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Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Por Pedro Fernandes José Luís Peixoto. Foto: Reinaldo Rodrigues.   No discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago estabelece um jogo cuja prática exerceu ao longo dos romances que escreveu. Ao se reconhecer mestre e aprendiz de suas criaturas de tinta e papel — aliás, o título desse texto de dezembro de 1998 é “De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz” — o escritor viola propositalmente o lugar do leitor ao lhe atribuir um papel participativo na conformação da obra literária. Trata-se de uma dialética capaz de renovar ainda o estatuto do ficcional; não é o caso de um retorno ao infinito debate acerca dos limites entre o imaginado e o vivido, estirando-se para o primeiro polo dessa relação — até porque entre um e outro, a compreensão do escritor se apresenta indistinta. É, sim, a renovação de uma leitura sobre a existência enquanto aprendizagem constituída no limiar da fabulação e da ação.   O itinerário do protagonista deste romance de ...

Vestígios de um tempo de dor

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Por Tiago D. Oliveira   Ao voltar para o lugar onde viveu a sua juventude com todos os arroubos que a memória fornece para o tempo, um agente do sistema de informações passa a administrar uma empresa de segurança em um bairro paulistano e vai reencontrar seu passado em alguns rostos que fizeram parte de um tempo que insiste em reaparecer.   O Brasil estava mergulhado num período em que os militares tomaram conta do país e a violência se instaurava sem sinal algum de que sairia de cena. Jornalistas, operários, militantes, dirigentes políticos, a tortura era a ferramenta principal de um método que quase sempre culminava com desaparecimentos. Os militares tomaram o poder e afirmaram que a democracia retornaria aos poucos para o Brasil, mas o que realmente aconteceu foi uma indiscriminável onda de assassinatos e ações violentas.      Vestígios. Mortes nem um pouco naturais , de Sandra Abrano, editado pela Bandeirola, é um thriller político que se passa em São Paul...

Os personagens vis em Haruki Murakami

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Por Paula Luersen   Haruki Murakami. Foto: Nathan Bajar “Não existem pessoas más nos seus romances”. Haruki Murakami diz ter ouvido essa frase de uma de suas leitoras quando estava iniciando a carreira como escritor. Ele comenta no livro Romancista como vocação , que passou algum tempo pensando sobre a avaliação e concluiu que talvez a leitora tivesse razão: “nessa época eu estava com mais interesse em criar um mundo pessoal – harmonioso, por assim dizer – do que em compor obras muito complexas. Antes de tudo eu precisava criar e estabilizar o meu próprio mundo, uma espécie de abrigo para enfrentar o mundo real”. Sempre julguei essa elaboração de Murakami de uma honestidade reveladora. Ao externar esse tipo de reflexão sobre o que produziu como escritor, ele mostra que muito antes de partir de ditames ou de preceitos relacionadas à literatura enquanto campo de pensamento – entre eles, a histórica incumbência da representação – Murakami precisava atender a uma necessidade própria, s...

Prazeres febris: dois poemas de Ada Negri

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Por André Cupone Gatti   Ada Negri (1870-1945), escritora nascida em Lodi, na Lombardia, é um daqueles nomes muitas vezes negligenciados quando se fala da literatura italiana do século XX. No que diz respeito à poesia, especialmente, lembra-se de Ungaretti, Montale, talvez Pasolini e Saba, mas raramente discute-se a obra de Ada Negri. Mesmo na Itália, ela parece ter sido eclipsada pela ideia de uma poeta retrógrada, de inclinação patética, demasiado emotiva; somente nos últimos dez anos sua obra vem sendo revista, reinterpretada e republicada no seu país natal com interesse renovado (ponto alto desse movimento é a edição das obras completas de Negri, publicada pela Mondadori em 2020).   Influenciada pelas principais vertentes literárias da Itália do final do século XIX, ou seja, o verismo e o decadentismo, Ada Negri forjou sua poética sob os signos da melancolia, do fatalismo e da solidão feminina, não obstante a denúncia social e o patriotismo estarem presentes em significati...

Boletim Letras 360º #456

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DO EDITOR   1. Caro leitor, aqui estamos com outra edição desta post fixada aos sábados desde há 453 semanas. Reúnem-se a seguir todas as notícias que correram a semana em nossa página no Facebook e outras que ainda não chegaram por lá. Também estão as demais seções com dicas de leitura — com atenção para o bicentenário de Fiódor Dostoiévski.    2. Lembro que no dia 26 de novembro, o Letras sorteia o primeiro ganhador do nosso pequeno clube de apoios à manutenção do blog. Levará um kit com três livros ofertado pela Editora Mundaréu. Você pode saber tudo sobre como participar aqui . Se estiver numa das redes do blog, pode consultar mais detalhes no Instagram , no Facebook ou no Twitter .   3. Muito obrigado por sua presença, pelo apoio e seguimos! Boas leituras! José Saramago. Uma variedade de atividades abre e organiza o ano para o centenário do escritor: uma delas é o 2.º Colóquio de Estudos Saramaguianos.   LANÇAMENTOS   Em um dos testemunhos mais impr...

Farmácia Literária ou a cura pelo romance

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Por Pablo Augusto-Silva Farmácia Literária , ainda que não original, é uma obra singular. Ella Berthoud & Susan Elderkin criaram um livro que poderíamos classificá-lo como de 1001 utilidades — misto de dicionário analógico, autoajuda, receituário, crítica literária, manual para biblioterapeutas — mas, para além de tudo isso, indicações ao grande público de boas obras literárias, de best-sellers às ilustres desconhecidas. As autoras listaram uma série de problemas ou doenças, físicas e emocionais, e para cada uma sugere a leitura de uma obra de ficção. A primeira lista, “Males de A a Z” (p. 11-360) segue com verbetes como: “abandonar o barco, desejo de”, “câncer, cuidar de alguém com”, “concentração, incapacidade de”, “diferente, ser”, “fobia”, “internet, vício em”, “inveja”, “maternidade”, “nariz, detestar o seu”, “ódio”, “pânico, ataque de”, “pesadelos”, “quarenta anos, ter”, “ressentimento”, “sentido, falta de”, “tagarela, ser”, “terminar, medo de”, “TPM”, “trinta ...