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O pecado da caridade



Las manos del mendigo. Oswaldo Guayasamín.

Dos muitos males convencionados pelo cristianismo, a caridade parece ser ou tornado-se o carcoma que rói a tranquilidade humana. Acredito e muito no poder do próprio homem. Juntos, somos capazes de mover montanhas e a fé é totalmente dispensável nesse caso. Mas, tenho sérias dúvidas daquilo que realmente podemos fazer pelo outro sem o joguete dos interesses ou por livre e espontânea vontade. A ascensão da sociedade capitalista tem dado mostras de que o isolamento não nos faz bem e é por isso que vivemos em comunidade, porque disso até necessitamos, e as boas cabeças sabem claramente que não vivemos sem o outro. Isso, no entanto, não quer dizer que deixamos de ser criaturas menos individualistas; somos, sobretudo, criaturas individualistas: não posso viver só, mas cada um meta-se no seu quadrado. O único momento no qual damos mostra de compaixão (sentimento que antecipa a caridade) é quando todos estão na mesma canoa furada. A tragédia do outro me toca, mas me toca verdadeiramente quando passamos pela mesma situação trágica. Fora isso, tudo o que for feito em nome de ajudar ao próximo nasce de uma relação de interesses. Somos, não esqueçamos disso, produtos e produtores numa/duma extensa rede de poderes.

A questão não é que a caridade é de um todo má. Mas, ela tem se distanciado e tanto do seu real sentido que o sentido agora é outro. E como o lado duplo das boas coisas são as más – ambos andam de mãos dadas – aí está o sentido pejorativo do termo. A nossa incapacidade de sermos caridoso é tamanha que fomos buscar, primeiro num Jesus, uma fonte suprema de inspiração, para depois de institucionalizá-lo como filho de Deus e atribuirmos a ele a função de vigilante sob as ações de caridades que viermos fazer. De modo que, o ato de caridade tornou-se artificial: fazemo-lo para ficar de bem com o Superior e conseguir dele a misericórdia pelos pecados ou para não cometermos mais um pecado grave. Fazer caridade tornou-se uma obrigação. Quando um pedinte compõe para um grupo toda história de seu sofrimento e o porquê que está na atual situação e do grupo alguns estendem a mão com alguns centavos, os outros ficam com o remorso de estarem se portando mal por não tê-lo ajudado. Entra em ação a culpa – esse instrumento de controle que subestima a natureza humana e tem transformado, ao longo desses anos de cristianismo, o homem numa cadeia de si próprio.

E tudo finda em hipocrisia. Dei meus centavos, fiz minha ação de caridade do dia, dei um passo a mais para comprar meu lote de terra celestial; o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada – não é assim que reza a frase de quem pede e quem dá esmolas. Vê como somos, antes de tudo, interesseiros? Damos os centavos para nos eximir da culpa, mas damos com a pretensão de que o que foi dado será devolvido em dobro. Ao ter feito a ação de caridade colocamo-nos acima do nosso vizinho que não fez, melhor que ele. A caridade torna-se, desse modo, numa atitude egoísta, uma ação que visa a satisfação de si próprio frente ao outro, num estranho movimento que transforma o amor cristão pelo próximo em vaidade.

O mal que a obrigação da caridade, mesmo sem o merecimento alheio, criou uma extensa rede de pessoas que, mesmo estando em boas condições para o trabalho, por exemplo, encontra nela um pilar de apoio e vê-se totalmente desencorajada para a mudança daquele nível. E é aqui que nossa intenção caridosa deveria atuar: sermos capazes de oferecer possibilidades de que o pedinte busque, por seus próprios meios, o que a grande maioria de todos conseguiu. Isso criaria entre nós um ideário que considero fundamental: o mérito. O mérito é fruto da oportunidade mais uma vontade de vencer. E essa coisa é cada vez mais esquecida, empoeirada num canto social, porque se acredita que todos têm uma obrigação direta em promover oásis de bem-estar ao grupo miserável. Sim, cada vez mais temos cultivado a ideia da caridade para ajudar o outro como se o prato de comida que ele comprar na esquina, depois de fechar o dinheiro para isso, fosse suficiente para promovê-lo socialmente. A caridade nesse sentido funciona como uma forma mesquinha e não restitui ou estitui o sujeito à dignidade. Estabelece-se como um ato piedoso cujo interesse é o de preservação da miséria alheia em detrimento do triunfalismo de poucos.

“Quem tem duas túnicas, dê uma a quem não tem e quem tiver comida faça o mesmo” (Lucas, 3:10). A máxima cristã se baseia no princípio socialista da partilha e partilha é diferente da caridade. Uma se guia pelo amor ao próximo, o mais belo e menos praticado princípio cristão, a outra se guia pelo amor a si próprio.


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