Coriolano: de apátrida maldito à mártir radical

Por Juliano Pedro Siqueira 


Oh mãe! Salvastes a pátria, mas perdestes o filho.


Franz Anton Maulbertsch. Coriolano nos portões de Roma. (c. 1795)



A dramaturgia de William Shakespeare tem um lugar de destaque no cânone da literatura mundial. Seja por sua magnitude trágica ou por seu aspecto humanístico, cujo efeito atingiu esferas atemporais. A atualidade dos seus textos, combinada com seu estilo de escrita profícuo, é tão impressionante que pode levar alguns a questionar sua existência. Isso quando não creditam sua vasta obra a eruditos anônimos, dada a imensidão de sua produção literária.

Coriolano está longe de ser a peça célebre de Shakespeare. Provavelmente é a menos conhecida do público geral. Mesmo concorrendo por fora entre Macbeth e Hamlet, essa tragédia aborda as consequências nefastas de um poder que transita entre orgulho e sacrifício. Mas não apenas! Também se destaca pelas relações estreitas entre poder político e plebe; como se desencadeava as traições nos bastidores das instituições representativas do poder, que vale lembrar, continuam atuais no nosso tempo.

Após uma intensa batalha contra Aufídio, líder dos Volscos, próximo ao portal de Coríolo, Márcio consegue repelir o adversário e assegurar a vitória sobre ele. Em seguida, recebe a honra de ser chamado de Coriolano. Apesar de demonstrar lealdade à nação, inimigos invejosos conspiram para sua queda perante o povo que um dia o aplaudiu, mas que em breve se oporá às suas ambições políticas.

Bruto e Sicínio, dois manipuladores políticos, competem para impedir que Coriolano se torne cônsul; para isso, incitam e convencem o povo a se rebelar. As paixões destacam-se e influenciam as ações no jogo político, mostrando como a natureza humana reage quando se sente injustiçada. Justiça e vingança compartilham os dois lados da mesma espada, marcando, em ambas as feridas, a divisão entre glória e vergonha.

Acusado de arrogante perante o povo, Coriolano hostiliza a figura da plebe, do homem que não pertence à linhagem nobre. O que parece ser um mero ato preconceituoso, Shakespeare desvela a obsessiva insegurança e fragilidade do líder romano, como se o seu nome estivesse a todo instante ameaçado por conspirações populares. 

Vendo Coriolano a necessidade de se submeter ao voto dos cidadãos para atingir o consulado, trava uma batalha particular contra o próprio medo e orgulho. Mesmo sabendo que os votos dos plebeus seriam decisivos para galgar o posto almejado, tenta resistir de todas formas, ao que era inevitável. Assombrado por temores e presságios, Márcio Caio viu as suas pretensões políticas ruírem, quando Bruto e Sicínio combinaram junto ao povo, o golpe da traição.

Agora, amaldiçoado, resta a Coriolano reunir forças no exílio que o aguarda. O guerreiro romano sempre nutriu uma visão superestimada de si mesmo. Ostentando as cicatrizes que carrega no corpo, oriundas das batalhas campais, toma-as como prova incontestável da sua lealdade e Shakespeare expõe a demagogia do herói, cuja jactância não foi suficiente para evitar a sua queda. Percebe-se, que os sacrifícios de Márcio nos campos de batalha não são em nome do povo, mas para o deleite da elite política que o apoia, como das mulheres (mãe e esposa) que corroboram com o tipo de imagem autodestrutiva.

O incipiente heroísmo de Márcio Coriolano não surge da moderação das paixões; antes, se alimenta do pecado da soberba, desprezando muitos dos seus conterrâneos, como se fossem criaturas estranhas à nação, sem relevância social ou política. Para ele, o povo não deveria possuir voz democrática, muito menos participar ativamente dos desígnios dos nobres. E é sentindo-se injustiçado e humilhado que abandona a figura do herói arrogante, para assumir o papel de herói vingativo. 

Na verdade, o seu anti-heroísmo alimenta-se das paixões da alma, do menosprezo das virtudes. Ele fundamenta o seu heroísmo forjado nos flancos e nas cicatrizes corporais, como as chagas de um mártir enquanto é incapaz, através de um exercício de consciência, reconhecer a sua postura mesquinha. Será preciso rebaixá-lo ao exílio para que floresça o seu amadurecimento moral.

Destronado e exilado, Coriolano experimenta a terrível derrota pessoal e vai beber do cálice da vingança, ofertado pelos inimigos de Roma. O vingativo Márcio tenta trair o próprio coração, ignorando a sua história, a devoção pela nação e o amor às suas mulheres; alinha-se aos volscos e tenta uma investida letal contra a Roma que um dia lhe deu vida e glória. A ambígua presença do herói e anti-herói em Coriolano, encarna o ápice do trágico, numa espécie de sacrifício radical; após se despir das vestes do orgulho, torna-se o mártir da nação que o expulsou.

Shakespeare vira o jogo da cena. O herói presunçoso, que não conhecia derrotas, cede espaço à vergonha até atingir a compreensão do verdadeiro sacrifício. Mas como reparação ao orgulho que abraçou, não é poupado do desfecho trágico. Em meio a catástrofe do exílio, Coriolano é investido de consciência moral. Ele abandona a visão apequenada de governo guiado pelo egoísmo, para atingir níveis superiores de virtudes em forma de sacrifício radical.

Coriolano se convence da dívida eterna com a sua nação, sendo impossível devolver na mesma medida, a traição que sofreu. A fidelidade quase socrática de Caio Márcio, retoma o tipo mártir patriota que nunca se levanta contra as suas origens, pois, enxerga no Estado e nas leis existentes, o grande provedor da sua existência — mesmo que para garantir a glória da nação (e não mais a sua), tenha que deixar órfãos, seus admiradores.


Referências

SHAKESPEARE, William. Coriolano. Tradução de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Ediouro, 1983. Coleção Universidade. 

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