Uma viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares

Por Pedro Fernandes

Gonçalo M. Tavares. Foto: Mariline Alves


Se recordamos o périplo de Ulisses na Odisseia, um dos poemas que constitui os grandes pilares da literatura, podemos afirmar que o motivo da viagem surgiu com a própria literatura. O termo que enfeixa as várias narrativas do grande épico grego chegou mesmo a se estabelecer no vocabulário da língua portuguesa como substantivo figurado para designar qualquer trajetória extraordinária ou de grandiosos feitos, assim como epopeia, que antes caracteriza esses poemas em que são narradas os feitos excepcionais de um herói. 

Na literatura portuguesa, um dos seus livros fundadores, recorre ao modelo épico e ao tópos da viagem. Os Lusíadas, composto por Luís de Camões e publicado em 1572, narra a viagem de Vasco da Gama que serviu à descoberta de uma nova rota para a Índia e mais adiante com outros exploradores o estabelecimento de outras fronteiras para o império português no que a Europa passou a chamar de Novo Mundo. Esses itinerários constituíram os primórdios da usança do capital e do que a geografia conceitua como globalização.

Fiquemos apenas em águas literárias. No começo dos anos 1920, James Joyce publica Ulysses, o romance que radicaliza de forma paródica o épico de Homero. O mundo dos grandes feitos é substituído pelo mundo do trivial: o homem não se encontra mais a um passo acima dos demais mas é o seu semelhante e nas reduções a viagem é tão somente o périplo desse homem comum pela urbe em um dia de junho de 1904.

É do cruzamento entre esses dois pontos singulares para a literatura, o do épico camoniano e o da paródia joyceana, que se estabelece Uma viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, também autor, nesse mesmo feitio, de O fim dos Estados Unidos. As relações entre essas três obras certamente já exploradas são evidentes: o enredo e mesmo o périplo — outra vez um português a caminho da Índia — ou a trivialidade de um protagonista desenvolvido à sombra do modelo do herói épico são algumas das similitudes possíveis de se vislumbrar desde a superfície do texto. 

Agora, situado numa época em parte indiferente às determinantes nacionalistas, como se mostrava nas promissoras primeiras décadas do século XXI, este possível poema não se circunscreve nas fronteiras culturais de um país. O estatuto de português do protagonista dessa viagem é apenas uma inscrição que não o fixa numa identidade. A constante repetição do lugar de partida e de pertença, aliás, é um dos sintomas desse sujeito que, no desfronteiriço novo tempo, busca agarrar-se a qualquer coisa que o coloque em relação com os demais. Mas este Bloom é um homem do mundo, ou o homem-no-mundo.

Giorgio Agamben distingue um Bloom como um tipo do nosso tempo; é o “que executa pontualmente tudo o que lhe é dito e deixa que os seus gestos cotidianos, como sua saúde, os seus divertimentos, com suas ocupações, a sua alimentação e como seus desejos sejam comandados e controlados por dispositivos até nos mínimos detalhes”; “o inócuo cidadão das democracias pós-industriais” considerado pelo poder “como um terrorista virtual”. Ao descrever a Europa para o fajuto guru indiano, o Bloom de M. Tavares discorre que o velho continente foi invadido “pela ciência de uma ponta à outra” — este talvez seja o dispositivo que ocupa o lugar dos deuses e faz do protagonista uma alegoria do homem no século XXI.

Esclarecido, capaz de responder o mínimo escondido pela razão — a astúcia desse viandante reside numa intuição educada para o fim da antecipação —, o que este homem procura na Índia é o reencontro com a essa dimensão adulterada ou sequestrada pela ciência, o que os antigos tratavam por um desconhecido campo administrado pelos deuses e mais adiante chamou-se alma, espírito, essência. Os itinerários podem ser novos, mas parte do que procuram os viajantes é ainda a resposta à pergunta quem sou. Bloom traz consigo a resposta atribuída pelos mecanismos sociais que o regem como cidadão, mas esta é sempre inadequada ou insuficiente. No seu caso, a inadequação provém das atitudes desmesuradas que o transformam num errante.



