Werner Herzog: em busca de fantasmas
Por Luis Reséndiz

Poucos cineastas se expressam com tanta precisão quanto Werner Herzog. Talvez seja seu forte acento bávaro, seu constante distanciamento irônico ou a maneira brilhante como articula e estrutura seus pensamentos, mas o fato é que, desde os documentários em que sua narração é a espinha dorsal até suas palestras, entrevistas e apresentações, ouvir Werner Herzog falar é sempre uma experiência enriquecedora.
Como prova, apresento uma entrevista de mais de quarenta anos atrás. No final de 1982, Herzog apareceu pela primeira vez em um talk show noturno, o Late Show with David Letterman, para promover um de seus dois épicos amazônicos, Fitzcarraldo (1982). Entrevistador implacável e persistente, Letterman, como dizemos por aqui, pressionou o diretor por diversos ângulos, incluindo os inúmeros contratempos enfrentados pela produção — relatados em Burden of Dreams (1982), de Les Blank, sobre a tortuosa realização de Fitzcarraldo —, os perigos aos quais Herzog se expôs e a seus colaboradores, e a relação tensa com o ator Klaus Kinski, a quem, segundo rumores, Herzog teria ameaçado com uma arma. O diretor aproveitou a oportunidade para esclarecer esse rumor, afirmando que jamais apontou uma arma carregada para Kinski; ele apenas ameaçou descarregar um revólver nele e usar a última bala em si mesmo caso o ator ousasse abandonar o set de sua primeira colaboração, Aguirre, a ira de Deus.
É uma conversa agradável, por vezes hilária, com um Herzog ainda jovem — tinha apenas quarenta anos —, mas já brilhantemente eloquente. Há um momento que particularmente aprecio porque parece articular uma ética que serviu então como uma premonição do que é agora o presente de sua carreira e, em grande medida, do documentário que agora nos interessa discutir, Ghost Elephants. É assim:
Letterman: Em um determinado momento de um desses monólogos no filme, você diz: “Acho que não deveria fazer mais filmes” […] Obviamente, não era assim que você realmente se sentia.
Herzog: É preciso entender isso dentro do contexto em que surgiu. Claro, continuarei nesse caminho. Vou lutar e tentar fazer o meu melhor.
Letterman: Suponho que você ficará longe da selva por um tempo.
Herzog: Suponho que talvez da próxima vez eu vá para o Saara com cerca de dez mil pessoas.
Por um lado, Herzog sabia do que falava: ele próprio já havia filmado no Saara, mais de dez anos antes, Fata Morgana (1971), um de seus filmes mais sui generis; por outro lado, ele também falava do futuro: o cineasta retornaria ao Saara alguns anos depois para filmar Wodaabe: os pastores do sol (1989). Desde então, o cineasta empreendeu projetos igualmente monumentais: sua filmografia, composta por vinte longas-metragens e 34 documentários, o levou ao deserto do Kuwait para explorar poços de petróleo após a Guerra do Golfo, ao corredor da morte do sistema prisional do Texas, a vulcões ativos ao redor do mundo e a diversas crateras de asteroides.
Nos últimos anos, durante sua oitava década de vida, seu já intenso trabalho documental adquiriu um ritmo vigoroso. Aquele jovem cineasta impetuoso que se aventurava em feitos impossíveis tornou-se experiente e impetuoso que recebe financiamento de grandes instituições para testemunhar os feitos impossíveis de outros. E Ghost Elephants, distribuído pela National Geographic, é o trabalho mais recente deste veterano.
É claro que a escala do projeto não decepciona. Como em tantas outras ocasiões, Herzog acompanha um homem obcecado: Steve Boyes, um naturalista e conservacionista sul-africano. Boyes está em uma busca que parece estar a meio caminho entre a fixação do capitão Ahab em caçar Moby Dick e a busca de um criptozoólogo pelo Abominável Homem das Neves. Especificamente, Boyes encontra-se à procura por elefantes esquivos que supostamente habitam — e se escondem — das terras altas de Angola.
