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Praga e a outra literatura alemã

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Por Alberto Gordo   No início da década de 1970, o prestigiado crítico de arte Josef Paul Hodin (1905-1995) encontrou uma velha caixa de metal cheia de manuscritos no porão de sua casa em Hampstead, Londres. Ele próprio havia jogado fora os romances e contos que escreveu nos anos 1930, enquanto percorria a Europa. Havia deixado sua cidade natal, Praga, no início da década, e chegaria a Londres em 1944, depois de passar por Berlim, Paris e Estocolmo. No final da guerra, a sua promissora carreira como escritor, interdita por Adolf Hitler quando o ditador ainda estava apenas a despontar, era definitivamente uma coisa do passado. Como judeu, sofrera as implicações do estopim Goebbels: “O judeu, quando escreve em alemão, mente”. Seus pais foram assassinados em Auschwitz. E com o passar dos anos ele se tornaria um dos críticos mais respeitados do Reino Unido.   Na década de oitenta, Hodin, biógrafo de artistas como Edvard Munch ou Oskar Kokoschka, publicou na Alemanha esses primei...

Eva Vitja e a imaginação disruptiva

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Por Jorge Ayala Blanco Em Loving Highsmith (Suíça-Alemanha, 2022) — multi-revelador film 2 da roteirista e documentarista germano-suíça Eva Vitija, primeiro longa documentário, depois de My Life as a Film ou How My Father Tried to Capture Happiness (ambos de 2015) ou Storm & Co (2013), com roteiro dela, de Sabine Gisiger e Andrés Veiel — se evoca e invoca a figura cult da escritora texana de romances policiais com cenário europeu Patricia Highsmith (1921 -1995) tomando como base suas evasivas entrevistas e reportagens de TV em contraste com as profusas confissões pessoais dos cadernos e diários da autora de entre 1941-1955 que foram publicadas post mortem e lidas de forma muito seletiva com uma formidável e sensual voz em off da estrela inglesa Gwendoline Christie (da série Game of Thrones ) e as indiscrições saborosas ou ressentidas de suas agora muito antigas ex-amantes, especialmente Marijane Meaker, também uma romancista estadunidense de rosto comprido e magro, a bonachona...

O gaviero Álvaro Mutis

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Por Mario Benedetti Álvaro Mutis. Foto: Ulf Andersen O colombiano Álvaro Mutis é uma das vozes literárias mais significativas do panorama ibero-americano. A compilação de seus poemas escritos entre 1948 e 1988, intitulada Summa de Maqroll el Gaviero , significa que o leitor irá mergulhar nele, numa região criada como uma barreira contra a morte.¹   O dicionário define a palavra gaviero como “grumete que nos navios a vela sobre ao cesto da gávea, a fim de avistar a terra”. Mutis, como Maqroll, também esquadrinha o horizonte e o acaso, em busca de um futuro aprazível, nem premente ou forçado. “E eu que sou homem de mar”, diz Maqroll, “para quem os portos apenas foram transitório pretexto de amores efêmeros e rinhas de bordel, eu que ainda sinto em meus ossos o balanço da grande vela a cujo alto extremo subia para olhar o horizonte e anunciar as tempestades [...]”.   No entanto, quando o Gaviero começa, “sem propósito deliberado, um exame de sua vida”, esse avanço interior acaba ...

Eureka, Poe!

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Por Christopher Domínguez Michael Em seu incompleto elogio a Edgar Allan Poe, a segunda peça de Los raros (na edição ampliada de 1905), Rubén Darío já adivinhava a influência “profunda e transcendente” que, mais de meio século depois de sua morte, difundiu aquele gênio. Mas Darío, como tantos de seus contemporâneos, ainda não podia conhecer a influência de Poe no novo século. Ninguém como o autor de Os assassinatos da Rua Morgue (1841) seria tão importante para aquele velho ramo da literatura que é a poética, graças a Baudelaire, Mallarmé e Paul Valéry, quanto para a cultura popular. Ao lado do poeta perturbado em sua imemorial torre de marfim pelos mistérios da pura poesia, Poe também inspira o mais modesto e consagrado dos roteiristas cinematográficos. Não há nenhuma série televisiva ou filme associado ao terror, ao crime ou à investigação policial, que os moderníssimos tenham feito operar como competência da metafísica, alheias ao toque de Poe.   Pouco se sabe, no entanto, ape...

Boletim Letras 360º #548

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Jon Fosse Foto: Tor Stenersen LANÇAMENTOS   Um romance hipnótico e inesquecível de um dos grandes nomes da ficção literária norueguesa .   Signe está deitada em um banco de sua casa no fiorde e tem uma visão de si mesma há mais de vinte anos: parada na janela esperando por seu marido Asle, no fatídico dia de novembro quando ele saiu com seu barco e nunca mais voltou. Suas memórias se ampliam para incluir a vida do casal e mais: os laços de família e os dramas que remontam a cinco gerações, até Ales, a trisavó de Asle. Na prosa vívida e alucinante que fez de Jon Fosse um dos mais destacados autores contemporâneos, esses momentos — assim como os fantasmas do presente e do passado — coexistem no mesmo espaço. É a Ales é uma obra-prima visionária e oferece uma reflexão assombrosa sobre o amor, a perda e o legado de nossos antepassados. Com tradução de Guilherme da Silva Braga, livro sai pela Companhia das Letras.  Você pode comprar o livro aqui .   O novo título no pro...

Maurice Blanchot: a escrita da recusa

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Por Rosa Martínez González Lygia Clark. O eu e o tu , 1967. MoMA.   Maurice Blanchot é, ainda hoje, um pensador inclassificável: escritor contra o ato de escrever, pensador contra a instituição da Filosofia, suas propostas tanto no âmbito da teoria literária quanto no da especulação filosófica parecem resistir, dada sua aparente obscuridade, à compreensão da cultura normativa. Ao longo destas linhas, tentaremos fornecer algumas sugestões acerca de duas noções centrais que perpassam toda a obra de M. Blanchot: os conceitos de refus e de révolution .   A nova tarefa do escritor: escutar a refus , fazer a révolution   A primeira coisa que deve ser destacada é que, se ambas as noções — recusa e revolução — são centrais no pensamento de M. Blanchot, não é tanto porque caracterizam sua posição política — também — porém, sobretudo, porque definem o que, segundo ele, determina a exigência ético-política de toda atividade literária crítica: a literatura como o espaço situado no...