Tradição e busca por liberdade em On The Road, de Jack Kerouac

Por Vinicius de Silva e Souza


Jack Kerouac Foto: Jerry Bauer



Durante quase todo o mês de abril de 1951, aos 29 anos de idade, Jack Kerouac escreveu seu mais famoso livro. Tratado por muitos como uma obra canônica, lendária, “bíblia da geração beat”, como aponta a L&PM Editores, responsável pela obra do autor e dos seus pares no Brasil, mais como jogada de marketing do que constatação da realidade. Tantos anos depois da publicação, a leitura de On The Road é cercada de polêmicas. Diante das inevitáveis mudanças culturais, ainda mais no atual milênio, fica difícil entender alguns aspectos do romance, mas também, talvez até em mesma medida, acredito que certo apelo ainda resiste e é totalmente compreensível.

Fui pego de surpresa ao ver notas e reviews tão negativas no Goodreads. Avaliações essas que se repetem no Reddit, evidenciando um sentimento generalizado: On The Road é o espírito de seu tempo — mas apenas isso. Uma crítica na Amazon diz, em determinado momento: “A única coisa que eu consegui pensar durante a leitura foi: vão arranjar um emprego!!” No entanto, entrando em um âmbito pessoal, não consigo não me sentir minimamente seduzido pelas desventuras de jovens cruzando os Estados Unidos sem nenhuma preocupação, apenas em busca de “algo a mais na vida”. Pela simples, pura e bela experiência. Mesmo muito diferente, o mundo hoje não é radical ou totalmente distinto daquele em que Kerouac viveu: o mesmo capitalismo aflige, as mesmas palavras (carreira, profissão, matrimônio, hipoteca, materialismo, normas sociais) assombram jovens que se arriscam a olhar para além disso. Romper com a norma nunca foi (e nunca será) algo não-sedutor: pois é um feeling que habita todos nós (pelo menos, para a maioria, até certa idade). 

Fora isso, há também um profundo diálogo do romance com o tempo atual através do que se pode chamar de “leitura da experiência”: nos anos vinte do século XXI, ler a experiência do outro, pessoal, relatada, crua, está na moda. E não só agora. Exemplos não nos faltam. Dos possíveis precursores de  Kerouac — Walden, de Henry David Thoreau — passando por Na natureza selvagem, de John Krakauer, e os sucessos de Edouard Louis com seus relatos autobiográficos ou de Tamara Klink e seus périplos oceânicos, todas essas obras despertam interesse por, entre outros aspectos, passarem pela mesma via, a da experiência que queremos para nós vivida pelo outro. A coragem de ir ao limite e de admitir renúncias. 

Não surge do nada a busca de nosso herói — e nem propriamente a estrada é o cerne da narrativa. As primeiras páginas de On The Road, suas primeiras linhas, na verdade, já nos trazem o elemento cerne da narrativa — ou elemento cerne do cerne da narrativa:  “Encontrei Dean pela primeira vez não muito depois que minha mulher e eu nos separamos.”

Não é de repente que Sal Paradise, nosso herói, alter-ego do próprio autor, se aventura pelas estradas de seu país e da libertinagem. Havia uma chama por algo a mais, mas isso é, arrisco-me dizer, personificado e impulsionado por Dean Moriarty. É sua entrada em cena a ignição para que tudo gire e se inicie. E poderia surgir apenas como o start da principal engrenagem da narrativa, mas não: Dean surge, some, mas ressurge constantemente, “atraindo” Sal para a vida na estrada com seu magnetismo do qual o protagonista não consegue se desvencilhar, pois, ao contrário do que o título dá a entender, não são literalmente todos os momentos de On The Road que ocorrem on the road: há pequenas, mas constantes, quebras da vida “vagal” dos personagens, momentos de respiro, que aparecem, na maioria das vezes, entre os capítulos, onde Sal, majoritariamente, para, trabalha, junta um dinheiro, para só depois poder voltar à estrada. Entende-se, então, que o que o romance aborda é: o início de uma série de viagens de Sal, com (por vezes sem também) Dean; e que, em algum momento, (pressupõe-se), elas se encerrarão: em algo, de alguma forma.



