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Mostrando postagens de julho, 2026

Fausto e a contemporaneidade

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Por Herasmo Braga Rembrandt,  Fausto , 1650.  Aristóteles na  Poética afirma que o imitar é inerente ao ser humano. Se atentarmos para além das questões biológicas, a atividade que o homem mais realiza em sua jornada é interpretar. Podemos considerar sem sobressaltos ou exageros que a trinca de formação da compreensão do sujeito se dará pelas fontes históricas, filosóficas e literárias. Portanto, se a busca por algo é de muito saber, a vigência destes minadouros deve ter suas presenças marcantes. Fausto, seria, portanto, uma imagem significativa da modernidade tão em voga. A Modernidade, então, formou-se tendo como principal característica a centralidade no Eu. Junto a esse Eu-Centro, ao longo dos séculos, foram inseridas maneiras de ser e de se ver em que foi se evidenciando pari passu o acentuamento do Eu e, consequentemente, o apagamento do outro. Desta forma, o imaginário social do sujeito moderno era integrado apenas por maneiras individuais, soberbas, vaidades, e ...

Uma palavra para o Mal

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Por Davi Lopes Villaça No novo Nosferatu (2024), de Robert Eggers, o advogado Thomas Hutter está atravessando o interior de uma bárbara Transilvânia, a caminho do castelo do Conde Orlok, quando, numa noite, depara-se com uma cena sinistra e inexplicável: um grupo de camponeses, guiados por uma jovem nua montada num cavalo, exuma um cadáver e lhe crava uma estaca no peito. Mais tarde, no castelo, ao tocar no assunto com seu sinistro anfitrião, Thomas escuta-o dizer: “Temo que ainda haja por aqui muitas superstições que podem parecer antiquadas para um jovem com seu alto nível de instrução. Estou ansioso para me mudar para sua cidade de mentalidade moderna, que não conhece nem acredita nesses contos de fadas mórbidos”. Não podemos ver o rosto do vilão, mas é como se ele piscasse para a câmera. A ironia é clara: o poder de Orlok, o grande bruxo vampiro, é maior lá onde nada se sabe nem de vampiros, nem de bruxaria, nem de muitas outras coisas. O filme recupera a velha crítica ao iluminis...

Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz

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Por Pedro Fernandes A obra cinematográfica de Karim Aïnouz é vasta e multifacetada. Inclui títulos como Abril despedaçado (2001), Madame Satã (2002), Cidade baixa (2005), Cinema, aspirinas e urubus (2005), O céu de Suely (2006) e Praia do futuro (2014), para referir os filmes mais conhecidos. É óbvio que existe um estilo próprio, como o interesse por personagens descentradas ou dilemas que as mobilizam individual ou mesmo coletivamente. Em alguns dos casos recorrentes é o horizonte de uma existência plena o que elas procuram entre os seus próprios escombros. Encontramos certa parte desse interesse em Rosebush Pruning (2026), que se beneficia do uso livre das várias expressões possíveis no cinema para construir um ensaio descarnado do hedonismo em tempos de alto capital. Diríamos que é a aposta mais ousada de um cineasta mobilizado por alguns interesses caros a cineastas como o Ruben Östlund de Força maior (2014), ou o de Triângulo da tristeza (2022) ou o Yorgos Lanthimos de O ...

A agitação turbilhonar de Lady Gaga – apresentando a série Memorandum

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Por Lucas Paolillo As imagens que se destacaram de cada aspecto da vida fundem-se num fluxo comum, no qual a unidade dessa mesma vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente apresenta-se em sua própria unidade geral como um pseudônimo à parte, objeto de mera contemplação. A especialização das imagens do mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no qual o mentiroso mentiu para si mesmo. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo. — Guy Debord, A sociedade do espetáculo  (1967) Montagem em série autoral de Small Torn Campbell's Soup Can (Pepper Pot) , de Andy Warhol (1962). Nos dias que correm, escrever inspirado por algum impulso de suspeita sobre as assim chamadas divas pop não é tarefa das mais simples. O mero anunciar de seus nomes-fantasia, antes mesmo de delineadas quaisquer figurações, magnetiza devoções litúrgicas ou preconceitos imediatos. “O contemporâneo é o intempestivo”, já disseram por aí...

