Uma palavra para o Mal
Por Davi Lopes Villaça

No novo Nosferatu (2024), de Robert Eggers, o advogado Thomas Hutter está atravessando o interior de uma bárbara Transilvânia, a caminho do castelo do Conde Orlok, quando, numa noite, depara-se com uma cena sinistra e inexplicável: um grupo de camponeses, guiados por uma jovem nua montada num cavalo, exuma um cadáver e lhe crava uma estaca no peito. Mais tarde, no castelo, ao tocar no assunto com seu sinistro anfitrião, Thomas escuta-o dizer: “Temo que ainda haja por aqui muitas superstições que podem parecer antiquadas para um jovem com seu alto nível de instrução. Estou ansioso para me mudar para sua cidade de mentalidade moderna, que não conhece nem acredita nesses contos de fadas mórbidos”.
Não podemos ver o rosto do vilão, mas é como se ele piscasse para a câmera. A ironia é clara: o poder de Orlok, o grande bruxo vampiro, é maior lá onde nada se sabe nem de vampiros, nem de bruxaria, nem de muitas outras coisas. O filme recupera a velha crítica ao iluminismo do século XVIII e ao cientificismo do século XIX, que, prometendo libertar a humanidade da escuridão, lançaram na obscuridade muito da antiga sabedoria humana. Como sentencia a personagem do professor Albin Eberhart, estudioso do Oculto: “A ciência não nos iluminou tanto quanto nos cegou com sua luz gasosa”.
Assistindo ao filme, lembrei-me do romance O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov, em que Satanás faz uma visita à Moscou dos anos 1930, muito satisfeito de descobrir que na jovem URSS já não se acredita em Deus (ou no Diabo). Que podem as desprevenidas crias do Materialismo Histórico contra poderes cuja existência elas teimam em não reconhecer? Na verdade, no romance, a Razão que ordena a sociedade stalinista é uma luz tão opressiva que a magia negra de Woland e seu séquito diabólico não poderia deixar de exercer uma função redentora.
Dentre os autores russos, foi provavelmente Dostoiévski quem satirizou os limites do racionalismo moderno da forma mais contundente. Os leitores devem se lembrar da cena em Os Irmãos Karamázov (1880) em que Ivan, tomado de febre, trava um diálogo com Satanás, que tenta convencê-lo de que ele não passa de uma alucinação. O que o Diabo quer é mesmo que se creia que ele não existe, que o Mal não passa de uma ilusão — para que ele possa, assim, melhor cumprir seus desígnios maléficos.
Essa ideia já estava de algum modo presente em Memórias do subsolo (1864), mas foi abordada de modo tão elusivo que muitos não atentaram à ironia do autor.
Na novela, o herói-narrador é, como ele se define, um “homem culto do século XIX”, que confessa seu ceticismo com relação às perspectivas civilizatórias de seu tempo. A personagem trava uma polêmica velada com o filósofo e romancista Nikolai Tchernichévski, o grande mentor da juventude socialista da década de 1860. Esse autor apregoava, sob a influência de teorias positivistas e utilitaristas, que o homem só pratica o mal por ignorância do bem — que a humanidade só causa dano a si mesma por desconhecimento das suas verdadeiras “vantagens”. Bastaria então esclarecer as pessoas sobre seus reais “interesses” para que elas passassem a agir de maneira sensata (o que, na visão de Tchernichévski, queria dizer em colaboração umas com as outras, para a construção do socialismo). Dostoiévski rebate tais ideias com a seguinte reflexão de seu narrador:
“Digam-me o seguinte: por que me acontecia, como se fosse de propósito, naqueles momentos — sim, exatamente naqueles momentos em que eu era capaz de melhor apreciar todas as sutilezas do ‘belo e do sublime’, como outrora se dizia entre nós —, por que me acontecia não apenas conceber, mas realizar atos tão feios, atos que… bem, numa palavra, atos como os que todos talvez cometam, mas que, como se fosse de propósito, me ocorriam exatamente nos momentos em que eu mais nitidamente percebia que de modo algum devia cometê-los? Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo o que é ‘belo e sublime’, tanto mais me afundava em meu lodo, e tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo”. (Dostoiévski, 2009, p.19)
Ou seja, o homem do subsolo praticava o mal não por ignorância do bem, muito pelo contrário: quanto maior o seu conhecimento do bom e do belo, maior a sua atração pelo “lodo”. Uma disposição que Dostoiévski atribuía, é claro, não apenas a seu anti-herói, mas a toda a humanidade, como se esta fosse em alguma medida atraída pela ideia de sua própria decadência e de sua própria destruição.
