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O Bruxo de Casa Forte: Machado no esplendor da sua complexidade

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Por Alfredo Monte Houve uma grita geral nos últimos dias por conta do projeto (financiado com dinheiro público) de “descomplicar Machado de Assis”, alterando seu vocabulário (a responsável, Patricia Secco, diz entender “porque os jovens não gostam dele”: “seus livros têm cinco ou seis palavras que não entendem [sic] por frase. As construções são muito longas”), e cujo primeiro título sairá em breve ( O Alienista ). De minha parte, só posso evocar o jovem leitor que fui: quando o texto me interessava, não eram palavras que eu não entendia que brecariam a leitura, mesmo sem dicionário à mão. Ia em frente, simplesmente, e isso não me fez mal nenhum, quero crer¹. O contraponto mais adequado a essa visão míope do que seria “adequado” para jovens ou neoleitores é Machado devolvido a todo o esplendor de sua complexidade, e no melhor da sua obra (na contramão da preocupante hipervalorização da sua produção secundária — as crônicas, em especial), efeito final do mergulho (são q...

Um cine-poesia sobre Fernando Pessoa

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Se o poeta português deixou uma das obras mais extensas da literatura portuguesa – dizemos isso pensando no exercício poético a partir da heteronímia e da leva de produções que, vez ou outro irrompem como inédito nos diários de cultura – deixou também um imaginário diverso e possível de exploração igualmente diversa. E não têm sido poucos os motivos de criação artística em torno de sua literatura, ampliando, assim, o que poderíamos dizer de uma “galáxia pessoana”. Dentre esses exercícios criativos, um tem ganhado forma nos últimos anos, que é a relação poesia e cinema. A sétima arte sempre se atreveu a tratar das adaptações de romances ou textos narrativos em geral. A estrutura justifica o apreço da forma. Com o aparecimento do que hoje chamamos de cinema-arte, os olhares das câmeras não se deixam seduzir apenas pelo conteúdo prosaico. E há poemas, diga-se, depois do desmantelamento das estruturas fechadas pela atitude modernista, que figuram mesmo como verdadeiras narrati...

Véspera da água, de Eugénio de Andrade

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Por  Pedro Belo Clara Voltamos ao universo eugeniano com o intuito de abordar a obra que, em conjunto com outras editadas em anos relativamente próximos, por muitos é considerada um dos pilares centrais da mais amadurecida fase poética deste destacado autor. Publicada em 1973, Véspera da água é um livro que desenvolve as intenções poéticas sugeridas por Ostinato Rigore (1964) e Obscuro Domínio (1971), partilhando com os mesmos não só determinados preceitos comuns à temática de Eugénio como, de igual modo, fomenta a evolução dos mesmos. Por isso, poder-se-á dizer que este trabalho representa uma tentativa continuada de aperfeiçoamento de formas, estilos e temas. De facto, se nos familiarizarmos com os anteriores volumes publicados, iremos não só verificar a habitualmente depurada e translúcida imagem poética (ou a frugal raiz do vocabulário de sempre, embora cada vez mais rico e empregado em verso seguro), como também significativas mudanças ao nível do uso da ...

Boletim Letras 360 #64

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Mario Quintana e as muitas andanças por quartos de hotel. Foto de Dulce Helfer. Veja mais notícias sobre as fotos de Helfer ao longo deste boletim. Semana de possível estreia. Semana de intenso movimento no blog Letras in.verso e re.verso. Isso aqui vai, camaradas, de vento em popa. Só temos, nada mais a dizer além do que já dissemos, obrigado a todos que contribuem para o alargamento dessas fronteiras. Uma pausa por aqui, só por um fim de semana, como de costume, mas nos bastidores é tudo agitação: preparação de material para a semana que vem e, claro, conteúdo em constante atualização em nossas redes sociais. Para não perder cada lance vale acompanhar-nos clicando nos links no fim deste boletim. E, falando em redes sociais, vamos ao que foi notícia em nossa página no Facebook? Olhem só: Segunda-feira, 05/05 >>> Portugal: Jogar baralho Fernando Pessoa São 53 cartas de baralho com excertos de poemas, baseadas em fotogramas criados expressamente para o ef...

Os porquês das leituras dos clássicos ou o mito da leitura

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Por Lee Pontes Italo Calvino diz que a única razão da leitura do clássico é que ler um clássico é melhor que não ler um clássico. Mas o que é um clássico? Um clássico é aquele ser fantasmagórico que nos sorri um riso enigmático. Para o ser comum, pode, tal riso, ser de desdém. Porém, nunca o é. O riso, mesmo o não-riso de Monalisa, é um convite. Um convite a quê? Não sabemos. Os clássicos são como os cantos das sereias e o leitor é aquele que se amarra ao clássico para ouvir e não se lançar no mundo-mar. A leitura é o posicionar da alma no meio do oceano, cujas ondas vão nos guiando para mais mar e mais leitura. Odisseu é o primeiro leitor e, por que não, o primeiro escritor. Mas o que é lido? O cotidiano é lido ou narrado por Odisseu, trata-se, assim, leitura-escritura. Queremos dizer que o ato da leitura é um processo de escritura. Odisseu vivenciará muitos acontecimentos, partira para a guerra e não fora aclamado herói pela força, mas vencerá pela palavra. Ao ler o se...

A literatura filha da revolução

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Por Antonio Jiménez Barca Valter Hugo Mãe. Foto: Nelson Aires. A desumanização, o romance mais recente de Valter Hugo Mãe (Saurimo, Angola, 1971), um dos novos escritores portugueses mais premiados, se passa na Islândia. Para onde vão os guarda-chuvas , o livro que consagrou Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971), se situa num impreciso Paquistão meio fantasmagórico que as vezes parece saído de um conto de As mil e uma noites . São dois exemplos das mais inovadoras propostas da notável geração atual de escritores portugueses que mais angariam prêmios e são os mais acompanhados pelos leitores. Alguns os acusam de escapistas. Outros destacam sua vocação internacional e sua suprema liberdade de narrar o que se passa na alma. Estão próximos dos quarenta. Nasceram, pois, nos anos setenta e começaram a publicar no início do século. Agora eclodiram. Têm êxito. Não é raro que na Feira do Livro de Lisboa algum deles tenha uma centena de seguidores  à espera de seu autógrafo....