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Walter Benjamin: fragmentos de uma biblioteca

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Por Georgina Cebey   Certa tarde de 1933, a fotógrafa judia Gisèle Freund deixou sua casa na Alemanha. Pegou um trem com destino à França; entre os seus poucos pertences, os dois mais importantes eram sua câmera e uma carta de aceite da Sorbonne, onde continuaria seus estudos em sociologia. Apesar de ter conhecidos na cidade, Freund passava as tardes na Biblioteca Nacional de Paris, um lugar que se tornou o seu predileto para estudar, mas também uma espécie de suposto lar. Desse lugar, a fotógrafa relembrava em Le Monde et ma caméra (trad. livre O mundo na minha câmera ):   “A sala de leitura, muito maior, era coberta por uma cúpula de vidro através da qual se filtrava uma luz difusa e acinzentada. A maioria dos leitores eram frequentadores assíduos de longa data. Cientistas, pesquisadores, jornalistas e monges eruditos compartilhavam mesa com deputados que ali iam preparar seus discursos. O ar exalava a poeira e a um desinfetante adocicado que um guarda ocasionalmente borrifa...

O estranho caso dos poemas de Gullar que não chegaram à URSS

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Por Rafael Bonavina   Ferreira Gullar, 1965. Foto: França. Arquivo Correio da Manhã (Reprodução) O grande poeta maranhense Ferreira Gullar é um daqueles escritores que, apesar de sua obra importantíssima, ainda se encontra praticamente não traduzida; só aqui e ali encontramos algumas traduções de excelente qualidade. Porém, é preciso chamar a atenção para um caso bastante peculiar em que alguns de seus poemas poderiam ter alcançado outro idioma, mas morreram na praia, ou melhor, na neve. Para isso, começaremos por uma breve explicação de como Gullar foi parar na União Soviética em plenos anos 1970.   Como sabemos, o poeta maranhense era bastante incômodo para a Ditadura Militar por causa da sua atuação política, tanto poética quanto militante; diga-se de passagem, que não se tratava de um ator de segunda categoria, e sim de importância fundamental naquele momento. Por exemplo, sua voz grave e impactante era muito requisitada para a narração de filmes do Cinema Novo, como Maior...

Boletim Letras 360º #643

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Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . Jean Genet. Foto: Roger Parry   LANÇAMENTOS   A nova tradução da obra de estreia do escritor francês, precursor da agora designada literatura queer e da autoficção . Escrito numa das muitas passagens do autor pelas prisões francesas e publicado pela primeira vez em 1943, Nossa Senhora das Flores nasceu das memórias pessoais e obsessões íntimas de Jean Genet. Fruto de uma necessidade incontrolável de evasão e subversão eróticas, a narrativa de Divina adquire, na prosa inigualável de Genet, uma força visionária tão potente que leva os personagens a ultrapassarem os limites da trama e visitarem, como aparições angelicais cheias de malícia, o narrador encarcerado, confundindo aquilo que é real e o que não é. Desconcertante e escandaloso desde o título — que parece aludir a um santuário, mas é o apelido de um rematado cafajeste loiro de olhos azuis —, No...

Aproximações ao Manual de Epicteto e suas Diatribes — nossa ação num mundo de instabilidade

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Por Afonso Junior Epicteto. Retrato imaginado. Oxford, 1715. Recentemente, a série Adolescência tornou-se um sucesso global por trazer à tona vários problemas relativos à nova configuração entre crescimento, redes sociais e violência: por um lado, os pais não têm tempo ou interesse nos filhos, por outro, a machosfera está pronta para radicalizar os meninos, vulneráveis nessa época em que precisariam ainda de apoio, mas estão sozinhos; outros pais se preocuparam em dar todo o conforto material, mas não são capazes de ouvir seus problemas. A paranoia de que as mulheres odeiam os homens acaba “exigindo” ação perversa — mais ou menos, guardadas as proporções, como o povo judeu foi descrito pela ideologia dos anos 1930 como perigoso. Aquilo que os adultos teriam a ensinar foi substituído pelo ensino das telas — com seu iminente fanatismo e preconceito. Os antigos tinham até mesmo um deus, Janus, de duas faces, deus dos portais, para observar essa transição — Carl Jung deu atenção ao mito d...

A importância de se chamar James

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Por Rebeca García Nieto Percival Everett. Foto: Dylan Coulter   Determinados livros deveriam vir juntos numa caixa: Jane Eyre , de Charlotte Brontë e Vasto mar de sargaços , de Jean Rhys; Robinson Crusoé , de Daniel Defoe e Foe , de J. M. Coetzee; e já agora, As aventuras de Huckleberry Finn , de Mark Twain e James , de Percival Everett.   Quando Charlotte Brontë, na narrativa de Jane Eyre , trancou Bertha Mason no sótão e optou por mostrá-la apenas através das descrições do marido, não só nos privou de uma grande personagem, como também nos fez vê-la como primitiva e perigosa, praticamente um animal. Um século depois, Rhys reviveu a “louca do sótão”. Foi quando soubemos que, antes de seu casamento arranjado com o Sr. Rochester e de partir com ele para a Inglaterra, o verdadeiro nome de Bertha era Antoinette Cosway e era uma jovem crioula nascida na Jamaica (então colônia britânica). A romancista dinamarquesa lhe deu uma personalidade e um passado, ampliando de modo compleme...

O Quixote vai ao cinema

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Recorte de Dom Quixote de Orson Welles . Em 2018, por ocasião da estreia de O homem que matou Dom Quixote , seu diretor, Terry Gilliam disse que a obra e a personagem criadas por Cervantes possuem a mesma atualidade de quando foram trazidas a público em 1615. É verdade. A história do engenhoso fidalgo é também tão universal e em todas as épocas serviu de prisma para observar o mundo. E o cinema, que desde sua origem se interessou por enfrentar poderosos gigantes, encontro nas aventuras de Quixote e Sancho uma referência valiosa para a grande tela.   Em 1898, a produtora Gaumont, a mesma que gravou seu nome na história da sétima arte transformando o invento dos Lumière em negócio comercial, filmou um curta em preto-e-branco intitulado Don Quixote . O cavaleiro, evidentemente, era mudo e os gigantes se movimentavam de forma acelerada. Essas imagens, como tantas outras dessa arte perecível, se perderam. Assim, o primeiro filme recontando o livro de Cervantes ficou sendo Les Aventures ...