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Miacontear - A saia almarrotada

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Por Pedro Fernandes Como em  “ O cesto ” , o narrador de  “ A saia almarrotada ”  é uma mulher. Como as outras mulheres de que já falamos desse O fio das missangas , o drama dessa sem nome -  “ Que o meu nome tinha tombado nesse poço escuro em que minha se afundara ”  - se acentua quando ganha de presente uma saia de rodar. O presente é simbólico e representa, na sua cultura, a passagem da mulher dos desígnios dos pais para os desígnios de um esposo. “Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade.” Única filha de uma família de homens; sem mãe, criada pelo pai e pelo tio, essa personagem foi educada ao modo das três irmãs no conto “As três irmãs”: com o intuito de servirem aos homens da família quando estes estiverem velhos. Inicia-se aí um movimento de cerceamento do corpo - “Eu me guardava bordando, dobrando as costas para que meus seios não desabrochassem. Cresc...

O purgatório místico de Elias Canetti

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Por Rodolfo Modern A obra mais celebrada de Elias Canetti é o romance Auto de fé , uma parábola visionária sobre o delírio autodestrutivo da razão ocidental. Como a de Franz Kafka, a escrita do judeu-búlgaro é uma vasta metáfora acerca da condição humana, sem o formidável aparato dos enigmas próprios do autor de A colônia penal . Canetti nasceu em 25 de julho de 1905 em Rustschuk (hoje Ruse), uma pequena cidade da Bulgária na fronteira com a Romênia. Seus pais pertenciam às famílias de comerciantes com certas condições, de origem sefardi, com ramificações nos Balcãs e na Turquia. Os remotos antepassados dos Canetti, expulsos da Espanha em 1492 pelos Reis Católicos, levaram sua língua espanhola à Turquia e ali a preservaram, de modo que em sua tenra infância, Canetti falava búlgaro e esperanto. O pai se mudou em 1911 com os seus para Manchester, onde morreu inesperadamente um ano depois. O menino ficou devastado pela perda e nunca a superou totalmente. A mãe, culta, ...

Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

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Por Pedro Fernandes Não foi esse o primeiro livro do Gabriel García Márquez que tive a oportunidade de ler. Como também não foi Cem anos de solidão . Mas sobre o primeiro livro que li do escritor colombiano posso falar noutra ocasião. Para agora falo desse que é, sem dúvidas, um dos mais poéticos do romancista. É verdade que, quem leu o livro que deu ao escritor colombiano o título do Nobel (mesmo sabendo que o prêmio é dado pelo conjunto da obra, todos sabemos que há nesse conjunto  “ o livro ” , aquele que marca o que chamaríamos de ponto alto na trajetória de todo escritor) - o já citado Cem anos de solidão - ao ler este Memória de minhas putas tristes perceberá logo um certo  “ desnível ”  quanto a arrumação linguística do texto. Deixe que eu me explique. É que aqui linguagem é límpida, sem certo barroquismo que se nota no seu estilo literário, o que não o faz, isso deve ficar claro, ser um menor entre os outros livros do conjunto da obra de Gabo. ...

A literatura em 13 mandamentos por Patricia Highsmith

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Patricia Highsmith conta que uma das ferramentas que mais lhe ajudou a escrever foi a sesta, aquele cochilo que geralmente a gente tira depois do almoço. Em seus primeiros tempos, quando ainda desempenhava outros trabalhos para sobreviver, dormia ao chegar em casa pela tarde e tomava banho ao acordar para simular que começava um novo dia, o de verdade, aquele em que podia fazer o que sonhava: colocar uma palavra atrás da outra para construir histórias. Multiplicar cada dia por dois foi o cartola de mágico da escritora, da qual saía não um coelho, mas um punhado dos romances de suspense que continuam sendo os melhores tantas décadas depois. “Uma sesta salva o tempo ao invés de desperdiçá-lo”, dizia. “Adormeço com o problema e acordo com a resposta”. A divina sesta de Patricia Highsmith não é apenas uma das sensíveis confissões que nos dá o livro dela que aqui vamos falar. É o relato de que a literatura mais sofisticada não está na sofisticação, na visão perdida em busca...

Liquidação, de Imre Kertész

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Por Darío Villanueva   O misterioso protagonista de Liquidação , tradutor e escritor – como o próprio Imre Kertész – que se apresenta apenas com B. nasceu em dezembro de 1944 em Birkenau, isto é, no campo de concentração de Auschwitz, onde, como geralmente era feito com bebês, em vez de ser tatuado com uma letra e um número no braço, foi tatuado na coxa.     Antes de B. que deu desde então nome a uma história macabra: sua mãe, uma judia húngara, havia conseguido a cumplicidade de  blokova , a comandante polonesa da enfermaria hospitalar, para ser inscrita como a prisioneira eslovaca que acabava de morrer, o que incrementava as possibilidades de sobrevivência do filho que ia dar luz frente aos muito escassos judeus marcados com a letra A.   Este episódio recorda o que narra Jorge Semprún em  Viverei com seu nome, ele morrerá com o meu , e fala dessa evidência que o próprio Kertész relembrou em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel: umas vezes como elo...

Miacontear - Inundação

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Por Pedro Fernandes “ Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. ” * O traço de sonho do im possível é uma constante, como já notei em “O homem cadente”. O conto “Inundação” recupera outra vez essa dimensão que se intercala por outro traço, o da memória. Envolto numa atmosfera onírica, temos aqui o tom agridoce da recordação que perscruta o espaço da casa e os movimentos da figura materna - como a figura central, que ordena (no sentido de organizar, cuidar), a que põe sentido, mas também com a que padece de um estágio de submissão pelo tom com que são trabalhadas e retrabalhadas a ideia do canto materno: “Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre.” (p.25). Tal gesto, Mia Couto parece copiar de um poeminha  de Paulo Leminski: “Minha mãe dizia: / - Ferve água!/ - Frita, ovo!/ - Pin...