe contra o governo autoritário de Vargas – episódio que ficou conhecido na história como Intentona Comunista. Contudo, a obra de Graciliano Ramos em questão é extensa, dividida em quatro volumes, e a sua publicação teve lugar apenas a título póstumo, sendo que o autor não chegou a terminar o último capítulo. Em torno da publicação da obra em questão geraram-se muitos rumores de que poderia ter sido alvo de censura ou, por outras palavras, que houvera exigência de...

Nem autor nem autoridade

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Por Luis Magriyà Ao longo do século XIX, o gênero romanesco foi estabelecendo uma aliança entre autor e autoridade que, já propiciada pela etimologia, passou pelas previsíveis fases de confiança, presunção, ceticismo e burla sem nunca renunciar um fim; é curioso, por isso, que agora já topicamente chamamos “o controle férreo do narrador”. De fato, tais fases não foram tão sucessivas como simultâneas, porque os romancistas, conscientes de ter o “controle”, se permitiam alternar, até numa mesma obra, o crédito com o descrédito, a satisfação com a frustração, a bravata com o ridículo. Como nada deles escapa, embora de fato se escapasse, podiam fazer ambiciosas histórias sérias como Balzac ou Zola, Tolstói ou Dostoiévski, engraçadas como Thackeray ou Dickens (e Dostoiévski também), ou delicadíssimas como Turguêniev... ou delicadamente cruéis como Flaubert. A consciência de que sim, pelo amor de Deus, sempre há algo que escapa talvez tenha sido responsável pelo caso de Tchek...

Boletim Letras 360º #247

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Mário Peixoto. Uma revista e um evento sublinham o talento e a obra do criador brasileiro. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 06/11 >>> Brasil: Uma antologia para o leitor entrar na obra de Torquato Neto Ele foi um dos protagonistas do Tropicalismo. Ficou conhecido especialmente por suas composições com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Jards Macalé, mas foi também colunista de diferentes jornais: escrevia sobre a arte vanguardista e marginal.  Torquato Neto. Essencial  é organizado por Italo Moriconi e publicado pela Autêntica Editora. A obra oferece uma amostra do essencial na obra de poeta, reunida a partir de um legado textual disperso e fragmentário, proveniente de diferentes fontes – jornais da grande imprensa e da imprensa alternativa, cadernos pessoais, datiloscritos e manuscritos vários. >>> Brasil: Depois de uma caixa com a poesia completa, outra com as crônicas que Cecília Meireles escreveu so...

Escritos nas margens

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Por Mireya Hernández O exemplar de David Foster Wallace de Players , do Don DeLillo Quando Nelson Mandela estava preso na África do Sul, caiu em suas mãos um livro de Shakespeare que circulava entre os presos e anotou seu nome ao lado de uma passagem de Júlio César que diz: “Os covardes morrem muitas vezes antes de sua verdadeira morte”. 260 anos antes, na Bastilha, um jovem Voltaire estudava literatura e escrevia nas margens das obras que lia. Os dois tiveram mais sorte que Sir Walter Raleigh, que foi decapitado em Londres justamente depois de escrever uma declaração no livro que estava lendo. Em condições mais favoráveis, outros como Milton, Quevedo, Thomas Jefferson, Darwin, Jane Austen, William Blake, T. S. Eliot ou Northrop Frye, encontraram consolo ou liberdade nas bordas imaculadas das páginas. Coleridge, um apontador compulsivo, chamou este hábito de marginalia. Os comentários do poeta inglês eram tão famosos que seus amigos lhe emprestava os seus livros ...

Arco de virar réu, de Antonio Cestaro

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Por Pedro Fernandes “Você vive dentro de sua cabeça. Você não vive no mundo”. A afirmativa do narrador de Arco de virar réu contradiz sua própria percepção de sujeito: antropólogo, uma de suas preocupações reside na compreensão da estreita relação entre indivíduo e grupo. É preciso pontuar esses dois extremos da narrativa no intuito de compreender o contraditório enquanto elo enformante e estruturante da obra e esta perspectiva é igualmente elementar na própria condição enquanto sujeito idiossincrático e parte de uma organização comunitária. O entendimento acerca deste trânsito é fundamental para afirmar este romance de Antonio Cestaro entre os melhores da literatura brasileira recente. Tão logo o leitor atravesse uma estância marcada por uma descrição que irá reverberar em diversas outras passagens da narrativa, encontrará um narrador que se propõe fazer um relato familiar considerando como ponto de partida a ocasião quando este núcleo se vê em profunda crise – parte...

Seicho Matsumoto, pai da literatura proletária e policial no Japão

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Por Sergio Vera Escuta o milagre japonês? Não, não é a multiplicação dos pães e dos Pokémon. Tampouco a (enésima) ressurreição de Son Goku, mas o fulgurante crescimento econômico que o País do Sol Nascente experimentou (alguns estimam algo em torno de 10% do PIB) entre a segunda metade dos anos cinquenta e princípio dos anos setenta e tornou possível, depois de sair devastado da Segunda Guerra Mundial, o Japão se converter numa superpotência em poucas décadas. Um milagre ultracapitalista financiado pelos Estados Unidos, que provocou a queda do berço de bushido (o férreo código samurai) ante a corrupção política e o abuso de poder. Igualzinho a aqui, mas sem crise. E o melhor cronista do lado negro desse milagre foi Seicho Matsumoto, o fundador da chamada Escola Social, a primeira corrente genuinamente japonesa na História do País do Sol Nascente. Kiyoharu Matsumoto, verdadeiro nome do feitor, nasceu numa família muito simples de Kokura, por volta de 1909....