Ingeborg Bachmann: maneiras de morrer
Por María Negroni Ingeborg Bachmann. Foto: Ullstein Bild. Reprodução a partir de RP Online As palavras caem sobre a página como grãos (a palavra pai , a palavra incesto , a palavra guerra ), contaminadas por sonhos, banalidades e esforços para compreender a podridão do mundo, e também, por telefonemas que nunca chegam, ou chegam sem aliviar minimamente o suplício da espera. Os burocratas da literatura, se tivessem lido o livro, diriam que Malina (1971) é um romance. Não é. É um livro sobre o inferno. O documento de uma crise e um tratado sobre o infortúnio afetivo que mergulha nas áreas mais esquivas da psique feminina. É também uma catástrofe luminosa onde uma utopia da escrita, seguindo Kleist, opõe-se à linguagem vil da realidade e aos discursos maníacos da ordem. A obra de Ingeborg Bachmann, escreveu seu biógrafo Hans Höller, “pertence a uma das mais angustiantes ofensivas da linguagem contra a dor traumática. Há nela um anseio pelo absoluto que faz do sofrimento uma condição...