Postagens

Miacontear - Peixe para Eulália

Imagem
Por Pedro Fernandes Reiterando o tom do maravilhoso, Mia Couto engendra em “Peixe para Eulália” uma narrativa cujo foco está em Sinhorito - um doido de um vilarejo dado a formulações sobre o futuro e logo matéria de galhofa para os habitantes do lugar.  A única pessoa, por se sentir tão solitária e à margem social quanto Sinhorito, a depositar atenção nesse homem, é Eulália, funcionária dos correios. É numa grande seca que os do vilarejo inventam de se 'aconselhar' com Sinhorito, ainda que seja para levar o amalucado na troça por suas formulações. Mais tarde o aparecimento de uma doença em Eulália pela escassez do tempo leva Sinhorito a inventariar não mais uma formulação, mas uma atitude: iria de barco ter no céu para mandar chuva à terra em favor de Eulália. Esse gesto é de uma sensibilidade tão aguçada que não perde para outros momentos desses desenvolvidos em vários outros contos de  O fio das missangas .  O fato é que pela força da imaginação, capaz esta ...

João Almino

Imagem
Por Pedro Fernandes Não é tanto de praxe hoje, mas houve um tempo em que, para se tornar um escritor reconhecido, obrigatoriamente, o sujeito deveria largar sua terra de origem e ir para o eixo Rio de Janeiro e São Paulo à cata de um lugar ao sol. Todo escritor era então um desgarrado da sua terra. É verdade também que as razões para esse virar as costas para a terra de origem são resquícios de um modo brasileiro e sobretudo potiguar – porque é o estado do Rio Grande do Norte o lugar que estou tomando em questão. Conheço muito pouco de João Almino para dizer se ele foi um desses obrigados a se desgarrar para construir sua carreira literária. Pode ter sido, mas também sabemos, pelas recolhas biográficas que circulam na internet, nem sempre confiáveis como sabemos, que o escritor natural de Mossoró fez uma carreira promissora e à parte da atividade literária. A diplomacia também cobra do diplomata a vida nômade fora de sua terra natal. A escolha da profissão impôs a Almino o luga...

Ainda Xerófilo, o inédito de Márcio de Lima Dantas

Imagem
Por Pedro Fernandes No último dia 30, foi apresentado à web , através do selo de publicações Letras in.verso e re.verso e encartado à terceira edição do caderno-revista 7faces , o inédito xerófilo , do poeta potiguar Márcio de Lima Dantas. Por ocasião redigi um texto que tem em vista duas coisas: uma, dar a conhecer o poeta, e outra, dar a conhecer a obra em lançamento. É, pois, um texto de apresentações. Este mesmo texto foi veiculado no caderno “Expressão”, do jornal mossoroense  Gazeta do Oeste . Por lá, saiu com um título diferente. Ao invés de “O inédito de Márcio de Lima Dantas” saiu com “Trabalho poético”. E saiu ainda com cortes, devido as limitações de espaço do impresso – um mal do qual padecem os bons e os ruins jornais.  Pela ocasião, apresento o texto tal qual foi entregue para a redação do jornal. Pode ser lido aqui .

Os segredos da Senhora Wilde

Imagem
Por Eduardo Lago Oscar Wilde, Cyril e Constance Em 1879, ano em que deixou Oxford para iniciar a conquista da celebridade em Londres, Oscar Wilde conheceu numa festa uma jovem de boa família e rara beleza que se chamava Constance Lloyd. Casaram-se cinco anos depois, quando a cidade já havia se rendido ao talento do escritor irlandês, embora a moça de cabelo castanho, olhos cor de mel e rosto com traços pré-rafaelista havia sucumbido à primeira vista à ingenuidade e aos encantos do irresistível dândi. Fora de si, quando Oscar a pediu em casamento, Constance enviou ao seu irmão Otho um bilhete em que dizia: “Estou comprometida com Oscar Wilde e sou perfeita e enlouquecedoramente feliz”. Otho Lloyd pareceu não esperar pela notícia. “Se se tratasse de qualquer outro”, escreveu a um amigo, “não colocaria em dúvida que estava apaixonado por minha irmã”. O casamento foi um espetáculo à altura dos quadros cênicos que aparecem em suas comédias. Passaram a lua de mel em Paris. Em meio...

Os versos do poeta João Negreiros

Imagem
Por Pedro Fernandes Um dos nomes escolhidos para a terceira edição do caderno-revista  7faces  que será lançada no próximo dia 30 de setembro é o do poeta português João Negreiros.   Ele é hoje um dos poetas mais premiados da cena literária portuguesa. E além do trabalho com poesia escrita, João une o material verbal a encenação teatral da palavra e, numa atitude, um tanto quanto inovadora, põe seus versos em órbita noutros universos, como a leva de vídeo-poemas  que vai, aos poucos, juntando na web .  Incorpora, logo, um entendimento de que a palavra deve romper as quatro linhas do papel e tomar formar em quaisquer espaços até se perder nas infinitas fronteiras dos bytes . Não vou mentir. Gosto desse trabalho. Ele é assim querido por mim porque estou também pensando naquilo que um conterrâneo português da literatura, o Nobel José Saramago, disse, não uma, mas reiteradas vezes, que a palavra escrita está adormecida e ao ser dita desperta, tem um poder outro ...

Chema Madoz, esvaziamento e reapropriação poética

Imagem
Por Pedro Fernandes O contato com a obra de Chema Madoz se deu ao acaso. O fotógrafo, um dos mais respeitados nomes em Espanha e com trabalhos editados e expostos em meio mundo, ainda é novidade a muitos olhares brasileiros. Eu, nunca fui entendedor de fotografia, mas os trabalhos de Chema me fizeram sair à cata de trabalhos de outros fotógrafos. Encontrei-me virtualmente com muitos que espero ter a chance de publicá-los em trabalhos posteriores que eu venha editar. Agora, voltando ao contato primitivo com a obra de Chema. Ele se deu quando eu estava à cata de imagens que pudesse ilustrar o conjunto de dois ensaios que saem agora na 3.ª edição do caderno-revista  7faces . Depois da primeira fotografia, dei com uma quantidade de imagens que, dialogavam, plenamente com aquilo que discutia os dois ensaios em questão. A única atitude que tive foi a de, usando meu portunhol, entrar em contato com o fotógrafo espanhol a fim de pedir o uso de pelo menos dez dos seus trabal...