As almas mortas de Machado de Assis

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Por Rafael Bonavina  Machado de Assis e Nikolai Gógol (montagem) Circulou recentemente uma informação que me pareceu bastante curiosa: Machado de Assis escreveu um texto a partir de um mote tomado do romance Almas mortas , de Nikolai Gógol. Assim que vi isso, parei imediatamente o meu dia e comecei a pesquisar o assunto e não sosseguei até conseguir o acesso a essa crônica de Machado. A crônica faz parte daquelas publicadas anonimamente na Gazeta de Notícias , mas emolduradas pelos dizeres “Bons dias!” e “Boas noites.”; e no caso, é a de 26 de junho de 1888. Com o texto em mãos, não se pode duvidar da intertextualidade, embora seja bem específica, pois o romance gogoliano não é só mencionado no corpo do texto, como lhe é creditada uma importância fundamental: “Conhece o leitor um livro do celebre Gógol, romancista russo, intitulado Almas mortas? Suponhamos que não conhece, que é para eu poder expor a semente da minha ideia.”¹  Como se vê, o livro russo é “a semente” da ideia q...

Dez poemas de Saigyo

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Por Pedro Belo Clara   I. em que momento do longo sono da vida poderei acordar deste sonho espantado pela verdade? II. como poderia passar a minha vida sem saber o que ela é —  um caminho que leva inevitavelmente  à morte? III.  há muito tempo que enviei o meu coração para as profundezas das montanhas e ainda assim este corpo demora-se no mundo flutuante IV. jamais tingiria o meu coração com a pura cor da lua se não deixasse a capital para trás V. como me alegro quão oportuno este nevão escondendo o meu trilho na montanha quando queria estar só! VI. um só pinheiro a crescer entre os vales —        e pensava ser o único  sem um amigo VII. contemplando-as tornei-me tão íntimo destas flores que ao desprenderem-se dos ramos sou eu quem cai… em tristeza VIII. esta primavera vou ficar junto à minha sebe rústica farei amizade com as pessoas que chegarem em busca do perfume da flor da ameixeira IX. sozinho, olhei a glória da manhã consciente que ness...

Boletim Letras 360º #701

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .     Julio Cortazar. Foto: Ulf Andersen LANÇAMENTOS Livro reúne quatro valiosas entrevistas concedidas por Julio Cortázar a duas televisões públicas, da Espanha e da Argentina, entre 1977 e 1983 .  Trata-se de um material que revela uma singular dimensão íntima e autorreflexiva. Entre memórias, humor, política, ética e reflexão poética, o escritor pensa sua vida, sua obra e oferece sua original visão da literatura e da linguagem. Vistas em seu conjunto, as quatro entrevistas configuram um poderoso espaço biográfico, um território discursivo híbri...

O Sêneca de Paul Veyne

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Por Afonso Junior Paul Veyne (1930–2022) foi um historiador fundamental do século XX. Graças a ele, desfizeram-se muitos preconceitos arraigados contra Roma. Uma das contribuições importantes de seu método é a ideia de intriga, ou seja, o modo como a história é, afinal, narrada de forma a ordenar fatos coerentemente, uma ruptura com o positivismo que pensava serem os documentos um retrato fiel de uma História absoluta.  Portanto, é um privilégio para nós termos uma leitura de Sêneca (disponível em português e relativamente acessível) realizada por tão dedicado estudioso da Antiguidade. Graças a um esforço coletivo de intelectuais do século passado, como Émile Bréhier (1876-1952), com seu A teoria dos incorporais no estoicismo antigo  (1908), que influenciou Gilles Deleuze, Michel Foucault e Jacques Derrida, o estoicismo é despido da leviana crítica de “materialismo” ou “platonismo achatado” do século XIX, ainda muito cristã e aristotélica.  O livro de Veyne (publicado na ...