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O tradutor e o oculista

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Por Rafael Bonavina  Vladimir Lebedev Quando sai a nova tradução de alguma grande obra, todos os interessados se apressam para saber se foi bem traduzida. O ritmo acelerado do mercado — mesmo o editorial — exige uma resposta rápida e curta, de preferência que caiba em uma arte para as redes sociais: é bom, há melhores. Porém, e muitos teóricos da tradução concordam, avaliar uma tradução é tarefa extremamente complexa, por isso demanda muito tempo e reflexão para se poder fazer jus ao seu objeto. Em grande medida, essa demora se dá pela própria complexidade da ação de traduzir, esse ato desmedido, como diria o mestre Boris Schnaiderman. Não há muita novidade nisso, mas é importante às vezes contar piadas velhas para públicos novos: o trabalho do tradutor não se limita à sobreposição de uma palavra estrangeira por outra idêntica do vernáculo. Não precisamos ir muito longe para percebermos que em português há muitas palavras para se designar um lugar cheio de plantas (mato, matagal, f...

Depois do trovão, de Micheliny Verunschk

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Por Henrique Ruy S. Santos  Micheliny Verunschk. Foto: Renato Parada. De acordo com dicionários e outros resultados da internet, concentricidade é a qualidade daquilo que é concêntrico. O que, por sua vez, diz-se, em geometria, de figuras que possuem o mesmo centro, como um círculo menor dentro de um outro maior, que o abarca. Essa ideia de concentricidade espelha o que se pode chamar de esquema formal do novo romance da escritora pernambucana Micheliny Verunschk, Depois do trovão . O leitor, entretanto, deve proceder com cautela diante dessa proposição crítica: ainda que se trate de um romance experimental em seu trabalho com a linguagem, não se tem aqui um daqueles livros geométricos à Osman Lins ou Cortázar, muito menos aquelas estapafúrdias aventuras matemático-literárias dos franceses do Oulipo. Aqui a linguagem narrativa, ao misturar elementos do português com vocábulos e estruturas linguísticas do tupi antigo, do nheengatu e de outras línguas indígenas, infunde uma dose de e...

Boletim Letras 360º #661

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DO EDITOR Saiba que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajudar a manter o  Letras , sem qualquer custo extra. O seu apoio continua essencial para que este projeto permaneça online. Georges Simenon. Foto: Philippe Le Tellier LANÇAMENTOS Depois de passar por diversas casas editoriais que nunca completaram a publicação da obra de Georges Simenon, uma nova promessa: a Coleção Georges Simenon da Editora Unesp reinicia esse trabalho. A tradução integral da obra do autor belga se publica organizada em ordem cronológica .   1. O primeiro volume da Série Comissário Maigret, formada pelas célebres histórias policiais do também célebre personagem, o imperturbável comissário Jules Maigret, traz muitas delas ainda inéditas no Brasil. Nos quatro romances que abrem a série, o leitor encontrará todos os traços que se tornariam marcas registradas de seu protagonista. Em Pietr, o letão Maigret espera prender o crim...

Uma estéril semeadura

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Por Luis Castellví Laukamp Donato Ndongo. Foto: Atilano Garcia Donato Ndongo é a voz literária mais proeminente da Guiné Equatorial. Nascido em Niefang em 1950, passou quase toda a sua vida adulta exilado na Espanha. Seu primeiro romance, As sombras de tua memória negra (trad. livre [1987]), tornou-se leitura essencial para quem busca compreender o colonialismo espanhol naquele país. Seu segundo romance, Os poderes da tempestade (trad. livre [1997]), examina os efeitos do regime ditatorial de Francisco Macías (1968-1979), o primeiro governo após a independência, na Guiné Equatorial. Seus terceiro e quarto romances, O metrô (trad. livre [2007]) e Quem matou o jovem Abdoulaye Cissé? (trad. livre [2023]), focam na migração africana para a Espanha. Quem matou o jovem Abdoulaye Cissé? foi inicialmente concebido como um conto para ser incluído no livro Estéril semeadura (trad. livre [2025]). Depois, Ndongo publicou-o como um romance independente, e o livro permaneceu com quatro contos:...

Trivialidade e dispersão em Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

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Por Gabriella Kelmer Virginia Woolf. Foto: Fine Art Images/Heritage Images “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”, diz o primeiro e ilustre período do mais conhecido romance de Virginia Woolf. A singeleza da sentença, de aparência externa pouco dada à abstração, é constituída pela absoluta trivialidade que nela se inscreve; são os dados aí registrados, entretanto, um sumário consistente de algumas das questões centrais do romance e da personagem que o intitula. Há o casamento, evidenciado pelo pronome de tratamento das senhoras; a iniciativa em assumir a tarefa que se presume de outrem (sendo por isso necessário afirmar que irá “ela mesma”); a expectativa da beleza a que se recorre na ação de comprar flores; a absoluta cotidianidade do tema e, portanto, da mulher a ele associada.  Tudo isso retorna sistematicamente ao longo da narrativa, expandindo-se a abertura inicial para lados muitas vezes imprevisíveis. Está esse início inteiramente afinado, no entanto, a a...

A revolução de Paul Thomas Anderson

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Por Ernesto Diezmartínez  Nos créditos finais de Uma batalha após a outra (Estados Unidos, 2025), apenas o décimo longa-metragem do cineasta californiano Paul Thomas Anderson (desde seu primeiro e prolixo filme principal Passado sangrento (1996) até o encantador e nostálgico Licorice Pizza (2021), passando por obras-primas como Boogie Nights (1997), Magnolia (1999) e Linha fantasma (2017), começamos a ouvir o clássico dos anos setenta de Gil Scott-Heron nos alertando que a revolução não será televisionada e que, portanto, é melhor nos levantarmos de onde estamos sentados e começarmos a nos mexer. Este emblemático poema musical é um tema recorrente nos diálogos da segunda metade do filme, porque todos os personagens da obra mais recente de Anderson se importam com a revolução, seja retomar, continuar ou deter. De qualquer forma, por mais importante que seja a revolução, isso não é tudo. É apenas uma parte de algo muito mais transcendente. Escrito pelo próprio cineasta com base...