Repulsa ao sexo, de Roman Polanski

Catherine Deneuve em cena de Repulsa ao sexo. Ela é uma manicura que sofre de esquizofrenia.

Thriller psicológico acompanha caminho de garota sexualmente reprimida até a loucura e esquizofrenia

"Obsessão" é a palavra que melhor define o cinema de Roman Polanski. Com uma vida marcada por tragédias, como a morte da mãe em um campo de concentração nazista, o assassinato de sua ex-esposa Sharon Tate pela gangue de Charles Manson e a acusação de pedofilia que fez com que fosse proibido de  pisar nos Estados Unidos, o diretor transformou seus personagens em usinas de excentricidades, desejos indistintos e fetiches impublicáveis.

Depois de um início de carreira promissor na Polônia, Polanski começou uma trajetória internacional com Repulsa ao sexo, rodado na Inglaterra. O resultado foi comparado a Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, por suas investigações sobre o lado obscuro do consciente (neste caso, a esquizofrenia), por meio da figura de uma jovem mulher trancada em um apartamento. Carol (Catherine Deneuve) é uma manicure belga, tímida, retraída e sexualmente reprimida, que resiste às investidas de Colin (John Fraser). No seu horror a homens, sofre ao ouvir sua irmã Helen (Yvonne Furneaux) fazendo sexo com o namorado (Ian Hendry).

Até que o casal parte em viagem de fim de semana à Itália e a deixa sozinha no apartamento. A moça lacra o local, isola-se completamente do mundo e começa a ter alucinações para onde quer que olhe - homens passando rapidamente pelo espelho, mãos que surgem da parede para acariciá-la, brutamontes tentando estuprá-la, telefones tocando - a ponto de ela perder a noção entre realidade e pesadelo. Polanski criou, na fotografia de tons expressionistas, uma atmosfera assustadora para reforçar o terror. Deneuve, com pouco mais de 20 anos na época, interpretou tão bem o papel que demorou para perder a fama de frígida.

Poucos anos depois de Repulsa ao sexo, Polanski foi para a América, onde começou uma série de trabalhos em gêneros distintos - comédia em A dança dos vampiros (1967), terror em O bebê de Rosemary (1968), policial em Chinatown (1974) e, na França realizou O inquilino (1976), outro filme assustador também passado em um apartamento. Com o drama sobre o holocausto O pianista (2002), foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes e com o Oscar de Melhor Direção.

* Revista Bravo!, 2007, p.87.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

A relevância atual de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

Visões de Joseph Conrad

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246