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Jorge Luis Borges, o ser e o tempo

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Por Juan Arnau Navarro Jorge Luis Borges diante a Mesquita Azul, em Istambul. Foto: María Kodama Borges joga como uma divindade hindu. Entre a metáfora e o mito, o infinito. Move despreocupadamente suas asas no estúdio da rua Maipú e desencadeia um terremoto no Japão. Como num sonho, Borges é a borboleta, o tremor e as emoções que convoca. Mas ele sabe que não existe, por isso ri e se desdobra. Conhece o poder da alma para criar sua própria companhia. Há em seu pulso algo do espanto de quem viu as profundezas: o eterno retorno de ruínas circulares, a bagatela da personalidade, uma cópia de uma cópia (como diria Plotino). Ele é o cego que viu e por isso tem medo de espelhos. Mas ele não arranca os olhos para pensar, como o matemático, que sabe que a aparência é verdadeira. Há algo filosófico em sua atitude, embora, é claro, ele o negue. Ele é um simples amante de livros, de mitologias nórdicas, de certos sonhos que aconteceram na Babilônia ou no Ganges. Como um jogador, el...

Boletim Letras 360º #392

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DO EDITOR 1. Continuamos na busca do leitor 80 mil. Será que chega até o final deste ano de proporções inusitadas? Falamos sobre a chamada por novos companheiros que ampliem as fronteiras para o literário na web , falamos sobre nossa página no Facebook .  2. É nesta página, por exemplo, que se registram as notícias copiadas abaixo. Além delas, uma variedade incrível de conteúdos relacionados aos escritores e obras do nosso interesse. 3. Agradecemos a companhia do fiel leitor e deixamos o pedido de trazer para nós seus mais achegados que admiram os livros e a literatura. Fique bem. Boas leituras! Mestre supremo na arte de narrar, Liev Tosltói também é o autor de quatro novelas esplêndidas que ganharam nova tradução direta do russo e nova edição no Brasil.  LANÇAMENTOS A editora Antofágica publica nova tradução de O grande Gatsby , de F. Scott Fitzgerald . Anfitrião das festas mais luxuosas de Nova York, Jay Gatsby é um jovem milionário que encar...

“Não precisa chegar”. Os jograis na democracia

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Por Wagner Silva Gomes Hieronymus Bosch. Trípico de Haywain , 1516. (detalhe) No período em que os estados nacionais da Península Ibérica (Portugal e Espanha) não estavam totalmente definidos (séculos XIII e XIV) e o idioma utilizado era basicamente uma mistura dos dois, sendo designado como galego-português, floresceu o trovadorismo como prática literária na lírica. Foi um movimento cortesão, onde os trovadores (poetas e compositores) poderiam interpretar suas cantigas ou dá-las para a interpretação dos Jograis (intérpretes), tudo isso com o objetivo de produzir um espetáculo, onde entram as soldadeiras (dançarinas que animavam as apresentações), numa performance em algum palácio, com reis, nobres, clero e nas grandes festas populares, com a presença de plebeus. Metricamente os poetas utilizavam-se da medida velha, isto é, redondilha menor (5 sílabas métricas) e redondilha maior (7 sílabas métricas). A partir dessa técnica de se fazer poesia e canções, é possív...

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

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Por Pedro Fernandes Fahrenheit 451 foi publicado em 1953 e deste então passou a integrar a seleta lista de uma linhagem do romance que remonta a pelo menos duas décadas antes de quando da sua origem: a distopia. Trata-se daquela obra que geralmente extrapola os limites das convenções estabelecidas e que guardam, nem sempre expressamente, uma interpretação acerca dos seus destinos e as implicações nos destinos da própria comunidade. Os modelos da ficção distópica estão muito bem determinados no romance Nós , do escritor soviético Ievguêni Zamiátin; seus herdeiros exploram desde então as mesmas dimensões que entreveem uma humanidade submetida aos excessos introduzidos pela era da burocracia e da técnica. No caso do romance de Ray Bradbury, a sociedade por ele pensada encontra-se situada no último estágio de consolidação de uma era pautada exclusivamente pela imagem e na total negação dos objetos conseguidos ao custo da linguagem escrita. O protótipo desse modelo se es...

Escrita instável para um tempo instável

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Por Cruz Flores Anne Carson. Foto:  Lawrence Schwartzwald  Em seu livro Asfixia , Franco Berardi fala da poesia como “a linguagem da não-intercambialidade”¹, o último reduto de uma aliança perdida entre signo e significado, onde o “dizer” e o “querer dizer” se sobrepõem por um momento, apenas enquanto a função do poema existe. E por isso, a poesia se torna o incompleto: os projetos duram mais que seus autores, os autores não conseguem realizar o que querem e, no final, apenas os leitores ficam diante de um amontoado de palavras. Existe uma intensa vida no incompleto. Encontrar pedaços de textos esquecidos, relacionar-se com eles, imaginar o que existia antes, o que não será depois, é uma das experiências que mais guardo. Aproximar-me dos fragmentos de Hölderlin, por exemplo, e ver suas lacunas, os parênteses que estão no lugar de algo que o autor não conseguiu escrever, me dá uma sensação tanto de incapacidade como de ser livre: sou responsável, agora, por pr...

A superfície de Hemingway (I) – lendo “Up in Michigan” e “Indian Camp”

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Por João Arthur Macieira Ernest Hemingway, 1921. Arquivo John F. Kennedy Library. É muito raro na literatura, mesmo para aqueles que conquistam o respeito da crítica e o sucesso comercial ainda em vida, serem compreendidos. Mesmo um autor como Ernest Hemingway, que é, certamente, um dos mais lidos autores norteamericanos, ainda não deixou de fornecer material para os estudos literários na nossa geração. É verdade, porém, que o público e os críticos brasileiros que queriam elaborar esse material encontrarão dificuldades: o estudo da obra de Ernest Hemingway simplesmente não existe entre nós. Fora o belo livro de uma professora da Universidade de São Paulo sobre Hemingway e a Guerra Civil Espanhola¹ e uma dissertação defendida em 2019², não há produção acadêmica dedicada ao grande desse autor. Também se trata de uma obra literária que não chegou às grandes editoras, apesar do Nobel da Literatura em 1954. Tudo nos dá a entender que Hemingway é um escritor que viveu sua f...