As cidades invisíveis, de Italo Calvino

Por Pedro Fernandes


Algumas obras são sempre marcantes. As cidades invisíveis está entre elas. Não consigo (talvez pela minha limitação de ainda um leitor ingênuo) captar aqueles paradigmas elegidos pelo próprio Italo Calvino em Por que ler os clássicos (livro do qual só li a primeira parte), que possa inscrever esse título no rol do clássico. Mas, há um experimentalismo de raio fantástico motivador para se firmar essa condição de marcante. Não apenas isso: o livro foi um dos que me serviu de porta de entrada para a obra de Calvino.

Quando fui dia desses à livraria e encontrei com o progresso da reedição completa da obra do escritor italiano oferecida pela Companhia das Letras, foi que me lembrei dois importantes livros que li (além do que comento aqui, Seis propostas para o próximo milênio, numa roda de leitura que me serviu de introdução à obra de Calvino). Recentemente (isso depois de sobejar as três primeiras páginas) coloquei mais um para a lista de leituras: chama-se Se um viajante numa noite de inverno.

As cidades invisíveis é a história de que a fantasia colore o real. E que o real só há de ter alguma graça se se deixar ser tingida por ela. Como personagem central da obra, o mercador Marco Polo que se põe a narrar ao imperador mongol Khan as cidades que visitara em sua trajetória ao Oriente.

Creio - com bastante ingenuidade - que essa obra carrega em si os seis propósitos estabelecidos nas Seis propostas para o próximo milênio: a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade, a multiplicidade e a consistência. São 55 cidades ou por que não apenas uma projetada de ângulos de visão diferentes impressas no próprio conjunto do qual elas fazem parte: as cidades e a memória, as cidades e o desejo, as cidades e os símbolos, as cidades delgadas, as cidades e as trocas e outras cidades.

O diálogo que essa obra constrói será também com a noção de espaço, entendido este não como um traçado racional e geométrico, mas um espaço subjetivo, corpóreo, um signo produtor de elementos fundamentais à existência humana. Ou ainda a viagem como processo de composição da experiência.

Bom, há muito o que explorar nessa obra; o próprio escritor terá dito que As cidades invisíveis foi o livro que deve ter dito mais coisas: "será talvez porque tenha conseguido concentrar em um único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjeturas".


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