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A poesia de Roberto Bolaño, algo mais que um gesto incompleto

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Por Mónica Maristain — Quem o fez acreditar que é melhor poeta do que contador de histórias?   — A gradação do rubor que sinto quando, por puro acaso, abro um livro meu de poesia ou um de prosa. Eu coro menos com a poesia.   Lucero Andrade, Roberto Bolaño e Bruno Montané. Foto: Consuelo Karoly.   Ele não escreveu um Canto Geral , que entre outras coisas era seu livro favorito de Pablo Neruda. Não deixou a marca de outro de seus compatriotas, Raúl Zurita, que em A literatura nazista na América empresta a Carlos Wieder o hábito de escrever poemas no céu (Precisamente, em Cadernos de guerra , Zurita se refere ao “Hepático Bolaño” que nunca conheceu e muitas vezes recebe pouco crédito como poeta e romancista).   No entanto, Roberto Bolaño (1953-2003) escrevia poemas. Não foi um grafomaníaco como seu grande amigo Mario Santiago (1953-2008), mas atribuiu a uma inalienável vontade poética, além de publicar algumas coleções de poemas, incluindo sua primeira obra editada pel...

A casa de Hemingway em meio à desolação

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  Por Pablo Mediavilla Costa Ernest Hemingway lendo em seu barco, Pilar, 1947-1948. Arquivo: John F. Kennedy Presidential Libray and Museum. Os fogos de artifício sacodem as tranquilas noites de San Francisco de Paula, nos arredores de Havana. Ernest Hemingway lidera um grupo de amigos pela vegetação rasteira de sua fazenda, agem sob suas etílicas ordens como um comando de guerrilheiros, armados com bombas fedorentas e hastes ocas para lançar foguetes e outros fogos de artifício adquiridos no bairro chinês. Em pé na cerca da propriedade vizinha, assistem a um banquete do rico Frank Steinhart, herdeiro da Havana Railway Co. — empresa de transportes da cidade — com quem Hemingway teve uma disputa territorial. Ao sinal do escritor, lançam o ataque e correm de volta para a casa. Papa — apelido imortal na boca de Marlene Dietrich — sempre o último a bater em retirada e “ver como saltavam copos e pratos dos comensais à medida que estouravam os fogos de artifício ou as senhoras se desculp...

Aleksandr Blok

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Por Ekaterina Ignatova   O nome do poeta Aleksandr Blok (1880-1921) ainda retorna com frequência, como um eco persistente, na literatura russa, seja em inumeráveis escritores que se inspiram na sua obra, seja nos leitores que recordam e transmitem adiante sua palavra. Com a passagem do tempo, na violenta história russa — reconhecida por sua efervescência — a aura mística que acompanha a memória de Blok tem sido uma constante. Sua diferença em relação a boa parte dos seus colegas de profissão é dada por uma vida afastada do burburinho literário, ainda que isso não o qualifique como um artista misantropo, destituído de ironia. Anna Akhmátova recorda a única vez quando visitou Blok em sua casa: “comentei com ele sobre um poeta chamado Benedict Livshits (bastante reconhecido então) que se queixava de que ‘a simples existência de Blok o afetava na atividade de escrever poesia’. Blok, sem rir, respondeu seco: ‘Isso eu sei bem. No meu caso Liev Tolstói me afetava na escrita’.”   Depo...

Boletim Letras 360º #453

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DO EDITOR 1. Caro leitor, durante a semana, esteja atento às redes do Letras: divulgaremos os três livros enviados pela editora Mundaréu para o primeiro sorteio no âmbito da rede de apoio que iniciamos para manutenção deste blog. 2. O sorteio acontece no próximo mês. Na edição 448 deste Boletim já revelamos um deles . E você pode se inscrever até a dia 25 de novembro. Todas as informações sobre essa proposta estão disponíveis no menu ao lado, no final desta publicação ou aqui .   3. Esteja em paz, fique bem, boas leituras e muito obrigado por sua preciosa companhia por aqui e noutras redes do Letras ! Paulina Chiziane, prêmio Camões 2021. Foto: Liliana Henriques.   LANÇAMENTOS   Três romances de Paulo José Miranda reunidos pela primeira vez .   Este volume reúne os três primeiros romances do autor, através dos quais procurou penetrar, em linguagem límpida e pensamento fino, nos meandros da criação a partir de três notáveis artistas: Cesário Verde, João Domingos Bomte...

Breve ensaio sobre a beleza na arte

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Por Marcelo Moraes Caetano Emily Kame Kngwarreye. Ntange Dreaming, 1989.   Para Cassirer, a beleza é uma constante do fenômeno humano, sem necessidade de teorias metafísicas sutis e complicadas para a sua explicação.   No entanto, ela sempre foi alvo de paradoxos em meio às diversas correntes filosóficas. Até a época de Kant, a filosofia da beleza era ligada a fatores estranhos e exógenos, principalmente nas culturas “civilizadas” (ou “policiadas”, como diriam Auroux ou Derrida) a que se vinculavam a experiência estética e a própria arte. Em A crítica do juízo , entretanto, Kant deu a prova convincente da autonomia da arte no Ocidente em face de conexões obrigatórias com outros ramos do saber, como, na época, principalmente em relação à teologia ou, pior ainda, à ciência. É claro que a Arte Poética de Aristóteles, séculos antes, e embora remanescente apenas em fragmentos, dera o primeiro passo nesse sentido, com o qual se dialogou (e se dialoga) desde a sua vinda à luz a...