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Ortografia em reforma

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Por Pedro Fernandes Bem, se nada em nossa vida pessoal está, pós-réveillon, a passar por alguma mudança, este fato não se estende a tudo que nos cerca. Algo sutil está a passar por alguma mudança pós-réveillon. Algo que até o presente não tem causado ainda tanta estranheza a nós. A mudança que está para acontecer, ou melhor, que já vigora, diz respeito ao mundo das letras portuguesas. A partir deste mês de janeiro entrou em vigor - finalmente! - as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O acordo que em papel já há muito que bolava pelas gavetas e que passou por umas quantas cabeças de vários lados foi enfim passado à caneta oficialmente - aqui no Brasil em setembro do ano passado. Tudo começou em 1990, quando representantes dos oitos países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP -, que corresponde a Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste, decidiram simplificar a grafia e unifi...

Era Bush

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Por Pedro Fernandes – Atenção, todos! Vai falar agora o excelentíssimo senhor presidente dos Estados Unidos, do mundo e da cocada preta, o Sr. George W. C. Bush. Todos, por favor, quer dizer, por favor, não, que supremo não pede por favor; todos, dobrem-se diante do superior! Lembrete: quem desobedecê-lo estará assinando um tratado de paz armada. (A cena é interrompida por sapatos voadores de um dos jornalistas da sessão). Associando a charge à cena real estamos diante de um painel significativo do que foi o mandato que se finda hoje. Durante esse período assistimos perplexo o desenrolar de cenas muitas delas comuns às ditaduras num país cujo vocábulo liberdade tremula nos principais veios da história da democracia, esta que ainda caminha, mesmo já capenga das pernas. O governo Bush definiu-se na mentira. Através dela criou-se um pretexto para guerras – as guerras pela liberdade (olha aí o vocabulozinho) do povo afegão, do povo iraquiano. Um bom argumento, não fosse o pe...

Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick

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A Sala de Guerra do filme Dr Fantástico - espaço para sátira do momento histórico da Guerra Fria Em tempos de paranóia e incerteza provocados pela demonstração de força bélica, nada mais saudável que retornar a Dr Fantástico , a brilhante, assustadora e burlesca sátira política de Stanley Kubrick, tão atual quanto em seu lançamento, em 1964. Era o auge da guerra fria. O presidente Kennedy havia sido assassinado, o susto da crise dos mísseis em Cuba era recente, o clima de insegurança dominava tanto os Estados Unidos quanto a Rússia. Se houvesse uma guerra, dizia-se, seria o fim do mundo. Naquele momento, no livro de ficção Alerta Vermelho , o escritor Peter George imagina que, por acidente, um ataque norte-americano é lançado contra a União Soviética. Também em 1964, a hipótese foi tema de outro filme, Limite de Segurança , de Sidney Lumet. Stanley Kubrick resolveu adaptar o  livro, mas queria uma abordagem bem-humorada da história. Peter Sellers sugeriu como roteiris...

John Updike, o reverso do sonho americano

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Por Barbara Celis John Updike. Foto: Dennis Stock. Já não haverá mais livros polêmicos assinados John Updike. Ganhador de quase todos os prêmios literários, exceto o Nobel, a voz imprescindível do colosso das letras estadunidenses apagou-se para unir-se em silêncio às recentemente desaparecidas de Norman Mailer ou Saul Bellow. Com eles compartilhou inquietudes da geração e mais de uma acalorada discussão. Updike, um dos grandes cronistas das mudanças culturais e morais experimentadas ao longo do século XX pelos Estados Unidos, ficará como responsável, entre outras coisas, por elevar o adultério suburbano à categoria da alta literatura. O escritor morreu ontem, 27 de janeiro, em Beverly Farms, Massachusetts. Um câncer de pulmão lhe tirou a vida aos 76 anos; anos que foram suficientes para que o prolífico escritor publicasse 27 romances e 45 antologias com contos, ensaios, poesia e crítica. Ainda tinha um livro por publicar, My father’s tears and other Stories q...

As pequenas memórias, de José Saramago

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Por Pedro Fernandes As pequenas memórias é um livro de emoções extremas; extremas, mas não gratuitas ou baratas como tem sido corrente hoje em dias de espetacularização. Seguindo um estilo que bem trabalhou nos cinco volumes dos  Cadernos de Lanzarote   - diários escritos desde que se mudou para um das ilhas do arquipélago das Canárias   - mas, mais romanceado - coisa que nos cadernos apenas figura como notas - este livro de José Saramago é não apenas um feixe de recordações sobre a infância até o princípio da juventude. As pequenas memórias  é um retrato sobre a formação de um escritor que, antes de tudo, é um interventor, um humanista. Um livro de memórias a que ele chama “as memórias pequenas de quando fui pequeno”.  Portador de uma poesia singela, esse livro reúne como num feixe fragmentos de memória ou os principais acontecimentos que levaram a Saramago ser a pessoa perscrutadora, reflexiva, humanista e interventiva que o é; compreensão que encont...

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha

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Diagnóstico da condição brasileira sob a forma de ópera, filme é assinado por um dos maiores nomes da produção nacional Glauber Rocha possivelmente o mais genial cineasta nacional, já vinha de um curta memorável, O pátio (1959), e de um primeiro longa mítico, Barravento (1962), quando rondou este que é considerado por muitos o maior filme brasileiro já feito. Na verdade, algumas raras vezes ultrapassado por Limite (1930), de Mário Peixoto, e por outro do mesmo diretor baiano, a obra-prima Terra em Transe (1967). Mas Deus e o Diabo na Terra do Sol pisa em terreno sagrado do cinema nacional, que é o nordeste brasileiro, espaço simbólico que representa a realidade do país, suas origens e marginalidade em contraste com os grandes centros urbanos. Nos anos 60, com a efervescência do debate político, às vésperas do golpe militar de abril de 1964, o longa ganha importância suprema. Glauber, diferentemente do que se via nos documentários e do que outros cineastas fizeram nos ...