Das miudezas que não são miúdas em Escrevo seu nome no arroz, de Caetano Romão

Por Douglas Sacramento

Caetano Romão. Foto: Arquivo da editora Fósforo



Em uma As aulas de Hebe Uhart, transcritas e reelaboradas por Liliana Villanueva, é abordada a relação perene entre linguagem e mistério. Nesse capítulo específico, a voz professoral, que aponta caminhos sobre a escrita e o labor literário, com suas dicas e frases eloquentes, pontua que, para escrever, são necessárias duas coisas: o sentido da linguagem e o sentido do mistério. Esse segundo sentido, que perpassa o literário, chama a minha atenção. 

Para Uhart, o sentido do mistério encontra-se além do que está posto, muitas vezes oculto por trás da própria linguagem. Para isso, as personagens construídas pelo autor precisam ocupar, de alguma forma, esse lugar que instiga o leitor a procurar significados ocultos nessa zona nebulosa do mistério e que, de algum modo, a linguagem não consegue dar conta em sua plenitude.

Essa aula de Hebe Uhart me veio à tona quando terminei Escrevo seu nome no arroz, de Caetano Romão. É que o romance possui uma premissa atravessada por mistérios; inicia-se com um capítulo bastante imagético, em que trata da morte da mãe e os testes realizados pelos dois filhos para comprovarem que ela realmente morreu. Confirmado o acontecido, Simão e o narrador não nomeado partem para enterrar a mãe, cobrem o corpo com tangerinas, pois não havia flores, e, ao retornarem para casa, o leitor passa a acompanhar um périplo dos dois marcado pela tentativa de entender o luto.

Para o narrador, existe uma força fraternal e de cuidado em relação ao irmão mais velho, homem que, no decorrer das páginas, parece se esvair: perde a voz, a sombra deixa seu corpo e ele próprio se planta no quintal. Nem mesmo os ritos e as tentativas de cura usando a terra e as crenças populares, administrados pelo narrador, dão conta de sará-lo. 

O próprio narrador, que é gago, tem seu nome escrito no arroz e, após enterrar a mãe, passa a ouvir vozes vindas da terra — vozes que exigem alimento e dele recebem comidas enterradas no solo. A terra está devastada, mas continua ecoando as vozes dos antepassados. Há muitos mistérios e muita terra a decifrar.

Do miúdo não miúdo e seus mistérios 

Ao abordar o “sentido do mistério”, Hebe Uhart caracteriza a linguagem como insumo para a criação desses mundos que escapam ao entendimento apressado. Esse mundo misterioso criado pelos escritores afeta o leitor e permanece com ele, impulsionando uma busca constante por interpretação. E Escrevo seu nome no arroz instaura o mistério desde o início da narrativa; há sempre algo que tenta ser compreendido, mas nunca é plenamente alcançado. Isso acontece, por exemplo, na descrição da mãe morta:

“Mamãe quando morreu pediu para ser enterrada de bruços. A saia coberta de pulgas trancava seu vulto de nunca mais. Descadeirada, mamãe se pensava da família das madeiras. Queria ser rente, maciça, um toco de pau. Como mamãe era brusca. Desconhecia as próprias fibras. Ela lá esticada, papuda. O queixo pronto para toda sorte de devorações com pose ela mesma de devorada. Acho até que alargava a boca, a gengiva fincada no barro mole com um tremendo apetite: mamãe sorri como nada entre gengibres e argilas. Felizarda. Parece até que viu passarinho. Parece que virou presente, a mamãe.” (p. 7)



O corpo morto está diretamente atrelado à terra e ao barro, e o leitor percebe que, em muitos momentos, existe uma lupa para sensações e comparações voltadas ao pequeno. É no miúdo que reside o poético em Escrevo seu nome no arroz. Se a mãe não foi enterrada de modo convencional e, a partir de sua morte, instaura-se um descompasso na vida dos irmãos, as vozes que o narrador ouve atestam a certeza de que estamos diante de mistérios cujas respostas não são óbvias — ou sequer pretendem ser explicadas.

“Repetir vez mais essa pergunta tão empoeirada, essa pergunta sem verniz, essa pergunta maciça que os antigos sempre fizeram e os novatos sempre farão: quem está aí? Ao menos entender por que a terra se põe tão assuntada diante de mim. Quem está aí? A duras penas entendo o óbvio. E é preciso ombros largos para suportar o óbvio: a voz não ouve. A voz só diz.” (p. 34-35)

O livro marcado por capítulos curtos coloca o leitor diante do interior do interior do narrador. Há poucos diálogos, e o medo de falar, assim como o constrangimento provocado pela gagueira, aparece em oposição — e também em complemento — à quantidade de pensamentos desenvolvidos pela narração. 

