O bom e velho novo

Por Rafael Bonavina 




A literatura voltada para o público jovem tem se tornado uma crescente preocupação dos pais e dos estudiosos da literatura. E não é para menos, afinal estamos, jovens e adultos, cada vez mais presos às telas e, consequentemente, somos vítimas das propagandas maquiadas de conteúdo. Pior ainda, em um cenário de constante disputa pela atenção, os estímulos precisam ser cada vez mais potentes para que se consiga prender o consumidor por preciosos segundos. 

Os efeitos danosos desse ambiente sobre a concentração são sensíveis inclusive nos adultos que cresceram e desenvolveram suas capacidades intelectuais antes do advento das redes sociais, e o problema se torna ainda mais preocupante nas crianças, que já nascem imersas nesse mundo pós-internet. Multiplicam-se os artigos científicos dedicados à discussão das consequências da exposição prolongada às telas, pesquisadores debatem a melhor idade para se permitir o acesso às redes, formas saudáveis de incorporação dessa necessária tecnologia etc. 

Por outro lado, a excessiva velocidade e intensidade das plataformas online tem levado muitas pessoas, jovens inclusive, à busca por uma vida mais offline, lenta, ou seja, por uma conexão real com seu mundo. O livro tem sido um dos grandes protagonistas desse movimento, ele permite um momento de relaxamento, de desaceleração e de introspecção que a internet não nos proporciona. Esse fenômeno deu origem, por exemplo, à chamada literatura cozy, que se propõe a criar um ambiente acolhedor e aconchegante para o leitor. 

Nesse sentido, o público mais jovem que busca esse estilo de vida menos acelerado pode ser contemplado também pelas editoras. Afinal, o número de leitores entre as gerações mais recentes não é nada desprezível, e muitas editoras perceberam isso. Apesar da crescente especialização e do desenvolvimento da técnica ligada ao livro infantojuvenil, não parece haver uma fórmula mágica que garanta o sucesso. Justamente o contrário: cada título tem seu próprio desafio e se apresenta como um processo único de edição e circulação. Isso fica muito evidente pelo caso de um fenômeno editorial recente: o livro Noites brancas, de Fiódor Dostoiévski. Sabemos que o nome do escritor possui uma tração muito grande no mundo editorial, mas os pesquisadores e editores foram surpreendidos quando esse romance, de circulação relativamente modesta, de repente se tornou objeto de desejo dos leitores mais novos em todo o mundo. A resposta mais bem aceita para esse fenômeno, pelo menos até agora, é que isso tenha se dado em grande medida pela influência das redes sociais, especialmente o BookTok, mas o tema continua em acalorado debate. 

De qualquer forma, como ocorre com todas as coisas que se tornam moda do dia para a noite, o interesse rapidamente se volta para a próxima novidade, ou seja, para algo que seja diferente. Essa é uma das grandes dificuldades da literatura infantojuvenil: encontrar bons títulos que sejam diferentes do comum. Afinal, apesar das capas chamativas e cheias de cores, o conteúdo de muitos livros acaba sendo genérico demais para causar uma impressão real no leitor. A questão é ainda mais evidente no campo da forma, pois a maioria das edições parecem seguir certos padrões, que contribuem com a sensação de mesmice. 

Uma das formas possíveis de buscar inspiração para romper com os padrões vem, curiosamente, de um ditado russo: “O novo é o bom antigo que foi esquecido” (“новое — это хорошо забытое старое”). Essa expressão diz, em outras palavras, que o que hoje é considerado novo e bom vem de algo que um dia foi bom, mas que acabou esquecido; e não se precisa ir longe na literatura para se encontrar diálogos, paródias e intertextualidades que justifiquem o ditado. Se olharmos para essa ideia pelo seu avesso, podemos pensar que é possível criar algo novo por meio da recuperação do que já foi bom um dia e hoje está esquecido. Isso, porém, não é algo que se faça como passatempo, exige um profissional de alta especialização e muita pesquisa.

Nesse sentido, a Edusp publicou um livro que sintetiza todas as questões de que vínhamos falando até aqui, como literatura infantil, inovação estética e resgate histórico; trata-se de A vanguarda do livro russo infantil: contexto e diálogos com o Brasil. Esse livro nasceu de um longo pós-doutorado desenvolvido pela sua autora, Daniela Mountian, sobre a migração de alguns escritores de vanguarda que passaram para a produção de livros infantojuvenis. O fenômeno literário, que ocorreu nos anos 1920 e 1930, foi causado principalmente pela crescente perseguição da arte de vanguarda, que passou a ser considerada “formalista” pelos críticos mais aderentes à linha geral do Partido Comunista da União Soviética. Apesar disso, essa transformação do tipo de literatura produzida pelos vanguardistas gerou resultados verdadeiramente únicos na historiografia literária, que buscavam misturar as suas estéticas particulares e as especificidades da literatura infantil. Um bom exemplo de como isso se deu na prática é o livro Sobre 2 quadrados,¹ editado e traduzido por Daniela Mountian, em que El Lissytzki tenta criar uma história infantil sob a égide do Construtivismo. 

Contudo não se deve pensar que A vanguarda do livro russo infantil: contexto e diálogos com o Brasil é um livro só para iniciados, detentores de grande conhecimento sobre as experimentações russas. Pelo contrário, o livro é todo pautado pela preocupação didática de sua autora, o que se pode notar de maneira evidente em diversos pontos, como a linguagem utilizada, que é clara e fluida, sem cair na armadilha do academicismo hermético. Sua discussão também é ilustrada por dezenas de imagens — desde as capas até reproduções de páginas internas desses livros raros, coletadas pela própria pesquisadora — que se articulam de maneira orgânica com a discussão desenvolvida, permitindo que o leitor consiga visualizar a discussão a partir desses exemplos. Da mesma forma, toda as citações foram traduzidas para o português, o que permite certo contato com livros que não foram, ainda, editados para o nosso idioma.