Setenta anos atrás, um caçador húngaro, Josef J. Fénykövi, rastreou um elefante na região do rio Kwando até encontrar o animal e matá-lo. A criatura acabou sendo o maior mamífero terrestre já encontrado, com quase quatro metros de altura e pesando onze mil quilos. Seus restos mortais estão em exibição no Museu Smithsonian. Boyes, então, está convencido de que os elefantes esquivos do planalto angolano se parecem com esse colosso, e passou uma década tentando encontrá-los para provar sua teoria, atravessando rios e se encontrando com monarcas locais em sua busca por esses paquidermes espectrais.
Dito assim, o documentário soa bom, mas não é muito bom. A história de um homem branco se aventurando na indomada selva africana para extrair uma maravilha nunca antes vista no Ocidente é tão antiga quanto o colonialismo e já foi contada inúmeras vezes com resultados desastrosos. Nas mãos de um diretor convencional, o fascinante Boyes poderia ter se transformado em algo extraordinário. tornar-se uma figura quase hagiográfica, um desnecessário salvador branco encarregado de nos revelar o mundo.
Mas o olhar de Herzog está longe de ser convencional. Ele claramente tem uma fixação por humanos obsessivos, mas seu alcance nunca para por aí. Pelo contrário: assim como em sua duologia amazônica, onde o foco se desloca do protagonista para abordar os habitantes com interesse e curiosidade, em Ghost elephants atinge seus melhores momentos quando se concentra nos rastreadores de animais, nos músicos tradicionais ou nos monarcas angolanos locais. Essa visão abrange o feito do paquiderme não como o esforço de um único homem notável, mas como a soma dos esforços de uma comunidade que passou anos forjando laços e na qual pulsa o desejo de combater a devastação do ecossistema africano.
Ao longo do caminho, Herzog encontra imagens memoráveis, como aquela em que, enquanto filma um músico tradicional afinando seu instrumento, a narração do cineasta comenta: “Eu sei que não deveria idealizá-lo, mas… cercado por galinhas… não há nada melhor que isso!” Ou como quando nos mostra a edição da Sports Illustrated na qual Josef J. Fénykövi se gabava do feito cruel e idiota de matar o maior elefante já registrado. Ou aquelas sequências em que Rafael Leyva, o diretor de fotografia responsável, captura imagens subaquáticas das patas de alguns elefantes — não os elefantes fantasmas do título, mas isso não importa — nadando em rios africanos.
Em todo o filme, há um senso constante de humor e até mesmo otimismo que transparece em uma das reflexões finais, um pensamento pós-humano habitado pelo melhor de Herzog, o documentarista, aquele que experimenta com ideias enquanto compõe imagens memoráveis: “Os anciãos das tribos acreditam que o desaparecimento dos elefantes anunciaria o nosso próprio. A vida continuaria, mas sem nós.”
Como é natural e quase inevitável, Ghost elephants chega a uma conclusão. Ou melhor, a uma resolução. Para dizer de forma deliberada: o documentário desata alguns de seus nós centrais. Mas é quase impossível encontrar um fim para essa busca colossal, então fica claro que ainda há muito a aprender sobre esses paquidermes misteriosos. Penso nas palavras de Steve Boyes, que prefere que os elefantes não apareçam para que sua busca possa continuar indefinidamente, e penso nas linhas das memórias de Herzog, Cada um por si e Deus contra todos, que podem ser lidos como uma poética: “Nunca vejo a verdade como uma estrela fixa no horizonte, mas sempre como uma atividade, uma busca, uma aproximação”. Aos 83 anos, como muitos de seus personagens, Herzog ainda incorpora aquele princípio ético que revelou a Letterman: ele ainda está aqui, lutando, tentando dar o seu melhor. Ghost elephants é uma comovente representação dessa ética e dessa poética.
* Este texto é uma tradução livre de “Werner Herzog: en busca de fantasmas”, publicado aqui, em Letras Libres.
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