A gagueira, que implica repetição de palavras e um ritmo próprio, costura-se ao aspecto poético e sonoro dos parágrafos narrativos, tornando perceptível quão solares, misteriosas e pungentes são as comparações e metáforas elaboradas por esse narrador-poeta.

“As águas chegaram assim. Fazendo alastrar logo os primeiros pingos um cheiro de manteiga velha no chão. Chegaram ensopando os ninhos de cupins, as tocas dos bichos barraqueiros, as gavetas velhacas sobre janelas maldosamente abertas. Chegaram arredondando de vez a lama do brejo, a cabeleira dos grilos, o rombo nas abóboras mal brotadas. Atiçando barulheiras, impondo sigilos nas frutas que se esforçavam nos galhos. Chegaram invertendo as noções, deixando o vinco do dia cinzento. Estapeando as vidraças com zanga, e que culpa tinham as vidraças? Chegaram trazendo um palavrório para as calhas, que logo se puseram tão aguadas e discursivas. Arrebentando os fios do varal, talvez os fios da telefonia. Lavando e fazendo mais sujeira. Lavando e fazendo imundices.” (p. 139) 

O narrador destoa de Simão. O “mano” é quem se expressa, fala e sabe assobiar. A morte da mãe, para o narrador, ocasiona na escuta das vozes da terra e um contato com fantasmas de outrora; já no irmão mais velho, o luto afeta o corpo e seu modo de ser e estar no mundo. Simão é acometido por tosses, pelo consumo excessivo de cigarros, pelas perdas já enumeradas, culminando num embotamento psicológico no qual o real e o misterioso passam a coexistir. Seu sumiço e posterior retorno, transformando-se numa árvore — plantada por ele mesmo aos pés de outra árvore no quintal de casa —, intensificam ainda mais o teor da narrativa.

Assim, as transformações que acontecem após o evento inaugural do romance tornam-se perceptíveis até mesmo nas folhas pretas da diagramação do livro, marcando mudanças no percurso das personagens: a morte, o enterro e o retorno para casa; o abalo da saúde de Simão; as oferendas/ comidas entregues às vozes que o narrador escuta; essa mescla entre cultura popular e religiosidades múltiplas; e, ao final, a árvore-Simão e a partida do narrador, que deixa marcas na terra para um futuro retorno. Afinal, “ali como estava, Simão era mais que uma coisa. Simão era um coiso” (p. 177). 

A terra, para além do elemento natural, funciona como uma constante e um refrão do romance. É sob ela que a mãe é enterrada, mas também é nela que se estabelece a comunicação com os mortos e veículo de alimentação e culto às vozes. Como se fosse abrigo e, ao mesmo tempo, reivindicasse algo.

Ao final do romance, os irmãos possuem uma relação intensa com a terra que o cerca, presentificada nos credos populares, nos provérbios, nos ritmos e nas sonoridades que constituem o texto de Romão, mas também na construção das próprias personagens —o deitar-se para escutar a voz e o aterrar-se de Simão revelam sujeitos em simbiose com a natureza.

“Mas com o tempo fui pegando a manha. Além de descobrir os seus sabores prediletos, percebi que elas eram extremamente rigorosas em certos quesitos. Por exemplo, não suportavam que eu deixasse a comida no chão ao ar livre. Era preciso cavar um buraco, mesmo que rasteiro, e depois tapar jogando terra por cima. Dia após dia, me vi entocando punhados de oréganos, ovos de gema mole, nunca cozida. Também acabei destinando um só lugar para lhes dar de comer. Escolhi um canto afastado, no pé da Figueira, poupando meu mano de presenciar essas cenas.” (p. 124)

Tudo pode parecer extremamente detalhista, um foco excessivo no miúdo ou no minúsculo, mas nada disso prejudica ou borra a qualidade do romance. Tudo é grandioso e profundamente poético. O nome escrito no arroz lida com personagens grandes, que não cabe numa saca, nem no próprio arroz evocado no romance: “Deixe disso, meu mano, não é do nosso feitio as coisas maiúsculas” (p. 102).
 
Para cultivar arroz, afinal, é preciso terra molhada. Caetano Romão faz uso da terra para produzir árvores-pessoas-coisas-animais coloridos e detalhados, grandes em sua pequenez e inseridos nas brumas dos mistérios que somente a literatura consegue dar conta.


______ 
Escrevo seu nome no arroz
Caetano Romão
Fósforo, 2025
192 p.

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