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Viva a diferença!

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Por Pedro Fernandes Duramente justapostas e sobrepostas, todas as formas e modos de viver, todas as civilizações do passado desembocam em nós “almas modernas”, graças a esta mistura, os nossos instintos refluem em todas as direções, nós mesmos somos uma espécie de caos. Friedrich Nietzsche Arte: Bruno Munari (Reprodução). VIVA A DIFERENÇA! Estava escrito com letras garrafais num cartaz afixado na entrada, pela parte interna de uma agência bancária. Abaixo da faixa, numa cadeira de cor laranja, estilo jovial, uma senhora simples, por volta dos setenta anos, parcimoniosamente espera. No televisor, clipes com propagandas de alguns produtos oferecidos pelo banco do tipo empréstimos, financiamentos, poder de compra em geral. Esta é a descrição de uma cena que na ausência de uma câmera fotográfica resolvi registrar com  palavras. A fotografia três por quatro verbal é porque me interesso por um dos muitos aspectos possíveis de sua leitura que não o slogan do banco: o da ne...

O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith

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O épico do cinema mudo pode ser considerado o blockbuster de sua época, tamanho seu custo e bilheteria Muitos títulos podem ser considerados grandes filmes ou clássicos; já os mais importantes e influentes são poucos. O Nascimento de uma Nação  é um deles. Provavelmente, entraria em poucas listas pessoais de favoritos: trata-se de um filme longo (mais de três horas), difícil, perturbador por seu tema polêmico, datado em vários aspectos. Ainda assim, é considerado o marco inicial do cinema clássico, por suas inovações técnicas e narrativas que se tornaram a gramática oficial do cinema americano e são usadas até hoje. E, mesmo que atualmente ele não pareça fluente como um blockbuster hollywoodiano, na época causou comoção. Mais de um milhão de pessoas viram o longa em seu ano de lançamento. Acusado de racista, O Nascimento de uma Nação   não pode, de maneira alguma ser reduzido a essa controvérsia. Tecnicamente é um trabalho exemplar. Nele aparecem pela primeira v...

Blindness

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Por Pedro Fernandes Era a tela nua. Branca. Esticada à minha frente. Um mar de leite espichado retangularmente que marcava seus contornos algumas filas depois de onde me sentara. No meio da platéia. Gosto do meio. Quando as imagens começarem a se deslocar elas melhor me envolvem. No meio. Confesso que, apesar de minha paixão pelo cinema andar ancorada a da pela literatura, nunca me senti ansioso para estréias em cinema. Até quando da primeira vez que tive oportunidade de ver um filme no cinema. Não muito distante – foi quando da estréia do  Titanic  – filme que não sei o porquê cheguei a assistir cinco vezes (talvez porque o primeiro que vi no cinema, talvez). Mas dessa vez tive, sim, ânsia. E das muitas. Cheguei a reler o romance do José Saramago para ir com a cabeça ainda inebriada pela sua narrativa densa. 14h55. A tela veste-se. Propagandas. Trailers. Até que um disco vermelho estampou-se tão próximo, que sequer daria para precisar ser o de um semáforo. A pri...

Zila Mamede — itinerário e exercício da poesia (5)

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Corpo a corpo  – paisagem dos cinqüent’anos ou uma volta em mágoa Por Paulo de Tarso Correia de Melo* Corpo a corpo Pasto branco potro bravo corpo a corpo corre o certo tempo incerto de um corisco Pasto e cobra rosto franco na empreitada: febre e fogo nesse jogo de encontrar-se Pasto e potro rasto e sono em breve trato: rosto acorda laço e corda desatados Pasto grave tenso rosto: cobra-cobra se consome na empreitada re-presada Pasto franco rosto breve fogo e risco fome e riso no improviso desse jogo Pasto bravo potro branco corpo a corpo: na campina o potro: a crina engalanada (Zila Mamede,  Corpo a corpo ) *** “[...] a beleza é tão grande mas ninguém a enxerga.” ( Marinha ou Paisagem dos cinqüent’anos ) Embora a autora defina Corpo a corpo como “uma volta sem mágoa” a cada um dos lugares que marcam o seu itinerário poético, a novidade desses poemas inéditos está, outra vez, muito mais na forma, se tomada em relaç...

No país dos homens, de Hisham Matar

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Por Lorraine Adams  O que uma criança pode entender do totalitarismo? No excelente romance de estréia de Hisham Matar, essa pergunta transcendo o campo do psicológico para alcançar algo de raro na ficção contemporânea: uma trama sofisticada, dominada por arquétipos, narrada pela lógica de um menino de 9 anos e escrita com ênfase e o lirismo característicos da poesia. Esse maravilhoso livro foi alvo de diversas campanhas de marketing, mas não deixe que alguém te fale, como os publicitários fizeram na Inglaterra logo que No país dos homens apareceu, que esse é um Caçador de pipas líbio. A criação de Matar poderia estar ambientada em qualquer região do mundo: a Líbia, terra natal do escritor, fica livre de suas idiossincrasias, tornando-se simplesmente um virtual país totalitário. E, ao contrário do best-seller de Khaled Hosseini sobre dois garotos no Afeganistão, o romance de Matar é livre tanto nos lugares-comuns quanto de enfeites. O cerne do livro vai além de alguns temas...

Vinicius de Moraes

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Por Antonio Candido Os poetas que valem realmente fazem a poesia dizer mais coisas do que ela dizia antes deles. Por isso, precisamos deles para ver e para sentir melhor, e eles não dependem das modas nem de escolas, porque as modas e os poetas ficam. Se hoje dermos um balanço no que Vinicius de Moraes ensinou à poesia brasileira, é capaz de nem percebermos quanto contribuiu, porque, justamente por ter contribuído muito, o que fez de novo entrou para a circulação, tornou-se moeda corrente e linguagem de todos. Do que trouxe, lembro apenas: a peculiaríssima ligação que estabeleceu entre o mar, a praia e a vida amorosa; a mistura do vocabulário familiar com uma espécie de casto impudor; a invenção de um léxico do amor físico que abole qualquer diferença entre ele e o que é considerado não-físico. E mais um uso próprio do ritmo de romance popular, quem sabe inspirado inicialmente em García Lorca. E uma reconstrução do soneto. E a transformação do versículo solene dos primeiros ...