As cartas que sobreviveram: Caio F. pede contato a Hilda Hilst

Por Felipe Vieira de Almeida 




A troca de cartas é uma forma de comunicação que não experimentei e sinto que tenha se perdido, em grande medida. A iniciativa ainda é possível, mas, em outro tempo, o uso da carta trazia consigo uma faceta a mais nos relacionamentos de longa (ou dificultada) distância. Senti mais uma vez esse saudosismo pelo que não tive ao ler sobre as missivas trocadas ao longo de uma vida entre Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst com todas as suas idas e vindas. 

Falo de Numa hora assim escura editado pela jornalista Paula Dip. Amiga pessoal do escritor, ela recebeu o rico volume de cartas trocadas entre o autor e Hilda, a amiga, mentora, confidente e inspiração. Esse material foi salvo por intervenção do poeta Antonio Nahud Júnior, quando a fúria de Hilda Hilst, conhecida por seu temperamento intempestivo e personalidade forte, desejava incinerar tudo passada uma briga com o amigo. 

Os papéis felizmente sobreviveram e aparecerem em livro atende certo gosto do próprio autor, que confidenciava com seus amigos próximos o desejo de ter sua escrita epistolar editada no futuro. Importa lembrar que Caio F. teve tempo e urgência para deixar seus assuntos em ordem, visto que morreu em 1996, aos 47 anos, vítima de complicações da Aids.

O livro que agora temos seria impossível por conta do desentendimento que parecia ser o ponto final entre ambos. A realidade, no entanto, é que a briga de contornos fatalistas para Hilda refletiu uma intensidade que era recorrente também nos afetos entre os dois. Caio afirmava repetidamente a importância e a devoção nutrida para com a escritora que o recebeu em seu sítio no interior de Campinas em 1968 numa altura em que ele fugia da perseguição política à época da ditadura. 

Foi sob a influência de Hilst que Caio F. — também ele afirmava — ganhou voz, tanto metaforicamente quanto literalmente. O autor de Morangos mofados atribuía o surgimento de sua voz grossa e confiante a um desejo atendido pela famosa figueira n'A Casa do Sol. Paula Dip amarra com maestria seu texto em Numa hora assim escura através de histórias íntimas que dão profundidade ao conteúdo das cartas sem, no entanto, se sobrepor ao cerne do livro.

Apesar de as cartas contarem a história de um relacionamento, vemos em grande medida o lado de Caio atualizando Hilda em relação aos acontecimentos de sua vida e também compartilhando inquietações literárias, políticas e metafísicas. Ele transparece não só como um confidente, mas principalmente como um escritor em vias de amadurecimento, ainda que a custo de atribulações na família, no Brasil e até fora daqui. Possivelmente, ele já escrevia com a visão de que suas cartas eram duplamente endereçadas, para a correspondente e para a posteridade. Esse duplo destinatário enriquece o material com as tintas do autobiográfico e também como um insuspeitado roteiro intelectual e psicológico no qual vemos o escritor crescer em simbiose com sua obra e com as reviravoltas de uma vida turbulenta.

Caio Fernando Abreu foi incansável nos pedidos de contato com Hilda Hilst que, a julgar pelas cartas selecionadas por Paula Dip, parece ter sido uma correspondente esporádica, muito para o descontentamento dele, mas sem abalar sua devoção à amiga. A escritora não respondia ao missivista com a frequência que ele gostaria, porém no final de sua vida, já combalido pela Aids, e morando mais uma vez no Rio Grande do Sul, Hilda estaria presente até o final e mesmo depois. 

É da própria Hilda o relata de que o amigo, após a morte, a visitou n'A Casa do Sol; vestia cachecol vermelho como haviam combinado previamente. Sabemos que os dois convergiam também em aspectos místicos e não somente nos interesses intelectuais e na defesa de uma literatura sem concessões. Ao longo da vida se apoiaram ante o silêncio do mercado literário, as duras críticas e, principalmente, na sensação de estarem escrevendo com sangue um trabalho que não era lido à altura de seus esforços.

Por coincidência, eu li Numa hora assim escura no Dia Internacional do Orgulho LGBT neste ano e, nesse sentido, foi enriquecedor comparar as felicidades e as dores de Caio F. com a realidade dessa comunidade hoje. Uma história de infelizes permanências, mas também de conquistas revolucionárias. Hoje, ele não teria sucumbido tão cedo, talvez tivesse também sido um pouco mais feliz, menos perseguido, porém como suspeitou, ele escrevia lindamente para um mundo que ainda estava a caminho, biografou a emoção de uma época que nos é mais acessível por conta de seu trabalho.


______
Numa hora assim escura: a paixão literária de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst
Paula Dip (org.)
José Olympio, 2016
160p.


Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

A falência, de Júlia Lopes de Almeida

Como enfrentar Ulysses

Dez poemas e fragmentos de Safo

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

Com licença poética, a poeta (e a poesia de) Adélia Prado

Dostoiévski, Os irmãos Karamázov e o que está permitido