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Luis Fernando Verissimo e a extinção dos seres inteligentes

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Por Afonso Junior “Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.” Cito trecho da crônica de Machado de Assis de 19 de maio de 1888 para lembrar que, diante do absurdo, a coisa mais séria a fazer pode ser o humor. Não se deixe enganar pelo normal. Além disso, as modas acadêmicas e o mercado de páginas podem esquecer tradições, direcionar desejos e “empoderar” gêneros, legitimando sentimentos e enobrecendo certos produtos, se não formos espertos. Em terra de Clarice Lispector, quem faz rir é rei. Viva a diversidade. O humor quase sempre foi visto como um primo do banal e um filhote do inútil (ainda mais num cômico país triste que coloca na Academia, na sucessão de Moacyr Scliar, Merval Pereir...

Os cenotáfios de Danilo Kiš

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Por Henrique Ruy S. Santos “Também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer” — Walter Benjamin, em “Teses sobre o conceito de história” Danilo Kiš. Foto: Sophie Bassouls A experiência de Danilo Kiš como um escritor iugoslavo judeu nas últimas décadas do século XX não poderia ter sido outra senão a da saturação histórica, o sentimento (hoje ainda mais generalizado em todo o mundo) do peso das agitações sociais e políticas por que passou a Europa no século passado ou por que passaram os judeus desde muitos séculos antes. Não deveria surpreender, assim, encontrar na região dos Balcãs um escritor que é uma espécie de avatar de Borges no Leste Europeu. Não deveria ser surpresa porque o escritor argentino foi o primeiro a escrever no século XX a partir do ponto de vista dessa saturação histórica, que traduzia paradoxalmente em termos de enraizamento local (na Argentina e na América do Sul) e principalmente de um cosmopolitismo muito pec...

Querelles des femmes: bruxas, corpos de mulher e fogueiras no século XXI

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Por Cristina Aparicio  Como dar conta do fato de que, durante mais de dois séculos, em distintos países europeus, centenas de milhares de mulheres tenham sido julgadas, torturadas, queimadas vivas ou enforcadas, acusadas de terem vendido seu corpo e sua alma ao demônio e, por meios mágicos, assassinado inúmeras crianças, sugado seu sangue, fabricado poções com sua carne, causado a morte de seus vizinhos, destruído gado e cultivos, provocado tempestades e realizado muitas outras abominações? — Silvia Federeci, em Calibã e a bruxa Cena de A bruxa , de  Robert Eggers Feminicídios A caça às bruxas, o massacre de mulheres que atingiu seu auge na Europa e na América entre os séculos XIV e XVI, é um dos mais atrozes feminicídios registrados na história. Em seu livro Calibã e a bruxa , Silvia Federici explora as causas e analisa os diversos fatores políticos, sociais, econômicos, jurídicos e religiosos que levaram milhares de mulheres a serem julgadas, acusadas de bruxaria e, por fim,...

Andrea Camilleri, o escritor da memória italiana

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Por Paula Corroto  Andrea Camilleri. Foto: Leonardo Cedamo O sucesso literário chegou tarde para Andrea Camilleri (Sicília, 1925 — Roma, 2019), mas o que importa quando se consegue tornar seus romances, mesmo ambientados na Sicília, universalmente conhecidos, e seu protagonista, o detetive Salvo Montalbano,¹ um desses personagens irrepetíveis para sempre ancorados na memória do leitor?  Ele tinha quase 70 anos quando publicou A forma da água (1994), o primeiro livro com esse singular detetive, um excelente gastrônomo e ainda melhor investigador, capaz de caçar qualquer criminoso com deliciosas ideias que sempre apareciam nas páginas finais de seus romances. Desde então, ele escreveu outros mais de uma centena livros, incluindo os desta série — 37 ao todo —, mas também outros romances históricos e contemporâneos, além de livros de memória. O termo prolífico parece insuficiente para defini-lo.  A lâmpada radicalmente lúcida deste escritor, um fumante inveterado e um comun...

O discurso vazio, de Mario Levrero

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Por Eduardo Galeno  Comecei essa resenha antes do fim do romance de Levrero. Digo que é uma leitura um pouco arrastada, apesar das poucas páginas que compõem o livro. O conteúdo em si não desperta tanto interesse. Muito menos sua forma é novidade para os leitores comprometidos com a contemporaneidade (temos um Osman Lins, que compôs perfeitamente uma história em formato de diário). O que é bastante notório no entorno de O discurso vazio é a maneira de como ele consegue interligar o fato ( ipso facto ) ao material que disponibilizaria o fundo da narração. Não é errado dizer que Levrero fala do Nada, que imbrica e brinca diante da consciência de ser autor. O Nada, vazio e disforme momento do espaço, talvez seja a explicação do porquê. A escrita perseverante e obsessiva do uruguaio me diz mais sobre as razões de não escrever literatura do que o contrário. Basicamente, o modelo limita a minha leitura. Ele não sabe como frisar um conceito, tudo é jogo de termos e de frases colocado sob...

Boletim Letras 360º #656

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras. Domenico Starnone. Foto: Isabella De Maddalena LANÇAMENTOS Com este livro, Domenico Starnone foi reconhecido com o Prêmio Strega (2001). Esta é obra mais pessoal do autor, um mergulho na família e nos sonhos frustrados .  Via Gemito  é uma exploração da família, da memória e da natureza elusiva da verdade. Ambientado na Nápoles do pós-guerra, o romance conta a história de Federí, um funcionário das vias férreas com o sonho de se tornar um grande artista, e sua relação complexa com o filho, que narra os acontecimentos anos depois. O que torna o livro especialmente cativante é sua narrativa em camadas — mesclando autobiografia e ficção —, onde a memória é tanto ferramenta quanto campo de batalha. Starnone capta com precisão a energia caótica de um lar da classe trabalhadora napolitana, expondo as tensões entre ambição, fracasso e controle. Fede...