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Triângulo da tristeza é um filme que naufraga por ser reacionário

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Por Alonso Díaz de la Vega   Quem começou a ver a filmografia de Ruben Östlund com The Square: A arte da discórdia (2017) talvez pense que ele é um crítico da burguesia. Nesse filme — o primeiro de dois a ganhar a Palma de Ouro em Cannes — o mundo da arte contemporânea recebeu o mesmo tratamento que os memes deram recentemente à feira de arte da Zona Maco: a caricatura do ready-made e a denúncia de os preços exagerados que qualquer comentarista de bancada virtual pode fazer. É fácil concordar perante um fenômeno tão excludente, mas o nível de argumentação é idêntico ao de quem diz que as caravanas de migrantes custaram aos contribuintes hospitais, escolas e estradas que, todos sabemos, existiam em abundância no dias antes do trânsito maciço de guatemaltecos e hondurenhos para os Estados Unidos. Ambos os discursos são exemplos da caricatura populista que tanto agrada à classe que se autopercebe fora do luxo e do bem-estar: a média.   Östlund não é um inimigo do privilégio; e...

Título de poeta maldito

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Por Raúl Cazorla Arthur Rimbaud. Desenho: Valentine Hugo. Satânicos, diabólicos, perdedores, obscuros, pestilentos, secretos, marginalizados, estranhos, dissolutos... Chame-os do que quiser: os poetas malditos receberam dezenas de atributos e, apesar da galáxia de conotações, parece que sabemos o que queremos dizer quando os descrevemos como tal. Há, porém, um abuso do termo, uma não sei quê de rótulo publicitário que não faz justiça a quem ganhou o título à base da vida levada em sótãos infectados, sifilítico ou publicando-se em edições manuscritas para quatro gatos pingados. Como disse Manuel Huerga, acredito, quão atraente e sedutora é a imagem do fracassado na ficção, mas é preciso ver quem está concorrendo para ser um na prática. E, a verdade, para ser um poeta maldito, é preciso uma boa dose de fracasso e derrota. É preciso um pouco de memória e retrospectiva, para ser exigente sobre as condições para conceder a condição de maldito. Não basta se vestir de preto; não basta arrasta...

A revolução é melancólica: ler Jorge Edwards hoje

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Por Arturo Fontaine Jorge Edwards. Foto: Ulf Andersen   O real é sempre muito mais do que o real documentado. A intuição, imaginação, fornecem hipóteses, interpretações, conjecturas. A ficção é então uma forma de iluminar a realidade através da imaginação da realidade. Não é que a ficção invente um mundo à parte: nos romances de Jorge Edwards, a ficção é uma forma insubstituível de tentar compreender a realidade. Edwards escreve para entender.   Sua poética situa a ficção em relação à história. A tradição realista tem sido criticada, argumentando-se que se temos realidade, por que uma cópia? É uma velha objeção já levantada pelo velho Platão. Na melhor ficção de Edwards, a realidade aparece como algo a ser descoberto. A narrativa vasculha essa realidade que não se entrega facilmente. A verdade deve ser procurada através de aproximações sucessivas e imperfeitas. O estilo de Edwards incorpora esse espírito. As tentativas e conjecturas se sucedem.   A escrita de Edwards tem ...

Seis poemas de Robert Frost

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Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões) Robert Frost. Foto: Alfred Eisenstaedt   CEIFANDO ( A Boy’s Will , 1913)   Nada se ouvia junto à mata, sendo isto a excepção: A minha gadanha à terra sussurrando. Que era que sussurrava? Não saberei dizer; Talvez o sol e seu calor fosse a questão, Talvez que nenhum som se estava escutando – E por isso sussurrava na vez de falar. Não foi nenhum sonho de dádiva das horas ociosas, Ou oiro fácil nas mãos de fada ou elfo a resplandecer: Algo mais que a verdade iria decerto fraquejar Diante do sincero amor que em filas a vala colocou, Não sem arrancar os frágeis picos de flores vaidosas (Pálidas orquídeas), e assustar uma cobra de verde avivado. O facto é o mais doce sonho que o labor experimentou. A minha gadanha sussurrou e o feno por fazer foi deixado.     REPARANDO O MURO ( North of Boston , 1914)   Há algo que não morre de amores por muros, Que faz o chão congelado inchar debaixo deles, E desarranja os pedregulhos do top...

Boletim Letras 360º #527

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DO EDITOR   1. Olá, leitores, desta vez, passamos apenas para deixar o recado de costume: sobre as possibilidades de apoio ao Letras .   2. Nosso projeto é feito e distribuído gratuitamente, mas precisamos pagar despesas mínimas para a manutenção do blog online, como domínio e hospedagem. E, para isso, a sua ajuda é importante. Para descobrir todas as formas de colaborar, basta ir aqui .   3. Entre essas formas de apoio, está a aquisição de qualquer um dos livros apresentados neste Boletim pelos links nele ofertados ou mesmo qualquer produto adquirido online usando este link .     4. Deixamos o desejo de um excelente final de semana, com boas leituras e algum descanso. Elizabeth Bishop. Foto: Yale Collection of American Literature.   LANÇAMENTOS   A vida de Elizabeth Bishop em uma prosa arrebatadora .   “A arte de perder não é nenhum mistério”, vaticinou Elizabeth Bishop em “Uma arte”, um dos seus poemas mais conhecidos. Nesta biografia fascina...

Johnny vai à guerra, Dalton Trumbo

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Por Bruno Botto Dalton Trumbo. Foto: Bettmann. Dalton Trumbo lança Johnny vai à guerra no dia 3 de setembro de 1939, dois dias depois do começo da Segunda Guerra Mundial. Para um livro com a proposta de ser pacifista é uma baita ironia. Mas nem Trumbo na década de 30, poderia prever que tal livro deveria resistir às várias intervenções militares estadunidenses nas décadas seguintes. Afinal, a paz parecia uma fruta ainda meio verde para a maioria do mundo no começo do século XX.   Para quem possa achar que Trumbo era um desses escritores panfletários vazios, ele foi um dos célebres roteiristas da época de ouro de Hollywood dos anos 1930 e 1940; roteirizou filmes como Trinta segundos sobre Tóquio (1944), Roman Holiday (1953) e Spartacus (1960).   No final dos anos quarenta e começo dos anos cinquenta, Hollywood decretou caça às bruxas aos comunistas e Dalton Trumbo, que era filiado do Partido Comunista dos Estados Unidos, entrou para a lista negra; deliberadamente esquecid...