De um ponto de vista estrutural, o livro se divide em três partes, e cada uma delas parece dialogar diretamente com uma parcela distinta dos seus leitores: “Em contexto”, uma exposição do desenvolvimento da literatura infantojuvenil na Rússia que ajuda a introdução de quem não está acostumado à temática; “Em diálogo”, dedicada à comparação do livro infantil no Brasil e na União Soviética, leva o leitor a pensar nossa própria produção editorial a partir do contraponto soviético; e quatro entrevistas com pesquisadores russos de literatura para crianças, que servem de rico material para os acadêmicos e editores desse tipo de obras.

Na primeira seção, Daniela Mountian apresenta ao seu leitor um panorama que vai desde os primórdios, como um Abecedário (Азбука) do século XVI, até a chamada Era de Prata, nome dado à época da virada do século XIX para o XX. A partir desse panorama inicial, a pesquisadora se detém na produção das primeiras décadas da União Soviética, apontando-lhe as suas particularidades mais curiosas. Um dos gêneros que mais nos chamou a atenção é o gênero “Livros de produção”, que era pensado como uma forma de desautomatizar o olhar da criança sobre o seu mundo. 

A pesquisadora explora, por exemplo, o caso de De onde vem a louça? (Откуда посуда?), escrito por Nikolai Smirnóv e ilustrado pelas irmãs Olga e Galina Tchitchagova. Nesse livro, o leitor é exposto ao processo de produção da louça: “o preparo e descanso da argila, o trabalho no torno do oleiro, a secagem no forno e o tingimento dos produtos (de vermelho, claro)” (Mountian, 2026, p. 58). O exemplo, claro, não é a exceção, e a própria estudiosa afirma que esse gênero de livros infantis era amplo o suficiente para abranger os profissionais mais diversos, como marinheiros, policiais, motoristas, pilotos, produtores de todo tipo de bens de consumo como chocolates, tecidos e, vimos, louça. 

Na segunda parte de seu livro, intitulada “Em diálogo”, Daniela Mountian busca articular as considerações da primeira parte com a realidade do livro infantojuvenil brasileiro daquela época. Para isso, a pesquisadora recupera a produção de autores como Monteiro Lobato, Cecília Meireles e mesmo Graciliano Ramos, a fim de compará-los com os soviéticos, como Samuil Marchak e Aleksandr Vvediénski. Essas comparações, vale ressaltar, não são feitas na chave da falta, isto é, não buscam demonstrar o que o Brasil deveria ter feito para se igualar à produção soviética. Pelo contrário, a preocupação central é a de compreender as especificidades dos dois ambientes culturais, seus desafios, acertos e limitações. Assim, Mountian consegue abrir um novo caminho para a sua discussão, sem desarticular-se nem se repetir; porém, como não se poderia encerrar um assunto tão complexo em um único trabalho, ao encontrar esse novo percurso, a professora também indica um caminho a ser trilhado por pesquisadores futuros que se interessem pelo tema.

Em síntese, A vanguarda do livro russo infantil: contexto e diálogos com o Brasil é um livro que já nasce como referência para os interessados em literatura para crianças, tanto de um ponto de vista acadêmico quanto editorial. Aliás, não seria estranho pensar que essas duas perspectivas têm muito a ganhar uma com a outra, pois, como no ditado russo citado anteriormente, a busca por novos caminhos para a literatura infanto-juvenil brasileira também pode seguir por estradas que um dia já estiveram abertas e hoje se encontram tomadas pelo mato. 

Nesse sentido, um dos resgates mais importantes seriam, a nosso ver, os “Livros de Produção”, apresentados com bastante cuidado por Daniela Mountian. O gênero textual não buscava o ensino de uma moralidade rígida, como ocorria com muitos contos infantis publicados no Ocidente nessa época, mas voltava-se para o combate à fetichização do capitalismo, mostrando à criança como eram feitos os objetos do seu cotidiano. Dessa forma, a obra introduzia a criança, de maneira muito sutil, às entranhas da reprodutibilidade da vida em sua sociedade — tema extremamente complexo, diga-se de passagem —, quase sem que ela se dê conta disso por causa da linguagem lúdica e da estética atraente. Ao que tudo indica, esses livros foram bem-recebidos pelo público infantil, e isso nos faz pensar que não se deve subestimar a inteligência da criança, mas adequar o livro ao universo infantil, levando em conta suas particularidades. 

O problema de se editar um livro desse tipo é que, claro, a grande maioria dos processos produtivos expostos nesses livros das décadas de 1920–1930 já não condizem mais com a realidade. Ou seja, não bastaria traduzir os livros soviéticos, pois as relações de trabalho expostas ali não necessariamente condizem com a contemporaneidade; faz-se necessário buscar inspiração nesse “bom antigo que foi esquecido” para criar algo de fato novo. E, para isso, o primeiro passo é conhecer a fundo o assunto, empreitada em que A vanguarda do livro russo infantil se prova um companheiro inestimável.  

______
A vanguarda do livro russo infantil: contexto e diálogos com o Brasil
Daniela Mountian
Edusp, 2026
368 p.

Notas: 

1 A língua portuguesa possui uma das pouquíssimas traduções desse título, que foi editada e traduzida por Daniela Mountian com o projeto gráfico de Karina Aoki. Dada a sua estética de vanguarda, que brinca com a forma das letras e das palavras, a tradução exige um esforço de transcriação, para usar o termo haroldiano, que merece muito elogio. O leitor interessado pode saber mais através do link.

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