Sem despedidas, de Han Kang
Por Sérgio Linard

Quando foi informada de que havia sido escolhida como vencedora do Nobel de literatura em 2024, Han Kang disse que seu maior objetivo para o momento seria a conclusão do novo romance no qual trabalhava há um tempo. Esta obra é Sem despedidas e falo dela aqui. Embora a autora defenda que o prêmio não acelerou a publicação do romance, o sentimento que se tem durante a leitura é justamente o contrário, o inacabamento do texto ou da ausência de uma lapidação maior e melhor do material literário. Um triste acontecimento que surpreende negativamente, porque um dos maiores elogios a serem feitos para a obra de Kang é o do minucioso cuidado com os detalhes de seus textos, algo visto em Atos humanos e elevado à excelência em A vegetariana.
Com Atos humanos, a ideia de revisitar grandes e chocantes acontecimentos da sociedade coreana e utilizar esse processo como forma de ampliação da contação de traumas pessoais e coletivos começa a ser um espaço comum que a autora ocupa na construção de suas histórias. E desde seu Livro branco, a autora sinaliza aos leitores uma perspectiva de construção histórica de uma forma semi-experimental; aqui, a ideia parece estar mais próxima de uma chamada para a contemplação do caos do que necessariamente de um enredo. Trata-se de retalhos, de pulsações e de imagens que constroem este caos branco para o leitor. Já em Sem despedidas a ideia central de se retornar para a brancura da neve como uma quase persona ou como símile de um todo gélido e melancólico é levada ao extremo e perpassa toda a narrativa, de modo que não há uma página sem que algo relacionado ao campo semântico do frio deixe de ser mencionado.
E “fria” talvez seja a palavra que melhor adjetive a experiência de leitura de Sem despedidas. Inclusive, resumir a história que lemos para esta resenha é uma tarefa consideravelmente difícil, pois aqui nos deparemos com uma quantidade razoável de acontecimentos que são intercalados por flashbacks, fluxos de consciência, mas uma consciência em devaneios, e a história principal que tem seu ápice quando ainda restam pouco mais de cem páginas do romance. São efeitos e técnicas de narração que evocam uma seriedade, inclusive pela aura interna do romance, mas que por apresentarem um acabamento frágil tornam-se maçantes.
O que se tem como certo na história encontra-se na primeira das três partes “Pássaro” — e esta é, sem dúvidas, a melhor seção da narrativa; a protagonista viaja até a casa da amiga que se encontra hospitalizada mediante um acidente confuso para tentar salvar a vida de um papagaio de estimação. Há, neste primeiro momento, uma grande sequência de monólogos e de fluxos de consciência em que a neve é, como mencionei, como se um personagem fosse. Depois disso, a escuridão em “Noite” e o calor em “Chama” dão indícios de que serão elementos explorados, mas não passam disso; há a expectativa criada pelos próprios títulos de que estes elementos serão alçados à mesma metonímia que a neve ocupou, mas acabam eclipsados por este elemento que ganhou uma força maior do que deveria. Parece-me que ocorreu em Sem despedidas o mesmo que Antonio Candido anuncia ter se manifestado em algumas obras de Álvares de Azevedo: “[...] o desejo de desrespeitar as normas estéticas tradicionais levou à desorganização do texto” (Candido, 2023, p. 14).
Mas há pontos positivos na obra. Dentre eles se destaca a lírica com que escreve Han Kang e que já é algo dominante em todos os seus textos de que temos conhecimento. A poeticidade é construída com muita naturalidade, comprovando tratar-se de um projeto literário que se faz assim de modo proposital e não como uma fuga para a falta de domínio das exigências prosaicas, fartamente ignoradas nas tendências autobiográficas da literatura contemporânea.
Além disso, como já anunciei acima, a primeira parte que envolve o resgate do papagaio apresenta uma leitura que consegue combinar bem os discursos psicológicos, a exploração da neve como um personagem, a dúvida sobre si e sobre as amizades que a circundam. Nesta parte, o peso da neve que cai traz ao chão o véu que separa os pensamentos mais profundos dos sentimentos superficialmente expressos. É este mesmo elemento, ainda, o responsável pelo bom sentimento de tensão que o leitor encara ao perceber-se diante da possibilidade de que aquela protagonista não consiga superar todos os percalços impostos pela neve. Em certo ponto, lemos:
Vim para morrer, penso em meio à febre.
Vim até aqui para morrer.
Vim para ser cortada e perfurada, estrangulada e queimada. Vim para esta casa que vai desmoronar enquanto expele as chamas.
Vim para ficar ao lado das toras deitadas, umas sobre as outras, como se fossem partes fragmentadas do corpo de um gigante. (Kang, 2025, p.143, grifos da autora)
A jornada desta heroína em busca de salvar o pássaro é uma decisão que demonstra pouco ajuste com a realidade em uma caminhada contínua que sinalizaria, dentro de sua conclusão, uma espécie de redenção para aquela mulher. Em sua trajetória, o reencontro consigo no deserto de gelo é o grande alvo percebido, indiretamente, por seus enredos psicológicos. No mundo real e concreto que se expõe diante dela, não há racionalidade em optar por enfrentar tão severo inverno, sozinha, a pé, colocando sua vida em risco para tentar resgatar uma outra. Os momentos de racionalidade surgem em situações como estas retratadas acima quando a febre, metodicamente gerada pelo fogo em um espaço de frio, acorda-a do entorpecimento gélido.
Uma dualidade que se constrói entre gelo e fogo, sendo o frio o condutor dos pensamentos sombrios e as chamas os convites para retorno ao real em que o imaginário é conscientemente questionado. A existência destes dois polos é, pois, ponto de elogio para Sem despedidas, mas o desequilíbrio na construção de um deles torna a fazer com que a leitura ganhe muita lentidão. Não que eu defenda que leituras precisam ter alguma velocidade padrão. Mas no caso deste romance especificamente, a lentidão se manifesta por diversas interrupções na superfície textual que não se conjugam nem como cena para o todo nem como contemplação simbólica daquilo que está disposto no texto. É como se precisássemos parar diante de um semáforo a cada esquina, sem haver quaisquer tipos de trânsitos. Uma pausa que, retomando a ideia de Candido, parece querer consolidar um projeto literário compromissado com fatos históricos, mas que ao fim e ao cabo deixam a narrativa desorganizada.
Assim, Sem despedidas apresenta-se como uma leitura esquecível e facilmente capaz de ser abandonada. O título, que faz menção aos episódios da vida em que dizemos “tchau” sem saber que se tratava, na verdade, de um “adeus”, sinaliza o apego melancólico das derrotas e das perdas, mas aqui a corda foi muito puxada. Quem conhecer a obra de Kang a partir de seu mais recente romance, certamente questionará a validade do prêmio oferecido pela academia sueca. A quem ainda não teve contato com obras da autora, recomendo que visite, nesta ordem: A vegetariana, Atos Humanos, Lições de grego¹. O Livro branco e Sem despedidas podem ser evitados. Infelizmente.
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Sem despedidas
Han Kang
Han Kang
Natália T. M. Okabayashi (Trad.)
Todavia, 2024
Todavia, 2024
272 p.
Notas
1 Ainda inédito no Brasil; há uma versão em língua portuguesa publicada na Europa apenas.
Referências
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. São Paulo: Todavia, 2023.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. São Paulo: Todavia, 2023.
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