Dez poemas de Saigyo
Por Pedro Belo Clara

I.
em que momento
do longo sono da vida
poderei acordar deste sonho
espantado
pela verdade?
II.
como poderia passar a minha vida
sem saber o que ela é —
um caminho
que leva inevitavelmente
à morte?
III.
há muito tempo
que enviei o meu coração
para as profundezas das montanhas
e ainda assim este corpo
demora-se no mundo flutuante
IV.
jamais tingiria o meu coração
com a pura cor
da lua
se não deixasse
a capital para trás
V.
como me alegro
quão oportuno
este nevão
escondendo o meu trilho na montanha
quando queria estar só!
VI.
um só pinheiro
a crescer entre os vales —
e pensava
ser o único
sem um amigo
VII.
contemplando-as
tornei-me tão íntimo
destas flores
que ao desprenderem-se dos ramos
sou eu quem cai… em tristeza
VIII.
esta primavera vou ficar
junto à minha sebe rústica
farei amizade
com as pessoas que chegarem
em busca do perfume da flor da ameixeira
IX.
sozinho, olhei
a glória da manhã
consciente
que nessa breve flor
pousava um orvalho ainda mais breve
X.
vive os teus longos anos
pinheiro, e reza por mim
na minha existência vindoura
eu que não terei ninguém
para lamentar a minha morte
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Se por ventura alguém se arriscasse a elaborar uma lista onde figurassem, por antiguidade e importância, os mais celebrados poetas-eremitas que o mundo conheceu, decerto que o japonês Saigyo teria o seu nome escrito no rol, logo após Han Shan, o mítico poeta da Montanha Fria.
Nascido Sato Norikiyo, em Quioto, no ano de 1118, numa família com ligações indirectas aos Fujiwara, o mais poderoso clã do seu tempo, viveu uma infância e juventude típicas duma condição quase nobre. O período da sua vida, porém, marcava-se pela agitação: substanciais mudanças sociais e culturais num país que vivia a queda da nobreza das antigas cortes — substituída pelo novo regime samurai.
Ainda jovem, serviu na famosa Guarda de Hokumen, no palácio do já reformado imperador Toba. Dava os seus primeiros passos num caminho que prometia prestígio e fama, mas o futuro poeta decide abandonar o mundo dos homens, rapar o seu cabelo e professar os votos budistas. Tinha apenas vinte e dois anos.
Não existe uma razão clara a sustentar essa decisão, facilmente considerada drástica, até porque os registos biográficos são escassos, mas uma leitura atenta da sua poesia deixa adivinhar que a escolha não fora assim tão súbita quanto se pensará. Contudo, é uma opção curiosa, dado que se vivia a era Mappo, ou seja, a era da degeneração da lei budista. (Esclareça-se que, no seio desta religião, vive a crença que o interesse pelos ensinamentos de Buda é cíclico, tal como o mundo o é, em que fases de grande adesão vêem-se sucedidas por outras de completo afastamento.)
Mesmo assim, o jovem Norikiyo decidiu-se por uma vida despojada e de busca pela iluminação de si mesmo, de acordo com os preceitos budistas. O novo capítulo da sua existência firma-se com a adopção do nome En’i.
Mais tarde, no desenrolar duma vida errante, começa por assinar com o nome que o celebrizou: Saigyo, significando algo como “Jornada Rumo ao Ocidente”, uma referência ao Buda Amida e ao Paraíso Ocidental.
Permaneceu em isolamento por largos períodos da sua vida, em locais como Saga ou os Montes Koya e Yoshino (onde se maravilhava com as cerejeiras em flor), mas maior fama alcançaram, ainda que postumamente, as diversas peregrinações, existenciais e poéticas, que realizou à ilha de Honshu. Foram essas viagens que inspirariam Bashô, o mestre do haiku, a ir no seu encalço com séculos de distância. A experiência daria origem ao célebre livro O Caminho Estreito Rumo ao Norte Profundo. Bashô foi um confesso admirador do poeta e do homem, citando-o várias vezes nos seus poemas.
É provável, mas não totalmente certo, que Saigyo tenha ainda em vida reunido a sua obra num só volume, o Sankashu, ou “Colectânea duma Casa de Montanha”. Oferece mais de mil e quinhentos poemas e terá começado a circular em 1180, mas o poeta viveu, sensivelmente, mais dez anos para lá dessa data. Assim, ficamos com algumas perguntas no colo: onde estão os poemas da recta final da sua vida? Será que o próprio Saigyo decidiu encerrar toda a obra poética nessa data, com a certeza de ter composto tudo o que desejaria criar?
Por volta do seu septuagésimo-segundo ano de vida, faleceu no templo de Hirokawa, na actual província de Osaca.
Saigyo é, em termos formais, um poeta do seu tempo. Das diferentes formas da poesia clássica, a waka, exprimia-se pela predominante, que era a mais curta das formas: o tanka — trinta e uma sílabas distribuídas do seguinte modo: 5-7-5-7-7.
Saigyo vai ao encontro dos preceitos duma nova poesia, que ficará reunida no Shin Kokin, a oitava colectânea imperial de poesia waka. Já num movimento de rutura com os trabalhos expostos no volume antecedente, assume-se uma poesia mais objectiva, que descarta certos artífices literários (jogo de palavras, por exemplo), de ritmo mais quebrado, com maior uso de substantivos e mais próxima da fala comum. Nesta movimentação, que pode comportar algum despojo, introduziram-se matizes mais melancólicas e sorumbáticas — fruto, também, da própria época vivida, como antes se explicou.
O poeta Saigyo segue muito uma linha que os japoneses designam de mono no aware, ou seja, o lamento pela mudança. Apesar de ter abraçado com todo o ser a filosofia budista, a sua poesia denuncia a dor que ainda lhe causava a efemeridade de tudo, a breve passagem das coisas que animam o mundo — e, em consequência, o seu apego a elas, dado amá-las tanto.
Assistimos assim a uma poesia de tensão e conflito: num lado, o monge asceta que deseja renegar o mundo, mergulhar fundo em si, resgatar a luz que o habita, ainda oculta nas lamas da personalidade; no outro, o mero mortal que é alvo das sombras de incontáveis pensamentos e emoções, a inevitabilidade da morte física, a inconstância das coisas mundanas. Todos estes aspectos são enriquecidos com expressões de solidão, isolamento e melancolia — podendo em vários momentos revelar-se uma poesia intimista e confessional.
Apesar de desejar seguir a via dum monge errante, que pode sem grande entrave entender-se como um impulso pela procura da verdade das coisas, a poesia de Saigyo é deliciosamente humana; não a obra dum iluminado que transcendeu a embriaguez dos sentidos e a ilusão da existência física, mas dum simples monge que não consegue “matar” a sua sensibilidade, a fragilidade do seu coração — um homem frugal ainda em busca da estrela mais cintilante.
* Seleção de a partir das versões de Arnaldo Vila Pouca em Lua do Coração (Flâneur, maio de 2025)
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