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Henry James, o abismo entre a Europa e a América

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Por José Andrés Rojo O jovem Henry James. Foto: Alice Boughton/Corbis Já quase no final de  O início da maturidade  (título inédito no Brasil, tradução livre a partir do espanhol), Henry James se ocupa de um encontro com Louisa Lady Waterford, uma fascinante dama da velha aristocracia. Refere-se a ela em termos de uma rendida admiração, deslumbrado pelo preciso e finíssimo conhecimento que têm da pintura veneziana e de outros mestres como Ticiano e Rubens, e se vangloria de haver chegado a tempo para conhecer os restos da velha ordem,  o que restou desse Ancien Régime que liquidou a Revolução Francesa. Lady Waterford é uma das últimas sobreviventes de um mundo onde uma mulher como ela podia alcançar “tais alturas no ar extático da sabedoria”. O início da maturidade reúne as recordações que Henry James conserva de suas primeiras impressões sobre a Inglaterra depois de desembarcar em Liverpool em 1870 e é, também, uma reconstrução do final da juventude: estava a...

Dez livros que poucos conseguiram terminar

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Por Miqui Otero O romancista britânico Nick Hornby, na última edição do festival literário de Cheltenhan, encorajava os leitores a jogar numa fogueira os livros complicados. A não insistir com esse romance que se instala na mesa de cabeceira como um parasita porque seu leitor é incapaz de lê-lo, mas não quer admitir sua derrota. “Toda vez que seguimos lendo sem coragem reforçamos a ideia de que ler é uma obrigação e ver televisão é um prazer”, afirmava, num elogio da leitura como atividade hedonista. Na direção de sua percepção, muitos fóruns discutiram quais títulos são mais indigestos, uma versão a mais do eterno debate sobre se leem obras complicadas para poder dizer que leram pelo prazer de lê-las. Alguns levam essa ideia demasiadamente longe. O romancista britânico Kingsley Amis disse em seus anos de maturidade que, a partir de então, com pouco de vida pela frente, só leria “romances que começasse com a frase “Ouviu-se um disparo”. Talvez o pai de Martin Amis tenh...

O Crédito é da Cor

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Por Cesar Kiraly § se algum dia lhe faltarem as moedas para molhar as ossudas mãos do velho Caronte. por esquecimento ou por mesquinharia. se o homem dos ritos fúnebres as roubar. & o bom barqueiro te propuser uma pergunta em troca. lembre que recusou os jogos que te propus. enquanto eu te esperava / estivera sempre de livro aberto / um animal a lamber as patas para pentear o rosto § ela acreditava que o passado não a buscaria. por isso andava resoluta para fora de casa. as sobrancelhas finas. o vestido florido bem assentado no corpo bonito, delimitado na cintura. poderia andar sem culpa, sem medo, imbatível contra todos os destinos que o mundo poderia pensar para ela. eles não ficariam roxos de serem agarrados sem vontade, seus braços brancos teriam as marcas doces e vermelhas de dedos que a puxariam mais para perto. ela resistiria para dar aquele assentimento confuso próprio às coisas de amor. apenas os cabelos cresceriam, como concessão à gravidade das coisas. se ...

O pintassilgo, de Donna Tartt

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Por Pedro Fernandes Até o presente, Donna Tartt parece que não tem dado muita atenção para o acumulado da fama: desde o seu primeiro romance, A história secreta , publicado quando ainda estava na faculdade, que a escritora estadunidense tem sido fenômeno ao redor do mundo. Mas, não é ela também, ao que parece, uma autora interessada na forma Best-Seller. O romance seguinte, O amigo de infância , valeu-lhe o Prêmio Pulitzer de Literatura. Mais tarde, em 2014, a revista Time a elegeu uma entre as cem pessoas mais influentes do mundo. Com O pintassilgo , Donna redige o terceiro título de sua carreira literária. Cada obra se distancia pelo menos uma década uma da outra. O romance ora apresentado recebe esse título pela relação que mantém com uma minúscula, mas enigmática e significativa tela homônima do pintor holandês Carel Fabritius. Pintada em 1654, a tela apresenta no que parece ser um suporte para pássaros, um pintassilgo amarrado pelo pé. Trata-se de uma peça cuja funçã...

Oscar Wilde e um certo rapazinho de olhos escuros

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As mãos são imundas e o colarinho da camisa um desastre, irregular, composto só por alguns fios, sujo – mas os olhos do prisioneiro 1122, um colega de cela do prisioneiro mais famoso da prisão, ainda estão brilhando com a vida e as travessuras. Não há nenhuma prova de que Harry Bushnell tenha sido o rapazinho de olhos escuros sobre quem Oscar Wilde, ao cumprir pena de dois anos por atos de atentado violento ao pudor com outro homem, escreveu carinhosamente numa de suas cartas e com quem pode ter tido um affair. No entanto, Bushnell, de quem se descobriu fotografias presentes nos arquivos da antiga prisão de Reading, foi certamente um dos companheiros do escritor inglês em 1895: era moreno e bonito de um modo travesso. Não há nenhuma evidência de um interesse erótico, e Bushnell certamente também não foi o último grande amor da vida de Oscar Wilde, mas houve, da parte do escritor para com o preso, um interesse amigável. Wilde chegou a lhe enviar algum dinheiro qua...

Boletim Letras 360º #87

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Três momentos de uma obra em construção ou Leonardo Da Vinci rascunhar é preciso. Entre balbúrdia e a calmaria temos tendências para a segunda opção. E aqui estamos entre um grito de mudança e outro de retrocesso para dizer aos leitores o que foi notícia em nosso mural da página no Facebook. Às vezes registramos as coisas por lá, e em grande parte, graças sobretudo aos limites da rede social, não alcançamos a todos. Daí o sentido desta coluna semanal criada há 85 semanas. Vamos lá? Segunda-feira, 13/10 >>> Brasil: Entrevistas raras com escritores O blog da livraria Eterna Cadencia nos brinda com algo imperdível: uma coleção de vídeos de escritores disponibilizados no Youtube. Podemos ver Ray Bradbury conversando com Adolfo Bioy Casares sobre a ficção, Borges conversando sobre poesia com Octavio Paz, Susan Sontag, Flannery O’Connor... Para celebrar esse Dia Mundial do Escritor, o Letras seguiu a ideia da Eterna Cadencia e preparou uma extensa playlist n...