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Análise de “O Falcão”, de Luis Fernando Verissimo

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  Por Davi Lopes Villaça   A crônica, e de maneira mais surpreendente a crônica humorística, acaba sendo, pela sua aparência de coisa cotidiana, pelo seu tom descontraído e despretensioso, um lugar de profundezas inesperadas, como demonstrou Antonio Candido em “A vida ao rés do chão”. Pode ser também um lugar de grande sofisticação formal, de árduas conquistas estilísticas, cujo resultado muitas vezes é, ironicamente, a impressão de uma escrita fácil e espontânea. Há vários exemplos disso na obra de Luis Fernando Verissimo. Proponho-me a analisar sua crônica, “O Falcão”, cujas primeiras linhas dão-nos já uma amostra do poder de síntese desse autor.   “Só uma palavra descrevia a vida de Antônio. Foi a palavra que ele usou quando viu o tamanho da fila do ônibus. ― Que merda!”   Antônio leva, portanto, uma vida “de merda” ― ou seja de pouco valor, muito ordinária, ruim. Mas essa palavra, ao ser reciclada da fala do próprio personagem, carrega ainda outro sentido, d...

Boletim Letras 360º #394

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DO EDITOR   1. Virou (ou começou, depende da perspectiva de cada um) mais uma dezena de edições deste boletim. Desde 2012, a página do blog no Facebook passou a veicular informações variadas em torno do nosso universo de interesse. Mas, meses depois, a baixa visibilidade de conteúdo pela segmentação nesta rede social favoreceu a criação de um espaço aqui capaz de guardar o registro e oportunizar um (re) encontro com o material divulgado.   2. Eis, pois, a edição 391. Com algumas seções que foram integradas muito depois da existência do boletim: as dicas de leitura, destaque de outros materiais nas redes do Letras ou em espaços vizinhos e a recordação de algumas publicações do blog.   3. Em nome do Letras, agradeço sempre a companhia do fiel leitor e deixo o pedido de trazer aqui os seus mais achegados que admiram os livros e a literatura. Fique bem. Boas leituras! Clarice Lispector e Alzira Vargas, filha de Getúlio. Washington, por volta de 1955. LANÇAMENTOS   Um l...

baltazar serapião e o estupro no Brasil

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Por Paula Luersen ©  Derek Jerman Cento e oitenta mulheres são estupradas por dia no Brasil. Em qualquer texto sobre o assunto me parece importante alçar esse dado a uma espécie de refrão. Cento e oitenta mulheres são violentadas, coagidas, estupradas, a cada dia, somente no Brasil. Sei que os números não impactam hoje, haja visto o pouco valor conferido aos dados da pandemia do coronavírus pelas esferas de poder e pela população em geral. De qualquer modo, os números continuam a ser uma vereda importante para registrar as condições que nos rodeiam, além de assegurar a uma parte da população, que segue recolhida em casa, de que não somos delirantes em relação à angústia crescente que nos assola, em um mundo posto às avessas. Estamos, sim, cercados de muitas formas de violência e naturalizar esse fato só nos faz um tanto mais doentes. Existem, porém, outras veredas que nos levam a encarar a realidade, conduzindo do registro à reflexão, dos números às narrativas. Como o leitor bem sa...

Segredos, de Domenico Starnone

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  Por Pedro Fernandes   Mas se tornar adulto ― disse para mim ― é de fato renunciar a sermos perfeitos. Em Segredos , de Domenico Starnone Em certa altura da vida será possível nos confrontar com uma pergunta de matriz existencial: o que é a maturidade? A ela poderíamos agregar outra variedade de interrogações, como, quando sabemos que a alcançamos, existirá um instante que se afirma acima de tudo o que vivemos e a partir disso podemos ver o começo da maturidade, ser adulto pode se descrever como um traço essencial do maturo, ou ainda, que elementos nascidos na tenra infância carregamos, explicitamente ou à surdina de nós mesmos, por toda a vida ao ponto de baldear nossa compreensão sobre o antes e um depois da maturidade? Embora esses questionamentos se constituam a partir de demandas subjetivas, podem ― e isso demonstra uma plena assunção de uma era dos subjetivismos ― inquirir importância também a nível coletivo, sobretudo, no interior das crises em processo do fim século X...

Edith Wharton, cem anos de inocência

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Por Marta Ailouti Martin Scorsese disse uma vez sobre A época da inocência que este foi, sem dúvida, de todos os seus filmes, o mais violento. Adaptação do romance homônimo de Edith Wharton, nele a escritora narra a história de Newland Archer, um jovem advogado preso às rígidas convenções sociais de Nova York na década de 1870 que, depois se comprometer com May Welland, se reencontra com o prima de sua noiva, a condessa Ellen Olenska, de volta aos Estados Unidos após um casamento fracassado e infeliz. Publicado pela primeira vez em 1920, esta história consagrou a escritora como a primeira mulher a ganhar um Prêmio Pulitzer. Escrito após a Primeira Guerra Mundial, entre setembro de 1919 e março de 1920, o romance, que deve seu título a uma pintura de 1788 de Joshua Reynodls, foi uma das obras mais intimamente ligadas à biografia da autora do que ao longo de sua vida escreveu 25 romances, com títulos como Casa da alegria ou A pedra de toque ou Ethan Frome, e 188 contos ― além de ...

A garota de Ipanema e a garota de Paris

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Por Thiago Teixeira © Isabel Graf. Sábado em Ipanema . Ruy Castro escreveu recentemente na Folha de São Paulo que “Garota de Ipanema” não encontraria hoje acolhida do público, pois a canção, com seu conteúdo sexista, sofreria algum tipo de boicote. Não é possível saber em que medida o autor está falando sério, já que o artigo, irônico, não foi mais adiante. O fato é que Ruy Castro não consegue negar ou desmentir que a música, a despeito da evidente beleza, possui sim uma visão fetichista da mulher. Aliás, são tantas as canções brasileiras atuais tão ou mais fetichistas, e nem por isso sofrem qualquer boicote. De todo modo, há outras dimensões da música que podem ser exploradas, abordagens outras. A nós, cuja abordagem estritamente literária mais interessa, cabe pensar a letra como parte da obra de Vinicius de Moraes, e a obra como parte da tradição literária. A imagem da mulher que passa pode ser encontrada em ouros poemas do autor, como em “A mulher que p...