A Academia não tem mais tempo para blá blá

Por Pedro Fernandes



Tenho ainda que tomar fôlego porque daqui que chegue o outro lado do rio ainda me faltam muitas braçadas. Não que a extensão seja longa, é o nado que deve ser preciso. De preferência, que todas as braçadas sejam perfeitas. Isso, claro, exige do nadador. A extensão que me falta é pouco mais de 40 páginas ou o que poderei chamar de mais um capítulo ao meu texto de dissertação.

Ainda que se foi o tempo em que para se redigir um texto desses precisávamos de traçar um nado que começaria ainda nos primeiros mares da existência do mundo e vínhamos de lá para cá. E ainda não é difícil encontrar com trabalhos em que o nadador nada tanto que morre à beira de chegar do outro lado. Ou ainda que o nadador se perca em alguma correnteza e fique rodopiando no mesmo lugar até que a água lhe afogue.

Os textos acadêmicos cada vez mais exigem de quem escreve mais precisão, mas justeza ao itinerário e, claro, mais leitura e mais posição do sujeito-autor no texto. Se antes perdíamos tempo com o que disseram os antepassados, hoje devo entendê-los para dizer a meu jeito. Isso é muito positivo.

Chegamos a uma fase, ou pelo menos entramos nela, em que o conhecimento acadêmico prima por uma revitalização própria de si, intentando novas correntezas, ou ainda uma necessidade de excursão da linguagem para tornar o hermetismo da ciência em fala comum a boa parte da comunidade. Tenho trabalhado por essa fluência, afinal, todo estudo literário é um caminho para que outros leitores cheguem até a obra do escritor estudado.

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