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Penelope Fitzgerald: a escrita interior

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Por Pilar Adón Há muitas histórias da vida de Penelope Fitzgerald que parecem nos encorajar, inspirar, fazer com que vejamos que tudo pode acontecer se persistirmos e que nunca é tarde para começar. Somos fascinados por seu estilo, sua maneira de dizer tantas coisas e transmitir tantas emoções quando parece que ela quase não conta nada, mas também somos atraídos por sua biografia, esse compromisso e essa tenacidade literária que às vezes parecem derivar de uma teimosia saudável; somos seduzidos por sua erudição e tranquilidade, esse tipo de impassibilidade (diríamos oriental) que talvez constituiu uma das razões para adiar por tantos anos uma escrita que deveria ter começado antes. Entre outras coisas, porque tudo apontava que começaria mais cedo. Tudo parecia pronto, organizado e preparado para que a Srta. Penelope Knox escrevesse assim que saísse da universidade, tivesse sucesso e fosse uma das escritoras mais destacadas de sua geração. Mas, ...

Boletim Letras 360º #342

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Não tardará chegar nossa próxima promoção; os leitores que acompanham o blog no Instagram já estão avisados que em breve sairá um sorteio nessa rede social. E será com um clássico de Virginia Woolf. Bom, quem passar por aqui e dedicar alguma atenção a este Boletim, também está avisado. No mais, vejam a seguir as notícias que passaram pela semana em nossa página no Facebook e, dessa vez, o BO Letras 360º está completo, com dicas de leitura, vídeos, versos e outras prosas e baú de letras. Boas leituras! A Companhia das Letras reedita clássico que deu a conhecer a literatura de Toni Morrison. Segunda-feira, 2 de setembro A Companhia das Letras apresenta nova edição de O olho mais azul , de Toni Morrison . Romance de estreia da autora estadunidense, O olho mais azul  narra a história de Pecola Breedlove, menina negra que sonha ter olhos azuis numa época em que o modelo de beleza é o da atriz branca Shirley Temple. A trajetória de Pecola culmina na devastação: aos ...

Um rival de Flaubert

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Por Rafael Pérez Gay Durante muito tempo, o escritor francês Ernest Feydeau (1821-1873) foi para mim um mistério separado de uma admiração. O mistério era constituído por um escritor desaparecido no gosto do público com a passagem dos anos e pela admiração, é claro, pela obra de Gustave Flaubert. Esse enigma sempre começava com um fato transcendente: Madame Bovary vendeu 29 mil cópias durante os primeiros cinco anos de venda, enquanto o escritor agora desconhecido, Feydeau, alcançou um sucesso ainda maior com um romance, Fanny , que contava os relacionamentos de uma mulher casada com um homem mais jovem e isso, como o Bovary , foi um escândalo. Mas isso não era tudo, esse romance da vida de Flaubert estava além da venda de livros, da aceitação crítica e do falso ruído da imprensa literária: esses dois escritores eram amigos, trocavam cartas onde se confessavam sobre as dúvidas corriqueiras e essenciais de sua existência. Eles também compartilharam o a...

Os anos, de Annie Ernaux

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Por Pedro Fernandes Annie Ernaux. Foto: Ed Alcock Annie Ernaux será sempre lembrada como a escritora da universalização do eu ou a figura que inaugurou, se não pelo concepção, pela prática literária, a compreensão segundo a qual somos um produto moldado pela exterioridade do mundo: a história, a cultura, a economia, a política, a ideologia participam ativamente do que somos e justifica porque somos. O alcance disso se dá pela sua literatura. Os anos , por exemplo, se constituem de, e podem ser descritos assim, um conjunto de reminiscências que evocam desde suas raízes familiares mais próximas até alcançar o presente, o tempo da narradora. Além da universalização do sujeito da enunciação, a escritora privilegia um tempo eterno , o presente. Mas, apesar de todas as inovações narrativas, digamos assim, esta não é uma obra cujo interesse é se filiar no acalorado debate (patente sobretudo nos estudos literários) acerca da condição conceitual de um termo de um todo proble...

O morto atrasado para o enterro: sobre um conto de Sigismund Krzyzanowski

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Por Joaquim Serra “É sempre a mesma coisa: primeiro você visita os amigos, depois – quando os cortejos fúnebres os levam – você visita seus túmulos.” É assim que o narrador de “A décima terceira categoria da razão” começa sua história. E é em uma das visitas do narrador ao cemitério que ele encontra um velho coveiro a quem dará voz. Mais a frente, explica ele que o tal coveiro já não pertencia a nenhuma das doze categorias da razão de Kant, mas sim à décima terceira, “uma espécie de alpendre lógico, mais ou menos apoiado no pensamento objetivamente obrigatório.” Para conquistar o acesso à tal categoria, o narrador dá ao velho um cigarro que o faz soltar a língua explicando as diversas pousadas para os mortos. Quando fala do canto dos oradores o coveiro começa a confirmar aquilo que dizem sobre ele: “os oradores, é sabido, assim que escurece, começam a falar todos ao mesmo tempo. Às vezes você passa perto do canto deles e escuta uns cochichos de dentro da terra. É melhor...