Quer dizer, está claro para o leitor, qual a matéria desse Bloom. Como a viagem, o motivo da errância é tão antigo quanto a literatura; atinge ao homem toda vez que ele toca os desígnios dos deuses. O protagonista de Uma viagem à Índia cruzou a linha da humanidade quando no interior da cultura cristã e do aparelho jurídico dela derivado, envolve-se, primeiro, no parricídio em nome da vingança pelos seus interesses amorosos subtraídos, depois, seduzido pela liberdade absoluta ou de sentidos anestesiados pela mesmidade das coisas se deixa queimar pela chama do absurdo.

Porque é de um errante que falamos, seu itinerário é irregular. Antes de alcançar o destino de sua viagem, correrá outras partes da Europa, nomeadamente aquelas que significaram na história recente do pensamento e das artes os marcos essenciais — Londres, Paris, Viena, Praga — e em cada um delas, seja porque seduzido por uma ideia fixa, seja porque assombrado pelo passado terrível, o que Bloom encontra sãos os mesmos tipos degradados ou degredados, o homem tomado pelo interesse no capital, e o mundo das mesmas cores da sua melancolia assim se manifesta habitado com por uma raça única.

Enquanto se percebe o mesmo na mesmidade — o mundo é uma região indistinta porque as individualidades culturais são inacessíveis uma vez que a única possibilidade de contato com elas é pela via de uma língua neutra e inautêntica —, este errante destila a desconhecidos ou mesmo para o narratário as linhas de uma filosofia que se revela feita de reaproveitamentos. Bloom é ainda o tipo descarnado de Fernando Pessoa no Livro do desassossego. Seus filosofemas cujos sentidos ora indicam o óbvio, ora são retórica vazia, ora máximas cujo alcance moral tampouco serve ao seu autor, revelam o homem doente de pensamento. Em tudo, Bloom é o perdido na Era dos Excessos, esta que desde quando na ausência de Deus se fez da decomposição de Sua Verdade em verdades relativas em número variável ao das mentes humanas.

Ligado apenas às suas convicções ou àquelas que o fizeram suas, nem mesmo a mística Índia pertence a esse desígnio fabulado pelo viajante e a constatação formulada de um troca de interesses definitivamente capitais — dois livros antigos carregados na bagagem sempre cobiçada do bibliófilo Bloom por uma rara edição do Mahabharata, peça singular na biblioteca onde repousa o simulacro épico que é o próprio livro de Gonçalo M. Tavares — é mesma que fora alcançada nos demais pontos da geografia percorrida por Bloom: resulta sempre em aparência o conhecimento autêntico do eu e sua natureza, expressamente para o homem educado no modelo civilizatório vigente.

O desfecho da viagem de Bloom — desfazendo-se do raro livro obtido do falso místico Shankra, quase entregando-se à força última do homem esvaziado de tudo, possivelmente submetido às leis dos seus semelhantes — é singular. O inferno está aqui e não é o outro, somos nós próprios. E enquanto vivemos, para bem e para mal, é isso o que resta. Como diz os versos de Carlos Drummond de Andrade: “Inútil você resistir/ ou mesmo suicidar-se.” As errâncias servem no mesmo ponto que a espera. As místicas explicam. O sentido dessa viagem é puramente de cada um.

No mundo marcado pelo desfronteiriço — para uns poucos abraçados pela globalização —, viaja-se para espairecer, ou seja, pratica-se um turismo desinteressado na cultura do outro, ou agora teleguiado pelos itinerários pré-determinados na vida virtual. A viagem é por esquecer a vida corriqueira em nome da paz e do relaxamento — ou da badalação. Essa noção de viagem encontra certa matriz mística; sem saber o que procuramos, talvez ainda estejamos motivados por saber quem somos. Esses dois recursos são mobilizados no itinerário de Bloom, mas o narrador (ou propriamente o escritor) desautomatiza-os. Parte na era da mesmidade, esse viajante encontra em toda parte o desencontro e a falta mesmo do misticismo que poderia reconduzi-lo a uma certeza de si. Ao errante resta o regresso, o ponto a partir do qual poderá, sisificamente, recomeçar tudo outra vez. Ou, no caso da personagem de Gonçalo M. Tavares, o impasse entre a liberdade e a oclusão; seu lugar pode ser sintetizado nos versos de Manuel Bandeira: “Que importa a paisagem, a Glória, a baia, a linha do horizonte?/ — O que eu vejo é o beco.”


Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

Dez poemas e fragmentos de Safo

Mimesis e a sua importância para o estudo da Literatura

Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

Hilda Furacão, a Cinderela boêmia

Com licença poética, a poeta (e a poesia de) Adélia Prado