Cinco poemas de “Dream Work”, de Mary Oliver (1986)

Pedro Belo Clara
(Seleção e versões)*

Mary Oliver. Frame do documentário Mary Oliver: Saved by the Beauty of the World.



UMA OU DUAS COISAS

2.
O voo galopante da borboleta
leva-a delicadamente 
pelo país das folhas, sendo competente o bastante
para a levar onde quiser, seja isso onde for, parando
aqui e acolá, desarrumando as húmidas gargantas
das flores e a lama escura; sobe
e desce, borboletando frenética e sem propósito, e por vezes,
em demorados e deliciosos momentos, tão perfeitamente
preguiçosa, montada, sem na brisa se agitar, num caule macio
duma flor qualquer. 

5.
Uma ou duas coisas, é tudo o que precisas
para atravessar o lago azul, a densa
folhagem das árvores, e ir pelas duras
flores dos relâmpagos — alguma profunda
memória de prazer, alguma cortante
experiência de dor. 

7.
Por anos e anos lutei
apenas para amar a minha vida. E então

a borboleta
ergueu-se, leve, no vento.
“Não ames demasiado
a tua vida”, disse,

e desapareceu
mundo adentro. 


POEMA MATINAL

A cada manhã
o mundo 
é criado.
Sob as varas

alaranjadas do sol
as amontoadas
cinzas da noite
tornam-se folhas de novo

e apressam-se aos ramos mais altos
e os lagos revelam-se
como um pano negro
onde se pintam ilhas

de lírios estivais. 
Se é da tua natureza
ser feliz
nadarás ao longo dos trilhos macios

por horas, a tua imaginação
flamejando em toda a parte.
E se o teu espírito
carrega dentro dele

o espinho
mais pesado que chumbo — 
se é tudo o que podes fazer
para te continuares a arrastar — 

há ainda
algures fundo em ti
um animal a gritar que a terra
é exactamente o que pretendeu ser — 

cada lago com os seus lírios ardentes
é uma oração escutada e atendida
generosamente,
todas as manhãs,

se alguma vez, ou não, 
te atreveste a ser feliz;
se alguma vez, ou não,
te atreveste a dizer uma oração. 


GANSOS SELVAGENS

Não tens de ser bom.
Não tens de andar de joelhos
cem milhas pelo deserto em contrição. 
Tens apenas de deixar o animal manso do teu corpo
amar o que ama.
Fala-me de desespero, o teu, e do meu te falarei.
Entretanto, o mundo continua. 
Entretanto, o sol e as claras pedrinhas da chuva
movem-se pelas paisagens,
pelas pradarias e as árvores frondosas,
as montanhas e os rios.
Entretanto, os gansos selvagens, bem alto no limpo ar azul,
regressam de novo a casa.
Sejas quem for, por mais só que estejas,
o mundo oferece-se à tua imaginação,
chama-te como os gansos selvagens, áspero e excitante —
uma e outra vez anunciando o teu lugar
na família das coisas. 


A JORNADA

Um dia, finalmente, soubeste 
o que tinhas de fazer, e deste-lhe início,
embora as vozes em teu redor
continuassem a gritar
os seus maus conselhos — 
embora a casa inteira
começasse a tremer
e sentisses o velho puxão 
nos teus tornozelos.
“Conserta a minha vida!”,
gritava cada uma das vozes.
Mas tu não paraste.
Sabias o que tinhas de fazer,
ainda que o vento 
com os seus dedos rijos
forçasse os alicerces — 
ainda que a melancolia deles
fosse terrível. 
Era já tarde o suficiente,
e era uma noite agreste,
a estrada cheia de pedras
e ramos caídos.
Mas, aos poucos,
ao deixares as vozes para trás,
as estrelas começaram a brilhar
através da cortina de nuvens,
e então uma nova voz surgiu,
e lentamente a reconheceste
como sendo tua,
a voz que te ofereceu companhia
enquanto te embrenhavas
no mundo,
determinada a fazer
a única coisa que poderias fazer,
determinada a salvar
a única vida que poderias salvar. 


OS GIRASSÓIS

Vem comigo
      pelos campos de girassóis.
          Os seus rostos são discos lustrosos,
              os caules secos

rangem como os mastros dos navios,
      suas verdes folhas,
          tão numerosas e pesadas,
              todo o dia preenchidas pelos pegajosos

açúcares do sol. 
      Vem comigo 
          visitar os girassóis,
              são tímidos

mas querem amizade;
      têm maravilhosas histórias
          de quando eram jovens — 
              o clima, sempre importante,

os corvos vagueantes.
      Não tenhas receio
          de lhes perguntar alguma coisa!
             As suas faces reluzentes,

que seguem o sol,
      escutarão, e todas
          aquelas filas de sementes — 
              cada uma delas uma nova vida! — 

têm esperança numa amizade profunda;
      cada uma delas, embora esteja
          no seio duma multidão,
              como um universo à parte,

está só, o demorado ofício
      de tornar as suas vidas
          em celebração
              não é fácil. Vem

e falaremos com esses rostos modestos,
      a simples roupagem de folhas,
          as rudes raízes na terra
              tão direitas cintilando. 


Ligações a esta post:



* Versões a partir do original em Devotions – The Selected Poems of Mary Oliver (Penguin Press, 2017)



Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

A maior flor do mundo, de José Saramago

Ernest Hemingway não era inimigo de John Dos Passos

Os segredos do sucesso de Shakespeare

“Pano de fundo variado para um destino comum”: Otto Maria Carpeaux e o romance brasileiro

O vermelho e o negro, de Stendhal

Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez