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Um exórdio em Decameron

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Por Eduardo Galeno Maestro di Jean Mansel. Gerbino embarca no navio da filha do rei de Túnis. Ente Nazionale Giovanni Boccaccio.   *   O exórdio é o pulo apresentador, demonstrativo, antecipando o corpo de uma enunciação. E estou certo de que ele, se não fosse pela adesão corriqueira das escritas modernistas pela dinamite-signo — que tem seu poder armado naquela querela de negação —, passaria perto do que formulamos hoje como ‘normal’ nas poéticas (ao menos em vias originalmente comuns). É nítido, porém, que o exórdio, em matéria aristotélica, é muito mais retórico, exibido no para-além da literatura, que qualquer outro ponto. Apesar disso, nós — que ficamos habituados à introdução — temos em mão vários e vários exemplos de práticas letradas que usaram e abusaram desse ornamento. Desde a entrada de Homero na boca de Ulisses à saída de Camus na loucura de Mersault, esses movimentos se declararam na clareira do dia. Não seria diferente em Boccaccio. Persistência, quase no fim do...

Quatro problemas de filogenia na narrativa breve contemporânea

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Por Michelle Roche Rodríguez Ilustração: Afonso Cruz.   1 Até quando procuraremos “mestres”?   Procurar “mestres” é tão ineficaz quanto apegar-se ao cânone. Há algum tempo, a palavra “cânone” tem sido usada para designar as obras de autores que merecem destaque da crítica acadêmica ou da imortalidade das coleções de “clássicos” nas editoras. Mas o desafio ao cânone nasceu com o próprio cânone. Desde o início, este foi percebido como um clube exclusivo do qual se rejeitava aqueles que escreviam da periferia, incluindo as mulheres. Em O cânone ocidental (1994), Harold Bloom, autoridade no tema, reclama da existência de uma certa “Escola do Ressentimento”, oriunda de uma “trama acadêmico-jornalística” interessada em refutar o cânone para promover “supostos (e inexistentes) programas de mudança social”. Refere-se, claro, ao feminismo e a outros grupos ligados às reivindicações raciais que, mais de trinta anos antes, se tinham estabelecido como eixos do movimento pelos direitos ci...

Boletim Letras 360º #602

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Maria Judite de Carvalho. Foto: Arquivo Colóquio/ Letras (detalhe) LANÇAMENTOS   Está disponível para os leitores brasileiros a obra completa de Maria Judite de Carvalho .   O projeto editorial de reapresentação da obra completa de Maria Judite de Carvalho começou a revelar seus primeiros frutos na terra natal da escritora; era passagem de duas décadas sobre a morte da escritora portuguesa, quando o selo Minotauro, da Almedina, anunciou o feito que começa a chegar no Brasil ainda no mesmo ano de 2018. Herdeira do existencialismo e do nouveau roman , a sua voz é intemporal, tratando com mestria e um sentido de humor único temas fundamentais, como a solidão da vida na cidade e a angústia e o desespero espelhados no seu quotidiano anónimo. Observadora exímia, as suas personagens convivem com o ritmo fervilhante de uma vida avassalada por multidões, permanecendo reclusas em si mesmas, separadas por um monólogo da alma infinito. Desde então saíram seis volumes: no primeiro , os con...

O romance do qual todos (e quase ninguém) falam

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Por Bárbara Ayuso Christina Stead. Foto: Robert McFarlane   Como a maioria, você não sabe quem é Christina Stead. Não se preocupe, ninguém dirá que a culpa é sua ou o chamará de um ignorante blasfemo. Porque os outros — que encheram o peito na primeira linha, refutando com   “eu sim” — também sabem que encontrar esta escritora não é fruto de dedicação bibliófila ou de erudição, mas sim parte do acaso e de um empurrãozinho. Nesse caso, mais do que uma lacuna literária, é uma história de fantasmas com uma estrutura romanesca que carece de um bom começo.   Christina Stead (1902-1983) morreu com alguns livros nas costas, mas sem saber, além de boatos, o que era sucesso ou reconhecimento. O alfabeto do malditismo, mas sem a tragicomédia de John Kennedy Toole. Publicou quinze romances e alguns contos, mas basicamente ganhou o pão de cada dia como professora e ocasionalmente como roteirista na Hollywood dos anos quarenta. Os críticos que prestaram atenção à publicação de O homem...

MANIAC, de Benjamín Labatut

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Por Pedro Fernandes Benjamín Labatut. Foto: Fernanda Requena   A obra de Benjamín Labatut chegou ao Brasil no auge do reconhecimento alcançado entre a crítica num universo, segundo o próprio escritor, um tanto saturado. Na sua primeira passagem pelo país, destacou-se menos pelos livros até então publicados — Quando deixamos de entender o mundo e A pedra da loucura — e mais por sua queixa de que um problema atual da literatura é o excesso de escritores e livros, uma dessas constatações verdadeiras e igualmente questionáveis. Mas, na Era Viral, quando um recorte malfeito de uma opinião é suficiente para legislar favorável ou contra quem a proferiu o que no universo artístico soma-se às dificuldades de separar autor e obra, é importante não reduzir o escritor chileno (e qualquer outro). Benjamín Labatut não é mais um na invencível lista de ficcionistas e MANIAC é um bom exemplo disso.   É verdade que o romance regressa a um modelo que se tornou Best-Seller com Jostein Gaarder...

Breakfast at Tiffany's

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Por Olga da la Fuente   Tudo começa às 5h57; um daqueles dias nublados em que não se tem vontade de sair da cama. A câmera de Franz Planer ( Roman Holiday , The Unforgiven ) captura com sutil elegância a cidade que ainda não despertou enquanto um táxi para na nossa frente. A orquestra de Henry Mancini toca: “Moon River”, a música que foi composta para o filme e que fala de todas aquelas pessoas que saíram de casa em busca de um grande sonho. Porque ninguém chega a Nova York em busca de uma vida tranquila. Nova York é para quem tem um desejo profundo de sucesso, porque mais do que qualquer outro lugar, a cidade dos arranha-céus está perto das estrelas.   E Holly Golightly, a sofisticada e complicada criação de Truman Capote, representa todas aquelas mulheres — meninas, como o escritor as chama — que chegam a Nova York, brilham por um momento e depois desaparecem. Audrey Hepburn, em seu papel mais famoso, desce do táxi. Vestida de preto, luvas de cetim, colar de pérolas, óculos ...