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A contística inicial de Marcel Proust

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Por Gabriella Kelmer Marcel Proust. Foto: Paul Boyer   A editora L&PM publicou em formato de bolso, em 2018, a coletânea O fim do ciúme e outros contos , de Michel Proust, a partir de uma seleção de narrativas curtas atinentes ao primeiro livro do autor, Les plaisirs et les jours , de 1896. A obra na íntegra, traduzida como O prazer e os dias , foi lançada pela Rio Gráfica no Brasil em 1986, sem que tenha havido desde então uma reedição dos textos, correspondentes à fase mais tenra da escrita do autor.   Os contos que constituem a versão brasileira mais recente são quatro: “Violante ou a mundanidade”, “A confissão de uma jovem”, “Um jantar na cidade” e “O fim do ciúme”, que cede título à coletânea. Cada um deles permite entrever, ainda que embrionariamente, algumas das preocupações da grande obra de Proust, Em busca do tempo perdido , a exemplo do ciúme, da vida mundana experimentada nos salões parisienses, da primazia das relações entre mãe e filhos, da homossexualidade. ...

Contos inéditos de Proust

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Por Christopher Domínguez Michael   Há obras depositadas em baús que, mais que fundo duplo, parecem não o ter, como as de Roberto Bolaño, Fernando Pessoa e, em menor escala, Marcel Proust. Passam-se os anos e as décadas enquanto coisas novas continuam a aparecer. Algumas são verdadeiras surpresas, outras rascunhos cuja preservação se deve ao imperdoável descuido de seus autores, que teriam morrido de novo ao ver esboços enganosos dados à publicidade, e outras ainda vêm simplesmente para enriquecer a paixão filológica de indexadores, estudiosos e arquivistas. A esta última parte pertencem a graça dos contos de Proust resgatados por Luc Fraisse — Le Mystérieux Correspondant et autres nouvelles inédites (Editions de Fallois, Paris, 2019) —, que farão deliciar, inclusive eu, todos aqueles para quem a origem, a essência e o resultado de À procura do tempo perdido é uma das maravilhas do mundo.   É natural que o que Fraisse compilou vale pouco em si mesmo. São exercícios para aqu...

À procura do tempo perdido entre o enfeite e o deleite

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Por Pedro Fernandes Marcel Proust, 1895.  São poucas as obras que se tornaram marco essencial na história do romance. À la recherche du temps perdu está entre elas. Costuma-se precisar o intervalo de 1908 a 1922, como o tempo que Marcel Proust dedicou à composição dos sete volumes que são outra vez traduzidos no Brasil. A grande exposição dedicada à oficina dessa criação, patente na Biblioteca Nacional da França 1 , sugere, no entanto, que seu autor viveu para escrever este romance. À medida que a grande catedral começou a ser erguida tudo o que seu feitor fez/ ou faria foi/ seria convocado de alguma maneira a constituir peça essencial.   Todo esse esforço, como ficou indiretamente dito, findou ainda com os três últimos volumes d’ À la recherche esperando uma revisão, algo que dependeria futuramente dos editores e pesquisadores da sua obra; os últimos anos de vida confinado em seu quarto apenas valeu para alcançar uma conclusão do trabalho. Depois de uma severa crise de asm...

Marcel Proust: o aroma dos meninos em flor

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Por Luis Antonio Villena Marcel Proust (sentado), Robert de Flers (à esquerda) e Lucien Daudet (à direita), c. 1894.   A ideia terá aparecido — certamente — a partir de um homem apaixonado pelos jovens que pagava e frequentador assíduo de bordéis masculinos, alguns ligeiramente camuflados como banhos turcos, onde chegava a cenas sadomasoquistas. Tudo isso foi negado por Céleste Albaret, sua última e dedicada empregada e cuidadora, mas seu testemunho, nisso, valeu muito pouco. O Barão de Charlus, como personagem, tem algo do próprio Marcel Proust no mais íntimo. Jupien, aquele que comanda o bordel no romance, era na verdade Albert Le Cuziat, a quem o escritor deu a grande mobília da casa de seu pai, e que tinha dois estabelecimentos com prostituição masculina em Paris, o famosíssimo Hôtel Marigny e os Banhos du Ballon d’Alsace.   O nome de Le Cuziat — amigo de Marcel, se quiserem, um amigo secreto — aparece em numerosos relatórios da polícia parisiense, que fiscalizava esses es...

Proust e seu mundo mataram Roland Barthes

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Por Christopher Domínguez Michael Roland Barthes. Foto: Marion Kalter.   Em 26 de setembro de 1905, faleceu Jeanne, a mãe de Marcel Proust, e em 25 de outubro de 1977, Henriette, a mãe de Roland Barthes. Entre essas duas datas, bem pode se projetar a posteridade de Barthes (1915-1980), que se questiona, em Roland Barthes por Roland Barthes (1975), diante de uma foto sua quando criança, se, uma vez que, quando “começava a andar, Proust ainda estava vivo e tinha acabado de escrever Em busca do tempo perdido ”, ele e Proust poderiam ser considerados contemporâneos, ou confessa seu aborrecimento porque a mãe/avó do romancista não era realmente sua mãe. 1 Por isso, o último fruto dessa associação é Marcel Proust. Mélanges (2020), uma compilação de tudo o que Barthes escreveu sobre seu autor favorito, mas sobre o qual nunca elaborou um livro unitário, por motivos que chamam ao hipotético ou ao divinatório.   A semiologia barthesiana e sua festa de neologismos vem se retirando de ...

A madeleine de Proust era originalmente uma fatia de torrada

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Por Mitchell Abidor Ilustração: David Richardson.   Em 1949, a sobrinha de Marcel Proust, Suzy Mante-Proust, entregou ao editor Bernard de Fallois alguns papéis que seu tio havia deixado para seu pai, o irmão mais novo do autor, Robert. Ela pediu que ele desse algum tipo de ordem aos papéis. Fallois conseguiu organizar dois livros póstumos, Jean Santeuil (1952), a primeira tentativa muito grosseira de um romance semiautobiográfico, e, Contre Sainte-Beuve (1954), uma coleção de textos ensaísticos e narrativos, que Fallois chamou de “o sonho de um livro, ideia de livro”.   Em seu prefácio ao Contre Sainte-Beuve , Fallois também escreveu sobre a existência de “ soixante-quinze feuillets ” — 75 folhas — do texto manuscrito da versão mais antiga de Proust para À la recherche du temps perdu . Mas quando um grande número de manuscritos que Marcel deixou para Robert foi doado por Mante-Proust à Biblioteca Nacional da França, essas páginas não estavam entre eles.   Essas páginas...