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Ferreira Itajubá, lírica descomplicada

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Agosto. O claro mês dos meus anos. Que anseio De ser asa migrante e fugir pelos ares, Pelos longes do céu, através desses mares, Em busca do calor do sol de um clima alheio! imagem do poeta. fonte Blogue Flores&Versos Mistério e inconstância. Duas palavras que podem definir os quase 35 anos de vida do poeta Ferreira Itajubá. O mistério começa pelo seu nascimento que, não se sabe ao certo. Pode ter acontecido em 1875, 76 ou 77. O último ano é o mais provável. A 21 de agosto para ser mais preciso. Pelo menos foi o que assinalou o próprio poeta no termo de nomeação para servente na Associação de Praticagem. Nasceu provavelmente na Praia de Touros, litoral do Estado do Rio Grande do Norte. O sobrenome com o qual passou para a História também não era seu. Nascido Manuel Virgílio Ferreira, incorporou o Itajubá em seus primeiros versos e depois definitivamente à sua vida. A inconstância aparece no que em circunstâncias normais se chamaria de vida profissional. Foi auxiliar do ...

Carlos Heitor Cony, fragmentos biobibliográficos

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Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias. Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima. ( O suor e a lágrima ) Carlos Heitor Cony nasceu no dia 14 de março, no Rio de Janeiro, em 1926. Cursou Filosofia no Seminário São José, uma formação que veio a reboque do primeiro desejo de seguir uma vida no sacerdócio, abandonado na primeira crise da crença em Deus. A literatura, conta, apareceu antes, mas não foi decisiva para o outro rumo profissional. A literatura foi uma resposta à impossibilidade de falar: na primeira infância, Cony foi mudo e começou por se expressar através da escrita.  Logo no início de sua carreira...

Mar de leite

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Por Pedro Fernandes Um dia normal numa cidade. Numa esquina o sinal fecha. Os carros parados esperam o sinal mudar. O sinal verde acende-se. Um dos carros, no entanto, não se move. Buzinas enfurecidas. Gente enfurecida. Batem furiosamente nos vidros fechados do carro ali parado. Lá dentro um homem vira a cabeça para eles. Percebe-se pelo movimento da boca do motorista duas palavras – “Estou cego”. O sentimento de angústia com que segue a trama é o mesmo que aqui se instala. O sentimento de angústia que segue nessa cena é o mesmo que senti na cadeira do cinema ao assistir Blindness , filme baseado na obra Ensaio sobre a cegueira , de José Saramago – romance que ao lado dos outros anteriores a esse lhe rendeu o Nobel, há dez anos. Romance que rende uma incontável dúzia de discussões. O sentimento de angústia que senti na cadeira do cinema é o mesmo que senti nas cadeiras por onde estive a ler o romance. Um mar de leite que vai inundando pouco a pouco os indivíduos de uma soc...

O africano, de J. M. G. Le Clézio

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Por Javier Aparicio Maydeu “Quem sou eu?” é a frase com que André Breton começa seu romance Nadja (1928), cujas audácias formais, a collage fotográfica e seu manejo autorreferencial da linguagem influenciaram na obra inteira desse piccolo genio chamado Jean-Marie Gustave Le Clézio (Niza, 1940), que em 1963 publica Le procès-verbal ; com 23 anos o escritor demonstra ter aprendido bem a lição das vanguardas e a fama da náusea de Sartre e do absurdo de Camus, além da diatribe contra os modos de vida do mundo contemporâneo, pois o também desenraizado Adam Pollo, seu reflexo e herói anônimo, alienado e sem rumo, busca a si mesmo num meio hostil. A aparência formal de Le procès-verbal ou Le déluge (1966) induzia a pensar que seguia os ditames do nouveau roman de Robbe-Grillet e Butor seja pela dimensão de seu trabalho verbal e sua obsessão pelos objetos e a perscrutador olhar descritivo; mas a pequena precisão asséptica de sua prosa escondeu sempre o lirismo, os caminho...

"A Viagem do Elefante", o aniversário de 86 anos de José Saramago e outras novidades saramaguianas

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Em Portugal, pela mão da Editora  Caminho  e no Brasil, pela da Companhia das Letras , começou a viagem de Salomão, que já está nas livrarias. Em breve também arrancará a viagem em Espanha pelas edições da Alfaguara e a catalã da Edicions 62 ; estes últimos sairão em novembro. Salomão voltará a percorrer a Europa e irá até à América, desta vez com Saramago como cornaca, já que no Brasil se fará o lançamento mundial deste livro, que não romance, que não conto, que Saramago queria escrever desde há alguns anos e que, finalmente, concluiu com mão sábia e ligeira. Um livro que apaixona e que foi considerado pela crítica portuguesa uma obra-prima, comparável às maiores de Saramago. Um livro que prenderá o leitor e alargará o universo dos saramaguianos.   Uma discreta celebração Saramago já tem 86 anos. Completou-os ontem em Lisboa, com amigos. De todo o mundo chegaram felicitações, por e-mail receberam-se apresentações magníficas e muitos bons votos, telefonemas de vári...

O Martírio de Joana D'Arc, de Carl Theodor Dreyer

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A atuação de Maria Falconetti, como mártir, é considerada uma das melhores do cinema O cinema do dinamarquês Carl Theodor Dreyer é um dos mais singulares, inimitável e de difícil definição em razão dos vários procedimentos que ele toma para cada filme, planejando para cada trabalho um desenho de cena, um enquadramento e uma abordagem específicos, em obras menos ou mais narrativas. Ele tinha, também, um processo criativo que desprezava as regras da produção cinematográfica, fazendo o seu próprio tempo de planejamento e preparação para um longa, uma dor de cabeça para os produtores - o que muito explica as várias interrupções em sua filmografia. Apesar de ele enxergar os artistas como iluminados, até sagrados, os atores sofriam o diabo em suas mãos, numa espécie de lavagem cerebral que os fazia assumir completamente a persona do personagem. Para a atriz Maria Falconetti, que encarna a santa guerreira de O Martírio de Joana D'Arc , esse foi um divisou de águas. Perturbada com ...