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A garota da capa vermelha, de Catherine Hardwicke

Por Pedro Fernandes



Não é a primeira vez que o cinema volta-se para os clássicos da literatura infanto-juvenil e busca uma releitura, também não será a última com este A garota da capa vermelha. O fato é que essas produções são agenciadas por um péssimo mal gosto cinematográfico cujo interesse está reduzido - assim como parece ir dando provas cada vez mais o cinema - a espetacularização da imagem. O filme de Hardwicke, cujo propósito está no de uma releitura do clássico d'A chapeuzinho vermelho é exemplo disso.

Tudo nesse filme caminha para o trash - desde a composição do cenário onde corre as cenas, o vilarejo de Daggerhorn - até atuação e arrumação dos figurinos. Num interesse de recuperar o ar dos ambientes encantados das histórias de fada, A garota da capa vermelha exagera na maquete e nas cenas de estúdio o que deixa o filme pesado e claustrofóbico. Evidente que esse é o estado a que se ver reduzido o vilarejo - já que é o lugar um cenário de pessoas ressabidas que convivem há muitas gerações com a presença mitológica de um lobo. O problema, entretanto, está no exagero dessa opressão. 

Bem, mas a que se resume o enredo? Tudo começa a andar, quando depois de criado uma espécie de pacto de paz entre as pessoas do vilarejo e o lobo, os limites do pacto não são respeitados. A morte de uma jovem pelo lobo levará todo o vilarejo à cata do bicho até descobrir que o lobo é na verdade um lobisomem e que este pode ser qualquer um da vila. Aqui se instala mais um defeito do filme: o andamento enredo para o seu desfecho. A trama se embebe do clichê policialesco e vai sendo - como numa espécie de quebra-cabeças - reduzida à busca de uma solução para quem poderia ser o lobisomem. A máxima todos são suspeitos até se prove o contrário leva a plateia desavisada a acreditar que o único não possível de ser o lobisomem é o telespectador que está fora da trama.

E tudo se processa com a chegada ao vilarejo de um padre, também suspeito. Talvez se fosse explorado melhor a relação entre mito e religião que o filme ensaia em fazer o policialesco não se reduzisse ao fracasso que se reduz. Mas o foco se volta para um "romancinho" adocicado entre Valérie e o galã rejeitado do vilarejo. Valérie está prestes a se casar com um rapaz que não ama e tudo toma um rumo diferente não porque o galã rejeitado do vilarejo intervenha na união não-quista por ela, mas porque chega aos ouvidos do padre investigador que a dita cuja tem o poder de conversar com o lobo. Aqui, o filme encontra mais uma clareira que poderia explorá-la. Mas, novamente, perde-se. O paradoxo Bem e Mal, Deus e Diabo e a relação do feminino com isso tudo parece ser muito complexo para a diretora que prefere não ir por esse caminho e volta ao clichê.

O que já possível de notar é que esse filme de tudo ensaia, mas não consegue desenvolver nada. O resultado é um enredo truncado, adolescente, piegas e reduzido a um romance de meia tigela. 

Quanto à arrumação das personagens - fato que não poderia deixar de comentar - perde-se também nos clichês. O cabelo espetado com gel do galã rejeitado pelo vilarejo é apenas o mínimo erro que se vê no filme. Parece que a diretora não conseguiu se despir - parece não, ela não conseguiu se despir dos estereótipos do primeiro Crepúsculo. Para a crítica mais consagrada Catherine não se sustenta como boa diretora e repete as mesmas jogadas cinematográficas que utilizou no filme dos vampiros. O resultado finda com um elenco, que está mais para novela mexicana, deslocado do contexto em que se passa o filme e de personagens superficiais e pobres psicologicamente ferindo (e muito!) o princípio da organização do clássico.  

A garota da capa vermelha bem que se esforça para convencer o telespectador de que foi uma boa realização, mas só convence aos leigos-leigos em cinema. E para dizer que nada desse filme escapa, a fotografia das cenas interiores do vilarejo convence, mas não é suficiente o que acaba levando este filme para o rol dos filmes não-brilhantes, mas que carecem de um comentário.


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