A estrada começa no verão de 1947 para se encerrar na primavera de 1950, compreendendo então três anos de breves períodos de calma entre longas e intensas viagens, de Nova York para Carolina do Norte, Nova Orleans, passando por Denver, São Francisco, Washington, Los Angeles, antes da ultimate viagem, onde acreditam (Sal e Dean) experimentiar ao máximo o que buscam: a Cidade do México. Por tantos lugares diferentes, seria natural esperar algo nos moldes de Viagens da minha terra: precisas descrições paisagísticas e/ ou culturais das cidades por onde passa, das estradas pelas quais transita o herói. Mas não: Kerouac pouco nos fornece desses locais e muito se deve a sua escolha de prosa. 

Ao adotar uma narrativa extremamente fluída, em um jorro alucinado, extremamente próximo do relato pessoal, oral, mas também colado ao gênero diário, aqui, muito é ação e pouco é descrição. É voluntária essa configuração prosaica, é claro, e dotada de grande valor. Aproximá-la da música, principalmente do jazz, é um feito e tanto, e o jorro livre, sem pausa para revisão, é a mais pura extração do que há por dentro. Kerouac intencionalmente sangra na página e isso tem seu valor, principalmente nas passagens em que faz profundas reflexões nos momentos mais inesperados, sem aviso prévio, precisamente como ocorre no fluxo de nossa consciência. Mas, se por um lado essa escolha, novamente, possui seu valor, a ausência de um fio narrativo próprio, comum, não poucas vezes afasta leitores desavisados e mais tradicionais (acredito que desde a publicação do romance até os dias atuais). 

Fora isso, nessa escrita jorrada, escorre também diversas ideias datadas (como visões machistas sobre mulheres e levianas sobre negros) e superficiais sobre os personagens que apenas surgem e somem em um piscar de olhos, sem qualquer aprofundamento — por vezes, sem qualquer fala. Mesmo Sal, em essência, é pouco dissecado: cabe a ele, apenas, discorrer sobre o que e quem vê e vive. Pode-se lê-lo então, e a Kerouac também, como alguém que apenas passa pelo mundo, e não o observa. A estrada não é paisagem, é passagem. 

“Eu estava na metade da América, meio caminho andado entre o Leste da minha mocidade e o Oeste de meus sonhos futuristas.”

A princípio, Sal desloca-se sozinho, pegando caronas, mas grande parte das suas desventuras ocorrem com seus amigos Carlo Marx, Old Bull-Lee, algumas garotas como Terry e Marilou, mas principalmente, Dean. Caótico, eufórico, Dean facilmente atrai Sal, na mesma medida em que provoca aversão ao leitor contemporâneo — é um alívio vermos os próprios personagens, na narrativa, reconhecê-lo como “tóxico” por suas atitudes. E um terror quando Sal defende o amigo por diversas vezes — e só se opõe a ele quando vive, na pele, o que todas as mulheres com quem Dean se envolveu viveram. 

O evento chave na relação dos dois (o abandono de Sal, doente, no México, por parte de Dean) muda nosso narrador: ao reencontrar o amigo, as coisas não são como eram. Em uma bela representação de amizades que se afastam, passagem do tempo e amadurecimento, Sal, aparentemente, deixa Dean. Exceto pelas linhas finais da obra:

“[...] na América, quando o sol se põe e eu me sento no velho píer decadente do rio, observando o céu imenso sobre Nova Jersey e sentindo toda aquela terra bruta que se estende numa protuberância inacreditável até a Costa Oeste, e todas aquelas estradas, todas as pessoas sonhando na imensidão daquilo, e em Iowa eu sei que a essa altura as crianças já devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorarem [...] e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer com ninguém além dos trapos desolados do envelhecimento, eu penso em Dean Moriarty, eu até penso no velho Dean Moriarty, o pai que nunca encontramos, eu penso em Dean Moriarty.”

Sal/ Kerouac inicia o relato com Dean, encerra com ele. A estrada teve seu início e seu fim. Ele já não é mais o mesmo e saudade ainda existe, do que viveu com o amigo, convivendo com o entendimento de que as coisas não são mais como eram. 

“—Sal, nós precisamos ir e não parar até chegarmos lá.
—Lá aonde, cara?
—Eu não sei, mas precisamos ir.”

Li o romance no original, no Kindle, mas admiro a edição de bolso da L&PM: vejo esse romance como um livro a ser lido e relido e relido e principalmente, para se ler viajando. Perfeito que exista no Brasil como edição de bolso: para se pôr no casaco, entre ônibus, carro e avião e lê-lo exatamente como Kerouac o escreveu.

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