Alguns dos primeiros intérpretes dostoievskianos viram em passagens como esta o sinal de uma terrível descoberta por parte do autor. Como se ele, que na juventude fora adepto de certa forma de socialismo utópico, tivesse enfim se apercebido do caráter perverso do ser humano, pondo-se agora, na confissão do homem do subsolo, a abjurar seus antigos ideais de harmonia social. Hoje sabemos que essa leitura não se sustenta. Embora a visão de mundo de Dostoiévski tenha de fato passado por radicais alterações em sua trajetória, ele nunca foi algum ingênuo defensor de ideais cor-de-rosa, muito menos alguém que ignorasse a dimensão sombria da alma humana, como é fácil verificar em suas obras da juventude. Além disso, imaginar que o autor já maduro estivesse se deparando pela primeira vez com a questão do mal é ignorar sua formação filosófica e religiosa.
Leitores familiarizados com a teoria psicanalítica costumam ver em passagens como a que citamos admiráveis antecipações das ideias de Sigmund Freud. E têm razão, mas quem originalmente antecipou Freud não foi Dostoiévski em meados do século XIX, e sim Agostinho no final do século IV. O título original de Memórias do subsolo era Ispoved, “Uma confissão”, em alusão às Confissões de Jean-Jacques Rousseau (um dos vários interlocutores do homem do subsolo), que por sua vez se inspirara na obra homônima do filósofo cristão. Mas entre a obra de Dostoiévski e a de Agostinho há mais do que um vínculo indireto: os dois autores abordam o problema do mal de forma muito semelhante.
No livro II de suas Confissões, Agostinho recorda a história de um roubo. Certa vez, em sua desregrada adolescência, ele e alguns “jovens malvados” roubaram os frutos de uma pereira, os quais não lhe eram atraentes nem pela aparência, nem pelo sabor. Ele mesmo, aliás, dispunha de frutos melhores em casa. Conta que roubaram as peras em grande quantidade, não para com elas se refestelar, mas para lançá-las depois aos porcos. O autor pondera então sobre as razões que teriam levado a ele e seus companheiros a praticar ato tão vil e desnecessário: “Roubei, não instigado pela necessidade, mas somente pela penúria, pelo fastio da justiça e pelo excesso de maldade. [...] Não pretendia desfrutar do furto, mas do roubo em si e do pecado”Agostinho conclui:
“Eis o meu coração, Senhor, eis o meu coração, que olhaste com misericórdia no fundo do abismo. Diga-Vos ele agora o que buscava nesse sorvedouro, sendo eu mau desinteressadamente e não havendo outro motivo para a minha malícia senão a própria malícia. Era asquerosa e amei-a. Amei a minha morte, amei o meu pecado. Amei, não aquilo a que era arrastado, senão a mesma queda. Que alma tão forte se apartava do vosso firme apoio, para se lançar na morte, apetecendo não uma parcela da desvergonha, mas a própria desvergonha!” (Agostinho, 1972, p.48-49)
Tanto o herói dostoievskiano quanto Agostinho descobrem em si, admirados, um indiscutível prazer com o sentimento da própria abjeção — com o chafurdar no “lodo”, na “ignomínia”, na “desvergonha”. Ao se ler um texto como Memórias do subsolo, destituído de qualquer teor explicitamente religioso, é fácil esquecer ou ignorar as raízes cristãs da visão de mundo dostoievskiana. Por certo, as questões abordadas por Dostoiévski nesta e noutras obras são de interesse humano geral, e não estritamente religiosas (ou então elas só interessariam a um público bastante seleto). Mas, de todo modo, julgamos útil reconstruir o caminho pelo qual essas questões chegaram à consciência do autor, antes de se materializarem em suas obras.
Se o herói-narrador de Memórias se põe surpreso diante do Mal, não é porque Dostoiévski, já com seus quarenta e poucos anos, estivesse se deparando com essa realidade pela primeira vez: é sobretudo porque seu herói encarna o ponto de vista de um triste herdeiro do racionalismo oitocentista que a personagem mesma critica. Nesse sentido, a novela se constitui como uma satírica encenação da (re)descoberta do Mal por parte de um “homem instruído do século XIX”. Isso diz algo sobre o método de composição de Dostoiévski: revela sua capacidade de abordar questões fundamentais para ele a partir de perspectivas diferentes da sua, ou pelo menos não de todo identificados com ela.
Podemos, assim, melhor compreender o “argumento” de Dostoiévski na polêmica que ele então travava com seus interlocutores utilitaristas. Homens da razão e da ciência como Tchernichévski, mais do que ignorar a presença do Mal, pareciam incapazes de concebê-lo — sequer saberiam nomeá-lo. Era o que tornava sua ingenuidade perigosa aos olhos do autor de Memórias do subsolo. No mundo de Dostoiévski, onde a linguagem desempenha um papel tão importante, o Mal é tão mais destrutivo lá onde não há palavra para ele.
Referências
AGOSTINHO. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos, S.J. e A. Ambrósio. São Paulo: Abril, 1972, Coleção Os Pensadores.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. Trad. Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009.
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